Meu querido diário:
Há muito não
nos falamos, mas você sabe que não é pouco caso, pura falta de tempo. Tanta
coisa, escola, trabalho, cabelo, amigos, namorados, como é possível uma menina
como eu ter tempo para tudo isso? Bem verdade que se fosse mais metódica, minha
mãe diz, seria a vida mais arrumada. Mas não sou.
Mas não é
disso que quero falar. Do meu novo namorado. LINDO! O nome dele é Carlos, bonito,
alto, atlético, conheci na escola, 3º E. Quando ele sorriu para mim, arriei logo
a bateria. Começo de namoro, sabe como é, né? a gente faz tudo para agradar.
Pois foi assim que ele me levou para assistir a uma partida de futebol.
Menino, que
mico! Você sabe que não entendo nada desse negócio. Chego a ter raiva do meu
pai que fica o domingo todo na televisão vendo um jogo que não acaba nunca.
Pois bem, o Carlos me pediu que vestisse uma blusa branca ou preta, não entendi
porque e lá fomos para o estádio. Sentamos em um lugar chamado arquibancada,
onde todo mundo estava também vestido de preto ou branco. Do outro lado do
campo, uma multidão com roupas verdes. O campo também era verdinho, todo
coberto de grama aparada, bonito, dava até vontade de deitar e rolar. De
repente entrou no gramado um monte de gente vestida de branco e foi um foguetório
só. Depois entrou um monte de gente de verde. Outro foguetório. No meio de
todos eles havia três vestidos de preto, acho que estavam de luto.
Alguém
soprou um apito e o jogo começou e todos se puseram a correr e a chutar uma
bola. Era uma só, por que diabos não punham mais uma meia dúzia para facilitar?
Todo mundo corria, menos dois marmanjos – eram os mais altos – que ficavam na
frente de dois alçapões de rede, um de cada lado do campo. Aí a bola entrou no
alçapão da direita e todos à minha volta gritaram: GOOOL! Um grito comprido,
cheio de ós. Fiquei petrificada e o Carlos me deu um safanão, obrigando-me a
levantar e a pular e a gritar como ele e os outros faziam.
O jogo
continuou, numa correria sem sentido e eu estava até meio distraída quando a
bola entrou no alçapão da esquerda. Imediatamente dei um pulo e gritei: GOOOL!
O Carlos me puxou com violência, obrigando-me a sentar de novo e berrou: está
louca? Quer ser linchada? Olhares sinistros se cravaram em mim.
Aí acabou o
jogo e eu falei para o Carlos vamos embora. Ele explicou que não tinha acabado,
era só o intervalo.
Depois de um
tempão os jogadores voltaram e o jogo recomeçou. Tudo se passava como antes,
todo mundo correndo atrás da única bola, que era chutada pra-cá-e-pra-lá. Mas
desta vez eu estava atenta para não errar e quando a bola entrou no alçapão da
direita pensei: direita! E gritei no mesmo instante: GOOOL! O Carlos me deu
outro safanão e vociferou: doida! A turma em volta avançou para cima de nós e
choveram bordoadas.
Saímos corridos
do estádio.
Perdi o
namorado.
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