Da
Silva nasceu no ano de 39, junto com a Grande Guerra, Se fosse alguém
importante os jornais do dia seguinte noticiariam NASCEU DA SILVA; vieram, porém,
apenas com as manchetes da guerra. Desta maneira simples o mundo costuma
demonstrar seu desinteresse pelas pessoas comuns, e Da Silva era uma pessoa
comum, o mundo ainda não sabia que ele viria a ser no futuro o Homem
Evanescente. Sei-o eu, não porque o narrador de histórias quase sempre sabe
tudo, mas porque o conheço pessoalmente, somos amigos e, mais que isso, sei-o
porque o futuro já chegou aos dias de hoje e agora só não o sabe quem é
distraído.
Sua infância foi tranquila, longe
daquela guerra, pois nascera ele em uma das repúblicas da sempre atrasada
América do Sul e, por aqui, não importamos as guerras dos outros, bastam-nos as
nossas. Da Silva comeu e bebeu o que lhe foi ofertado, brincou o devido e
cresceu o prometido. Com doze anos já era um adolescente e com dezoito, homem.
Aos vinte, trinta e quarenta não passava de uma pessoa comum, exceto pela perda
dos cabelos, iniciada com parcimônia aos trinta e prosseguida com desenvoltura
aos quarenta; aos cinquenta já se lhe abria expressiva clareira no topo da
cabeça. Mas não foi só isto, não se chega impunemente aos cinquenta: aceita a
calvície, Da Silva demorou para perceber
que começara a ter dificuldade de ler as letras miúdas do editorial de seu
diário. Presbiopia, o diagnóstico, vista cansada. Passou a usar óculos de leitura.
Odiava-os e os esquecia quase sempre em cima de alguma mesa. Um amigo sugeriu
que os levasse pendurados ao pescoço, como um colar, e Da Silva, por cordato
que era, ou por dever de amizade, andou algum tempo desfilando aquela figura
ridícula, óculos caídos ao peito presos por cordão preto. Por ter o amigo se
extraviado ou por ter o dever atingido prazo de validade, em dois anos
abandonou ele o colar e voltou dignamente a ter os óculos esquecidos nas
antigas mesas.
Mas se, pelos óculos, reconquistara a
dignidade, começou a perdê-la em relação a tudo mais. Sabem-no todos os que
atingiram os cinquenta anos, é a partir daí que começa a inexorável decadência.
É a quadra da vida que eufemisticamente a maldade humana insiste de batizar de
melhor idade. Apareceram a Da Silva dores nos quartos, que lhe desciam pelas
pernas se resolvesse caminhar alguma distância; o nível de açúcar no sangue deu
de subir e o colesterol, invejoso, foi-lhe ao encalço; a pressão arterial não
quis ficar para trás e subiu também. Todas estas coisas fizeram Da Silva
procurar o médico mais vezes do que frequentava o padre. Para ser sincero, o
incremento das consultas ao primeiro correspondeu a um decréscimo das visitas
ao segundo, talvez porque a crença na ciência seja sempre acompanhada pelo estiolamento
da fé. Sendo ou não esta uma verdade ontológica, foi desta forma que ocorreu
com Da Silva; em pouco deixou de ser religioso. Por comodismo não chegou a ser ateu, continuou a identificar-se como católico nos formulários burocráticos,
mas não pensou mais em santos.
A glicemia elevada obrigou-o a uma
rigorosíssima dieta, que lhe comeu as carnes. Ficou magro, e magro estava
quando foi acometido de fortes dores no abdome: eram cálculos biliares.
Operado, tiraram-lhe as pedras e, com elas, foi-se lhe também a vesícula.
Resultado: de magro passou a magérrimo.
Uma leitora piedosa dirá que os
males que acometeram Da Silva terão sido um justo castigo ao seu comportamento
ímpio. Pode ser, abstenho-me de julgamento. Contudo, se deveras o foram, muito
maior seriam os castigos que ainda lhe adviriam, coitado do Silva. Mas vamos
por partes.
Iniciou lenta recuperação o doente.
Aos poucos foi ganhando peso, só que ao mesmo tempo subia o açúcar do sangue.
Pressionado pelo médico, ele, que sempre fora indolente, deu-se a exercícios
físicos. Por imperícia ou má sorte feriu o pé enquanto corria, pisara em um
caco de vidro. Foi atendido, suturado e medicado, mas, por causa do diabetes, a
ferida não sarava: infeccionou, gangrenou. Amputaram-lhe a perna.
Magro e de muleta, Da Silva parecia
uma figura de desenho a andar pelas ruas de nossas cidades: um par de traços verticais.
Talvez por isto, pelo pouco material usado no desenho, não foi visto pelo
motorista do carro que o atropelou, quando Da Silva, respeitador de normas,
atravessava pela faixa de pedestres o cruzamento da avenida. Socorrido e levado
a hospital, extraíram-lhe o baço, que havia se rompido.
Nova convalescença, coitado. Magro e
definhando olhava-se ao espelho toda manhã e mal se reconhecia; os olhinhos
fundos, rodeados de expressivas olheiras, faziam-no imaginar uma pintura
surrealista, onde duas azeitonas pretas portuguesas jaziam abandonadas no
centro de pratos escuros, como sobra de algum repasto. Contrastava com essa
negrura o branco de neve suja de seu rosto esquálido. A cabeça, grande para a
finura do pescoço escanifrado, parecia conservar por milagre a postura ereta e
traía com claudicações involuntárias o esforço para assim se manter. Foram
necessários meses de tempo e paciência para que Da Silva se recuperasse.
Ei-lo de volta ao normal de sua
existência, agora um pouco mais leve, sem os cento e vinte gramas do baço.
Tornou a recobrar o bom humor e a alegria de viver, pois — falha deste
narrador, que só agora se lembra de informar — leve também lhe é a disposição
com que enfrenta os fados. Apesar das vicissitudes de sua história, nunca
deixou de ser um otimista, o que nos leva a levantar a hipótese de que as
pessoas otimistas, independente das agruras que pela vida enfrentam, jamais
deixam de ser otimistas, pois já nasceram com esse defeito.
Uma coisa, porém, foi alterada na
persona de Da Silva, após o acidente voltou a frequentar a igreja. Talvez tenha
sentido a presença da morte. Dizem que até os mais ímpios a ela se rendem, e que
na presença dela muitos voltaires se transmudam em rousseaus. Nem seria preciso
tanto, pois deixamos claro, há poucas linhas, que Da Silva não chegara a ateu,
ficando a meio caminho entre as duas personagens citadas. Contudo, agora está
ele um verdadeiro Rousseau, um pouco menos letrado é verdade. Assediado por
companheiros evangélicos, não caiu em tentação, voltou ao antigo padre, o que
não deixa de ser prova de um caráter fiel.
Almocei ontem com Da Silva e
comprovei aquilo que sempre suspeitei: a felicidade é mais facilmente alcançada
pelos pobres de espirito. De muleta, magérrimo, sob dieta rigorosa e remédios
variados o homem é feliz. Mais que a boca, dizia-o a expressão: cara limpa,
olhos brilhantes. Agradece a Deus a vida feliz que teve, sem amarguras.
— Como sem amarguras? — espantei. —
Pois todas as mazelas físicas que você tem tido não pesam nada?
Depois de pensar um pouco, ele
respondeu: — Pesam pena. — Senti ter atingido o alvo. Nem poderia ser
diferente, a realidade crua da vida se impondo.
— Pesam pena — repetiu — mas não
pena de desgosto. Pena de galinha!
Propôs-se então a deitar falação de
livro de autoajuda, mas não deixei; dever de amizade tem limite, eu não
aguentaria. Fechado esse caminho, Da Silva sorriu e, manso como uma mãe servindo
pudim a seu pequeno, disse:
— Meu amigo, as coisas podiam ser
piores. Imagine se tivesse eu problema de próstata, fosse operado e ficasse com
incontinência urinária; imagine mais (hesitou um instante), com minha idade já
poderia estar caduco, sofrendo de demência. Estaria então de fralda geriátrica
e babando na camisa. No entanto estou aqui, bebendo consigo uma boa cerveja,
comendo um bife grelhado e conversando amenidades. Não é isto felicidade?
Claro que não respondi. Por que iria
eu tirar a felicidade do amigo?
Depois de nos despedir fiquei
pensando, o Da Silva não é tão ingênuo assim, quando falou “minha idade” teve
um momento de hesitação, parecia querer dizer “nossa idade”, e só não o disse
por educação. Como sou quase dois anos mais velho que ele, tudo que falou serve
para mim também, é só vestir a carapuça. Vade retro! Terminar a vida de fraldas
e com Alzheimer seria cruel tanto para ele como para mim. Honestamente, mais
para ele, cujo corpo vem sumindo há muitos anos. Só faltava mesmo sumir também
a cabeça.
Torço para que Da Silva não seja um
vidente.
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