A colina, inundada dos raios
oblíquos do Sol poente, ainda há pouco irradiava a luz verde do gramado. Ido o
Sol, a cor da grama desmaia em tons de cinza. Não demora e a pintura do chão
vai se juntar ao cinza do céu num esforço de tornar indistinguíveis terra e ar.
O noviço galga a encosta em passos
leves. É jovem e está só. Estivesse acompanhado de frei Alberto reteria o passo
ao ritmo do ancião. Quantas vezes fizeram juntos este caminho e quanta filosofia
gastaram! Estiveram então bem acompanhados dos doutores da Igreja, o sensual
Agostinho e o cerebral Tomás de Aquino. Hoje o rapaz prefere estar só, tem de
conversar consigo mesmo.
Chegado ao topo, Pedro (este é o
nome do noviço) senta-se no gramado e olha o caminho percorrido. Lá embaixo, em
meio de uma ciranda de mangueiras, o velho mosteiro ostenta uma brancura
enferrujada bonita de se ver, alvura enfeitada com a pátina do tempo, algo como
um quadro antigo esquecido num canto de sótão.
Amanhã fará o moço os votos de
pobreza e receberá o manto rústico dos capuchinhos.
Contrastando com o desassossego do seu
peito, o mosteiro descansa plácido nas pupilas do rapaz. Ele faz um ligeiro
movimento de cabeça para a esquerda e vê o horizonte ainda claro, outro
movimento, agora para a direita, o horizonte quase escuro. Nele surgem
envergonhadas duas ou três estrelas que, de tão tímidas, parecem ter recolhido
seus raios de luz deixando escapar apenas pontos de tom branco-leitoso.
Pedro foi criado pelo padrinho, que
o acolheu depois que um acidente matou pai e mãe do menino.
— Deus levou seus pais porque
precisava deles — explicou-lhe na ocasião o padrinho. De fé singela, católico
beato, cria o homem piamente naquela verdade. O menino, verde de anos, também o
creu, mas, mimado de colo de mãe, cresceu roendo o sofrimento duro. Hoje,
rememorando, cobra coragem e se pergunta:
— E eu, não precisava deles mais que
Deus?
Não convém rememorar o passado, o
que foi bom vem dissolvido pelos anos e o que foi ruim parece que volta
crescido, fermentado pelo tempo. Lembrança atrai lembrança e Pedro se vê de
novo com Irene, a menina de cachos no cabelo que morava na casa da frente.
Pouco mais velha que ele deu de lhe sorrir quando pela manhã ele abria a janela
do quarto. Era um sorriso bom que logo viciou o menino, o dia ficava melhor
quando assim começava. Como a memória tem seus lapsos, a de Pedro pula da
janela para o quintal da vizinha. Estão lá os dois, tarde quente, à sombra da
frondosa mangueira. Imagens estrangeiras costumam às vezes se imiscuir na
memória lembrada; neste instante perpassa a figura de Casemiro à sombra dos
laranjais. Passa rápida, mas dá tempo de Pedro comparar: o poeta estivera só
enquanto ele, Pedro, muito bem acompanhado. A menina, de uma lindeza de revista
e com sabedoria de muitas coisas ensinou e praticou algumas com ele. Não que o
menino fosse totalmente ignorante nas tais coisas, dado que já era púbere e o
corpo vinha manifestando exigências muito bem explícitas. Por isso talvez tenha
sido tão fácil o aprendizado, era como colocar a mão na luva, imagem esta
infeliz, pois as tais coisas eram feitas à mão nua.
Pedro lembra como tinha sido bom e
lembra também que o catecismo dizia que aquele bom era pecado, que aquelas
coisas deviam ser evitadas. O menino cresceu em pecado e talvez esse
sentimento, mais que o desejo do padrinho, o tenha levado à vocação religiosa.
Hoje, porém, questiona-se: por que o celibato? Não é através do sexo que se
perpetua a vida? Não se justifica tanta proibição, pois foi o próprio Deus que
inventou esse caminho.
E, no entanto, Pedro amanhã fará os
votos.
Por definição Deus é a suprema
bondade. Por que então levou seus pais quando ainda ele era menino? Por que não
esperou alguns anos, até o menino virar homem e entender a lei da vida? Por
que, ao contrário, muitas vezes inverte a lógica do mundo e leva o filho antes
do pai? Por que não raro mata a mãe no momento maravilhoso da criação, em que
dá à luz o filho gerado? Por que permite catástrofes que aniquilam tantos
viventes, como o meteorito de Iucatã, que extinguiu os dinossauros e metade da
vida do planeta? Qual o sentido de tanta destruição?
Enquanto Pedro se ensimesma, a Noite
se instala toda poderosa tomando posse da abóboda celeste. Na ausência da Lua,
apresenta-se como uma deusa negra com sarampo de estrelas. Os pontos luminosos
faíscam febris, mas não chegam a perturbar o pretume do céu, que tem por
finalidade esconder de nós, mortais, o abismo profundo que paira sobre nossas
cabeças. Os pontos de luz, que até bem pouco eram frágeis, quase opacos,
apresentam-se agora desavergonhados e rutilantes, mas pontos ainda. Assim os vê
nosso Pedro. Tivesse um pouco de imaginação invocaria o olhar de um Van Gogh e
os veria como de fato são, uma coleção de girândolas de estrelas a rodopiar na
imensidão vazia.
Do céu preto o universo nos olha.
Milhões de bilhões de estrelas, quanta vida haverá! Não somos os únicos, Deus
não fez o mundo só para nós, menos ainda para um povinho escolhido, como reza a
Bíblia. O universo estará pleno de vida, mas jamais conheceremos nossos irmãos
celestes, as distâncias estelares são intransponíveis para todo o sempre.
E Deus, ele próprio, existirá
realmente ou é apenas invenção humana? O universo tem catorze bilhões de anos e
a vida na Terra nem dez por cento disso. Se a vida é importante, não terá
havido uma imensa perda de tempo? Menos de dez por cento dos planetas reúnem
condições de vida, os outros noventa são inóspitos. Não é isto um imenso
desperdício? Ou será que a vida em si não passa de um descuido da natureza e
não seja mais que pretexto para a fútil jactância humana?
Quanta pergunta, quanta dúvida! O
coração do noviço fraqueja. A razão deveria fortalecer a fé, como ensinou Santo
Tomás, e não enfraquecê-la. Uma fé verdadeira deve ser inquebrantável, e a dele
parece ser corruptível. Pobre moço, está só! Estivesse ali neste momento frei
Alberto, talvez lhe recordasse que mesmo os mais fortes fraquejam, até Simão, o
outro Pedro, por direito sucessor do Messias, não negou o mestre por três
vezes?
Absorto em pensamentos Pedro ainda
mira os céus, porém, com a atenção agora toda voltada para si, não os enxerga
mais. Escapa do abismo celeste para cair nos despenhadeiros da própria alma.
Antes que caiamos nós também nessas
profundas, melhor retirar-nos. Deixemos Pedro só. Com seus solilóquios.
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