Pular para o conteúdo principal

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer, ao contrário de Noel, vou querer choros e velas, mas não muito porque Borges me ensinou que Beatriz Viterbo nem mal morria e já começava a ser esquecida pelo mundo. É a lei natural.
Mas que me chorem pelo menos um pouco, é de bom tom, e que não faltem outro pouco de amigos para contar piadas no corredor do velório, sem ferir o decoro que a ocasião exige. Mas que não me enterrem em cemitérios, a eles tenho aversão.
A quantos cemitérios já fui, quanta gente ajudei a plantar, como diria Lins do Rego. Ainda outro dia estive em um dos mais elegantes da cidade, desses antigos, de túmulos e esculturas de mármore. Chamou-me a atenção um mausoléu mal conservado. Família Simões. Na lápide, uma corrente de cobre azinhavrado pendia de dois florões escurecidos; uma portinhola de ferro enferrujado e vidros sujos escondia uma imagem de algum santo; dois vasos de flores, sem flor, com água de chuva. Em meio a essa desolação, uma lousa vertical acusava os nomes dos ocupantes esquecidos: Antônio, Aníbal, Ana Maria... Haverá ainda quem os lembre?
Não, nada de cemitérios! Queimem-me. O melhor de mim subirá a alta atmosfera e lá ajudará a formar barreira para raios cósmicos; a cinza que sobrar, joguem-na ao pé de uma araucária majestosa: quero virar pinhão.
Dois ou três amigos sinceros são o que de melhor posso esperar em meu velório. Aquele magrelo e friorento, certamente estará com grosso casaco de lã; chorará mais que os outros, é emotivo, um tanto neurastênico. E eu que sempre pensei que ele fosse antes de mim. O outro, sempre cheio de compromissos, chegará atrasado, cumprimentará a todos com deferência e se colocará a disposição para qualquer providência. O terceiro, nem vale a pena falar dele, nem amigo é, apenas um conhecido. Aquele que foi meu colega de trabalho por quase sete anos, não veio; está em viagem pela Ásia. Estivesse aqui e viria, com certeza; não foram em vão nossas conversas filosóficas na hora do almoço. Quantas vezes salvamos o mundo! Este outro, vergado de anos, claudicante, ainda conseguirá comparecer e mais tarde, em casa, me prestará uma última homenagem: por minha alma beberá uma taça de vinho tinto. É um lorde. Evoé!
Estes amigos presentes por mim chorarão e será um choro honesto. Na primeira quarta-feira do mês vindouro voltarão a se reunir no almoço mensal do clube da bengala e brindarão uma rodada por mim e, depois, voltarão a discutir mulheres e política. E será bom, porque assim tem que ser.
A viúva, não se enganem, tomem conta dela; mulher forte, talvez nem chore, mas estará aquebrantada por dentro, julgando que mais poderia ter feito por mim. Que mais faltou? Nestes anos todos de mim tomou conta como pastora bíblica, diligente, não deixou que nada me faltasse. Sentirá talvez mais que os amigos, porém, pastora que é, não poderá descuidar de seu rebanho, que acabará por lhe absorver os pensamentos, e será bom, que a vida continua.
Filhos e netos chorarão menos, porque é da natureza deles; a vida os chama e eles têm que matar um leão por dia. Que chorem de vez em quando, por um ou dois meses. Será o bastante.
Assim será porque assim tem que ser. O universo inteiro conspirará para meu esquecimento. Um ser apenas poderia continuar a chorar e lembrar, mas ele não mais existirá, e quando voltar a existir, de que adianta? Pinhão não lembra.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...