Mateus passara havia pouco dos
setenta e continuava a ser o mais jovem integrante do Clube da Bengala,
organização sem fins lucrativos destinada a promover reunião mensal de seus
membros ao redor de uma mesa, tendo por objetivo alimentar estômagos e
espíritos. O nome da entidade, porém, não pôde até hoje ser oficialmente
declarado por sofrer impugnação de um dos sócios, o João, para quem o termo
“bengala” é pejorativo. Prefere ele o nome Clube do Chope, que não trai a idade
dos integrantes, nem remete a presumíveis dificuldades locomotoras. Os outros
dois membros do clube, Lucas e Marcos, abstém-se de tomar partido nessa
disputa, de modo que se mantém indefinido o nome do grupo. Do que já foi dito
fica implícita a notícia de que são apenas quatro os seus componentes, mas nem
sempre foi assim. Em épocas mais gordas o clube já teve seis integrantes, como
dois já morreram, sobram, então, os quatro agora apontados.
Todas estas explicações creio que
venham a causar algum enfado a um leitor pragmático, contudo, meu manual de
redação ensina que, ao se contar uma história, há que se fornecer muitas
informações para que se lhe dê crédito. Se fora dado também ao narrador o
direito de palpitar, sugeriria eu aos quatro cavalheiros o nome Evangelho do
Chope para sua agremiação, título que traz consigo uma sagrada dignidade e
combina com os nomes de seus integrantes, coincidentemente os mesmos dos evangelistas.
Estaria assim resolvida, santa e pacificamente, a disputa entre João e Mateus,
sem vencido ou vencedor, o que representaria uma boa ação a ser contabilizada
em meu prontuário celeste. Diz o manual, contudo, que não é assim que as coisas
devem ser.
Fechemos o introito e comecemos de
vez a nossa história. Naquele dia, que não vai longe, o nosso Mateus apeou-se
do metrô no Largo de São Bento, caminhou até a Praça Antônio Prado e entrou no
restaurante combinado. Viera cedo, quase mineiro que era, os outros membros do
clube ainda não haviam chegado. Poucos fregueses ocupavam algumas mesas.
Escolheu uma vazia, bem iluminada, e abancou-se, odiava comer no escuro. O
garçom lhe trouxe o cardápio, ele explicou que esperava amigos e pediu uma
caipirinha, com pouco açúcar. Depois de alguns minutos veio a bebida, doce
demais, como sempre. Ele não reclamou, conformado que já estava por viver em um
país canavieiro. Olhou o relógio, os amigos estavam atrasados. Não se importou,
os anos lhe haviam domado o temperamento sanguíneo, a pimenta vermelha herdada do
avô napolitano perdera o ardor nos embates e tropeços da vida. Era hoje um
sujeito plácido e tolerante, pelo menos assim se julgava. Os outros membros do
clube discordavam disso, mas ele entendia que assim faziam por pirraça, só para
provocá-lo. Passou a estudar o cardápio, pratos e preços, por que as fotos ilustrativas
são sempre mais apetitosas que os pratos reais? Esses fotógrafos mereciam um
Oscar.
A caipirinha termina. Pede outra?
Melhor não, Isabel vem se queixando de que sua barriga está cada vez maior e
que o enfarto está logo ali, virando a esquina. Cruz credo, vade retro! Bate na
madeira três vezes. Sorri. Por que será que a gente continua a praticar estas
ações com tanto automatismo, mesmo não acreditando nelas? Será reflexo
pavloviano ou no fundo ainda se tem alguma crençazinha? In dubio pro reu... No
creo en las brujas, pero...
Olha de novo o relógio, os amigos já
estão atrasados mais de meia hora. Que diabo! Tirando o Lucas, sempre muito
ocupado, os outros dois são pontuais. Terá acontecido alguma coisa? O garçom se
achega, impaciente. e Mateus, somando a impaciência do garçom com sua
preocupação nascente, pede outra caipirinha, insistindo no açúcar.
Enquanto a bebida não vem, ele sobe
ao andar superior, onde o restaurante mantém um salão maior. Quem sabe os
amigos tenham se confundido e ido ao tal salão. Passa a vista pelas mesas,
quase todas ocupadas, mas não os vê. Retorna ao piso inferior no momento em que
o garçom lhe traz a nova caipirinha. Prova-a: doce demais. Conta até dez e dá
de ombros.
Olha o relógio de novo. Quarenta
minutos! A caipirinha já o está deixando tonto, mais meio copo tomado sem comer
nada. Às favas os amigos! Chama o garçom e pede uma omelete com salada.
*
Isabel, em casa, recebe um
telefonema de Lucas: Cadê seu marido, marcou um almoço e não apareceu até
agora? Mas se ele saiu faz mais de duas horas! Pronto, aflição nas duas pontas
da linha. Isabel se desespera, algo de ruim aconteceu. Lucas tenta acalmá-la:
Vamos procurar por aqui, ver na delegacia, fique calma, damos notícia. Isabel
diz que vai até a estação do metrô, indagar de acidente, avisa qualquer coisa.
Saem todos em busca do amigo-barra-marido sumido. Nada de acidente, nada de
ocorrência policial. Isabel liga para a filha Margô, uma a mais aflita, uma a
mais a procurar o desaparecido.
*
Mateus terminou o almoço há quase
uma hora, saiu do restaurante e, em vez de ir para o Largo de São Bento,
dirigiu-se à Praça da Sé, queria passar na Barão de Paranapiacaba para comprar
uma bijuteria para Isabel, que faz aniversário no sábado. Escolheu com cuidado
um par de brincos vermelho, de granada e prata e, só depois tomou o metrô. Antes
das quatro está em casa. Mal abre a porta e o telefone toca, é Margô: Pai, onde
você estava? Todo o mundo está procurando você!
Margô liga para a mãe, que avisa
Lucas. As buscas cessam e Lucas diz que quase acionou o filho, delegado federal.
Isabel agradece e declara que não volta imediatamente para casa para não matar
Mateus. Vai dar um tempo. Lucas ri.
*
Apurou-se depois
que os amigos estavam, sim, no andar superior do restaurante, mas que não foram
vistos por Mateus nem este por eles. A causa seria, segundo ele, uma coluna que
ocultaria os amigos, mas segundo estes — velhos parceiros não perdem chance de pequenas
maldades — a razão seria mesmo a miopia de Mateus.
A partir daquele dia, embora
contrariado, Mateus não saiu mais de casa sem carregar consigo um telefone
celular, aparelho que jurara aos céus jamais usar. Coloca-o no bolso da camisa,
junto ao peito, em módulo só de vibrar, teria vergonha se a campainha soasse.
Aprendeu a atender chamadas, mas não sabe até hoje iniciá-las.
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