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CARAPINHA BRANCA

            A manhã não nasceu ainda, mas vem logo. A noite, grávida de nove horas, empalidece e inicia os trabalhos de parto. Pinta a abóbada celeste de muitos tons de cinza, escuros no poente onde duas estrelas desmaiadas teimam em continuar piscando, e quase azuis no leste, já manchados de algum amarelo envergonhado. São os prenúncios do Sol, que vai escalando a linha do horizonte. Breve será dia, mas ainda antes dele irromper Bastião se abaixa no canto da praça e desfaz a tranca que prende a porta de aço ao chão. Neste momento uma janela se ilumina no prédio em frente e deixa escapar um feixe de luz que atravessa a penumbra da rua e, auxiliado pela brisa que brinca nas ramagens de um flamboyant, logra passar um pedaço de si por entre as folhas tenras, um tantinho suficiente para ricochetear na ondulação da porta da banca e atingir o pescoço e o lóbulo da orelha do jornaleiro, talvez numa vã tentativa de se fazer perceber. Tivesse incidido alguns centímetros mais alto encontraria o olho baço do homem; tivesse esperado um segundo mais, apenas o tempo em que a porta sobe, iluminaria alguma capa de revista. A vida e o mundo são feitos também destas inutilidades.
            Bastião, negro magro, anguloso, poderia até ser modelo de caricatura, tão esquemático é: começa com pés anchos e, num só e longo traço vertical, termina com a carapinha branca, no alto da cabeça. Para ser mais exato, o traço não será inteiramente reto, uma leve curvatura da coluna deverá indicar o efeito de muitos anos vividos. Verdade que a própria carapinha já o indicaria, mas nem todo mundo sabe disso. Há quem diga que quando ela embranquece o homem já passou dos cem; bobagem, dirão outros. Talvez para Bastião o dito não seja verdadeiro, dado que seus movimentos, embora lentos, são firmes. Os fregueses da banca, se consultados, opinariam pela primeira hipótese, a de muitos anos, pois ninguém se lembra da banca sem ele; os vovôs de hoje ainda eram crianças e Bastião já vendia jornal.
            Alheio ao hipotético plebiscito da idade, o homem organiza as montras dando destaque para as revistas femininas, as mais vendidas, depois, mais atrás, coloca as de culinária e dietas e, por fim, quase camufladas, as masculinas, com suas capas provocantes. Respeita o pundonor do bairro. Bem à frente reserva lugar para os jornais do dia, prestes a chegar.
Machado, em elegia fúnebre, disse uma vez que tudo passa nesta vida menos a obra de Alencar. Nosso dia também vai passando, célere para uns, moroso para outros, como sempre foi de sua natureza, verdade que já serviu para sapientes filósofos demonstrarem arrojadas teorias. Os jornais chegaram na hora certa e quase todos já foram vendidos, as moças matutinas vieram buscar as revistas de moda e os meninos bem vestidos, as de quadrinhos; um e outro deles, de roupa velha e chinelo de dedo, perambulam ainda em torno das montras olhando os heróis das capas dos gibis. Hoje eles são raros, o bairro evoluiu, virou de classe média. No entanto Bastião conserva a banqueta antiga e os meninos sabem que nela podem se sentar que o Carapinha lhes emprestará o gibi que quiserem. Ao vê-los o negro sorri e lembra do Poeta, o menino de antigamente que ali sentava quase todos os dias. O recordo lhe adverte que ainda não lera o jornal e que hoje é o dia da semana em que se publica a coluna do Poeta. Ah, cabeça! se recrimina, acha que está ficando velho. Ato contínuo abre o jornal, procura a página certa e lá está a coluna do amigo. Lê. Não precisa nem forçar a atenção, o Poeta escreve em prosa fácil, sedutora como sempre, irmã gêmea da poesia que tem na alma. Mesmo quando o assunto é política, é sempre polido, se preciso bater, bate com pelica, não perde a elegância; é colunista respeitado, com apreço até de adversários. Bastião termina a leitura. Lê de novo. Fecha as páginas, fecha os olhos por instante, depois os abre e mira o fim da rua como se mirasse a linha do horizonte, que se esconde atrás dos prédios. Não está vendo, está pensando. Como aquele menino de pé no chão virou este homem? Sente orgulho. Sente que o peito murcho se infla, envaidecido. Nem sempre o orgulho é um pecado. Sente que foi uma influência boa na vida do menino. Sente que, não tivesse feito outra coisa na vida, este menino, por si só, seria sua realização. Uma umidade repentina lhe faz brilhar os olhos baços e uma lágrima escorrega lenta pelo nariz chato. Carapinha é um sentimental! Olha na banqueta, ao pé de si; ali está Chiquinho, o menino de hoje, absorto na leitura do Superman. Estará sendo gestado um novo poeta, quem sabe um cientista? Um político? Deus o livre!
Todos os dias são iguais. A tarde já anda pelo ato final. O Sol já não é tão fogoso e uma brisa mais fria começa a bulir com a ramagem do flamboyant. Pedaços de sombra se agitam sobre as revistas da montra em contradança com nacos de sol filtrado. Luz e sombra se alternam sobre as revistas, em rodopio; é a forma como o vento se inteira dos assuntos humanos.
A moça de cabelos doirados se achega frente à montra interceptando com o corpo esguio uma parte do bailado de luz e sombra. Indiferente, o vento continua a dança sobre o corpo dela, enviando retalhos de luz que arrancam lascas de ouro do cabelo da rapariga. O contraste cambiante de claro-escuro desce languidamente pelo dorso da mulher, escorrega pela cintura estreita e, por um momento, quase se detém na apoteose dos glúteos duros. Nenhum dia é igual a outro.
Não demora o Poeta chegará; pena que vai perder o quadro da moça loira; certo lhe dedicaria uma ode perfeita. Se o próprio Bastião centenário tem o coração alvorotado! Por certo não é concupiscência, mera apreciação estética; Carapinha admira a beleza. Quem sabe ele próprio não fará mais tarde a ode?
O Poeta sempre vem no dia da crônica, quer saber o julgamento do jornaleiro. É por respeito, é por confiança, é por agradecimento. Aproveitam ambos para recordar. Quando menino vinha ele todas as tardes, depois da escola, e abancava-se junto ao Carapinha. De início lia só gibis, super-heróis, Príncipe Valente, o Fantasma; depois Bastião trouxe livros: Lobato e o sítio de dona Benta, Pedrinho e suas caçadas, o Saci, depois Robinson Crusoé na ilha selvagem, as viagens de Gulliver, Alencar, Machado, Graciliano; depois os franceses, russos, ingleses e assim, com o passar do tempo, o menino cresceu e se tornou o Poeta. Bastião e ele ficaram ligados por laço forte, laço de pai e filho. Semanalmente o homem vem ver o velho, sempre no dia da crônica, se abraçam, se afagam sentados um ao pé do outro, discutem a crônica e o mundo, depois fecham a banca e vão comer frango a passarinho e tomar uma cerveja no Bar do Zé.
 
*
— Oi, pai Bastião! Desculpe o atraso!
— Ave Poeta! Seja bem-vindo!


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