Pular para o conteúdo principal

QUEM COM FERRO FERE...


            A noite é sem lua e seria estrelada não fosse dominada por espessa neblina. Ouve-se o marulho das ondas bem defronte ao banco em que Jonas está sentado, mas não se vê o mar, esconde-o a sopa de gotículas que se mistura ao ar tornando-o pesado e opaco. A luminária do alto do poste, mesmo ela com seus potentes watts, se encolhe dentro da névoa e, qual um olho senil, mal consegue espargir uma luz fantasmagórica sobre o semblante duro do rapaz. Poreja-lhe a testa um suor frio que, auxiliado pela umidade do ar, de tempos em tempos escorre em filetes por sua face crispada. Olhar fixo, corpo teso e mão cerrada são indícios da intenção temerária: hoje ele mata Florêncio.

            A orla está vazia, nenhum carro anda na rua numa noite como esta. Ocasionalmente passa algum ônibus com ninguém dentro, e nesse instante a luz de seus faróis varre em leque o asfalto molhado e o barulho do motor oblitera por momentos o marulhar das ondas. Depois volta de novo o escuro esbranquiçado e o silêncio ritmado do mar.

            Jonas espera.

            Não ouve o mar, nem sente a umidade do ar que lhe vai encharcando as vestes. A emoção que lhe tomou o corpo parece se condensar em algo sólido que sobe do estômago pelo esôfago e se enrosca na garganta.

            Ligara para Flor pedindo que viesse. Agora, era esperar. Lembra, como se visse uma fita de cinema, que estivera não faz uma hora com ele, e a cena se repete como projeção rebobinada, curta como um treiler: Flor, amigo de sempre, antigo amante, acolhe-o em seu apartamento e, de imediato, percebe sua aflição e se esmera em deixa-lo à vontade.

            — Abanque-se, meu querido, a casa é sua. Sempre foi.

            — Obrigado, Flor. — O olhar perdido, o movimento automático, Jonas se senta no sofá. Permanece em silêncio um tempo, depois como que acorda: — Desculpe vir assim, sem avisar... — balbucia e se interrompe. Não lembra do que ia dizer, O olhar febril parece pedir socorro. — É que não aguento mais... Precisava de um ombro amigo.

            — Aqui você tem dois — brinca Florêncio, tomando-lhe a mão entre as suas num gesto de carinho.

            Jonas se desfaz em lágrimas e confessa a falta que sente de Ritinha. A explosão sentimental o alivia e ele então lembra que homem não chora. Retoma seu domínio e se desculpa.

            — Tudo bem, meu querido, tudo bem — acalma-lhe o amigo, beijando-lhe o dorso da mão. — Vou pegar uma cerveja na cozinha.

            Florêncio, bom amigo, Flor desde criança, apelido pespegado no garoto maricas, que era ao mesmo tempo amado e rejeitado pela meninada; amado porque, para alegria de todos, fornecia seu corpo à fornicação, e rejeitado, por isso mesmo. Contradições do mundo.

            Jonas não o rejeitava, tinha-lhe afeição. Aproveitava de seu corpo, como os outros, mas tinha-lhe amizade. Por isso Flor o preferia a todos os demais.

            Cresceram juntos, quase como um casal, até que apareceu Ritinha e Jonas se apaixonou. Flor ressabiou, sofreu, entendeu contudo que não podia concorrer com a moça. Aceitou, como consolação, continuar apenas com a amizade. Seguiu sofrendo.

            Mais calmo agora, Jonas tira um cigarro e antes de acendê-lo procura um cinzeiro. Não o encontra na mesa nem no tampo do aparador, encostado à parede. Flor não fuma, mas Jonas sabe que ele tem um cinzeiro, já o usou várias vezes. Logo lembra que ele o guarda na gaveta do aparador. Levanta-se do sofá, abre a gaveta e choca-se com o que vê: o camafeu de Ritinha!

            Florêncio, na cozinha, abre a geladeira e retira duas latas de cerveja, procura na gaveta de frios e acha um pedaço de gorgonzola, que corta meticulosamente em pequenos cubos, espeta neles alguns palitos e acondiciona tudo em uma bandeja. Embora a situação seja dramática, não perdeu ele o vezo de bom anfitrião. Com a bandeja composta volta à sala e não encontra ninguém. Jonas sumira.

            Havia tomado ele, com mãos trêmulas, a corrente de ouro e o camafeu e fugira tresloucado pela solidão da neblina noturna. Precisava ficar só para absorver o impacto da descoberta. Então o culpado era Flor. Maldito! Engasgado da verdade macabra perambula pela orla da praia, claudicando como um bêbado, ébrio da raiva surda, corroído de ódio.

            Ritinha, tão frágil, havia sido achada morta na beira da enseada, junto aos pedregulhos. Trajava vestido e não roupa de banhista. Causa mortis: afogamento. Jonas não acreditou, sabia que a jovem era exímia nadadora e não podia simplesmente ter se afogado. Contudo, nenhuma marca de violência permitia outra hipótese, que não a de acidente. Não trazia no pescoço o camafeu, regalo que pertencera à avó de Jonas e que havia sido dado à moça como sinal de compromisso. Tomaram-lhe a joia as águas revoltas da baía? Agora ele sabia que não.

            Adivinhava o que se passara. Flor afogou a rapariga, tão franzina. E antes de larga-la às águas roubara-lhe a corrente. Por quê, meu Deus, por quê? Por ciúmes, o desgraçado, por ciúmes!

            Sentado no banco, engolfado por neblina e pensamentos assassinos, Jonas espera. O tempo se arrasta. Ele olha o relógio, mas não enxerga as horas. Falta luz. Acende outro cigarro e não se dá conta de que poderia ter aproveitado o lume do fósforo para ver as horas. Porém, tão alterado está que não se lhe aplica a lógica do raciocínio normal.

            Enfim, ouve passos. Do meio da bruma vai se delineando a figura de Flor, que se aproxima com passos firmes. Jonas estende a mão fechada e provoca:

            — Flor, adivinha!

            — O camafeu de Ritinha. Você esqueceu a gaveta aberta.

            — Procurava o cinzeiro.

            — Estava na gaveta da esquerda.

            — Então — Jonas faz uma pausa, intrigado — se você percebeu, por que veio?

            — Tinha de vir. Por quê? Porque te amo.

            — Me ama, e me fez tão mal?

            — Pode até ser doente, mas é um amor verdadeiro, maior que tudo. Não pensei que você descobrisse, que achasse o camafeu. Peguei-o para guardar uma lembrança sua. Mas agora é tarde, tudo se consuma. Faça o que tem que fazer. Para isso vim.

            Jonas arrasta Florêncio para a arrebentação e segura-lhe a cabeça dentro d’água. Mesmo sem querer resistir, por mero ato reflexo, Flor se debate. Num momento em que consegue emergir, num último alento, encontra força para bradar:

            — Te amo!

            Jonas interrompe o afogamento, olha perplexo para a face esbaforida e traz Flor de novo para a areia. Deixa-o estendido no chão e corre em direção ao asfalto. Num instante desaparece, engolido pela neblina.

            Florêncio jaz inerte na areia, lambido vez ou outra por alguma onda irreverente, que teima em se espraiar larga, depois da arrebentação. Exangue, recobra ânimo e se alevanta combalido. Escorrendo água e cuspindo gosto de sal, caminha trôpego até o banco vazio e nele se deixa derrear. A máquina do cérebro, que até minutos quase parara de funcionar, religa seus neurônios e volta a produzir pensamentos. Mas são pensamentos tortos, confusas sinapses que carregam o defeito da névoa que até bem pouco obnubilava o órgão. Um deles, ensandecido, escorre-lhe por gravidade até o pescoço e, ferindo-lhe as cordas vocais, logra sair-lhe da boca em forma de balbucio rouco:

            — Ele ainda me ama!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...