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VENTO

Hesitei algum tempo se deveria colocar o artigo definido no título acima e seguir a tradição de Gogol, Machado e outros mestres, que escreveram O Capote, O Nariz, O Relógio de Ouro, O Medalhão etc. Convenci-me de não fazê-lo ao examinar a natureza desta minha escrita, ou, que seja mais bem dito, a natureza da pretensão do que almeja ser, visto que nem embrionária ainda o é. E aqui já se vê que escribas sem inspiração espremem seus cérebros, torcem-lhes os miolos a ver se conseguem algum suco de suas musas adormecidas. O poeta iluminado, antes de por no papel a primeira letra de seu verso, sabe já o inteiro teor do poema; lutará ainda com uma ou outra rima, mas a peça toda já lhe é presente, com suas imagens claras e distintas. Esta inspiração, tão contraditoriamente cartesiana, define o verdadeiro poeta e o distingue de nós, simples mortais escrevinhadores. Feita esta advertência, voltemos ao início do texto.
A meu ver, o artigo definido – e o próprio nome o diz – determina o substantivo ao qual se aplica, define-o, individualiza-o, prende-o em uma espécie de aqui e agora. Pois bem, o vento de que pretendo falar não é o vento que agora venta, nem o que aqui sopra, nem o que soprou ou soprará, mas é este e aqueles, é o que passou e o que virá, vento eterno. Em sendo assim, julgo que lhe seria impróprio pespegar-lhe o artigo. Fica pois o título com vento desnudo, sem que lhe cubra qualquer véu.
E aqui surge outra contradição: em oposição às outras coisas do mundo, que são escondidas quando se lhes aplica um véu, nosso vento se esconde melhor quando está puro, sem disfarces, de cara limpa; aí não se lhe vê. Invisível, é no entanto sentido. Não se lhe vê, a não ser que carregue em seu bojo nuvens de água ou de pó. Se não fosse a poeira misturada aos redemoinhos de minha infância, nunca teria eu comprovado a existência do Saci. Normalmente o vento é efêmero, dura poucos minutos, mas pode ser constante, como a brisa das praias do nordeste brasileiro, quando não é quase eterno, como a Mancha Vermelha do tio grandão, Júpiter. Pode ser suave, como a aragem vespertina, que vem refrescar a canícula dos dias críticos do verão, ou como a brisa, que enfuna os triângulos dos veleiros. Mas tudo isso o vento só é nos momentos de folga; seu trabalho, sua missão, é polir o planeta e não é com essas pequenas diversões que o irá conseguir.
Vento deve haver em todo universo, mas só em planetas que tenham uma atmosfera. Recebeu nossa querida Terra este privilégio, por causa do raro equilíbrio entre sua massa e uma correta distância da estrela mãe. É o vento filho natural do casamento incestuoso da gravidade terrestre com o calor solar. Rebento do acaso, impaciente por natureza, de índole perfeccionista, pediu ele a benção do pai e a licença da mãe para terminar a obra de construção do planeta: promoveria ele o polimento final. Para sucesso da empreitada buscou ajuda da água, do calor e do frio e, com a equipe assim formada, vem trabalhando diuturnamente para completar a missão que a si se impôs. Açoita as encostas pedregosas de gigantes cordilheiras, açula o embate de prodigiosas ondas do mar contra paredes de costas amedrontadas, do que nascem praias de areia macia. Quando o Sol esquenta as rochas incautas, vêm o vento gelado e a água fria causar-lhes calafrios em seus veios nervosos, trincando-as em estalos múltiplos. E vão assim, vento e equipe, século após século, erodindo as massas graníticas, nivelando platôs e planícies. É o polimento do planeta que se processa aos nossos olhos e que insistimos em não ver, formiguinhas que somos, espécie de curta duração, com a linha do horizonte do tempo a dois palmos do nariz.
Quando a obra do vento terminar, já não estaremos mais por aqui e nem poderíamos estar, pois em um planeta por fim polido e lustroso nossa presença seria uma mancha poluente.

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