Não precisa ser especialista nem ter inteligência
aguda para se saber destas coisas, basta ler jornais ou ver televisão, sempre
haverá notícia das últimas teorias que pululam nas fronteiras da ciência. Não
faz tempo ocupou as manchetes a descoberta do bóson de Higgs, há poucos anos, a
conquista da fusão do átomo a frio. Fria mesmo era esta notícia, engodo de
alguns cientistas, enquanto aqueloutra está sendo acreditada, embora padeça de
confirmações. É assim o mundo científico, verdades e mentiras se sucedem ou vêm
juntas, pois do homem se originam; faz parte da natureza de nossa espécie, por
erro ou dolo inventa-se o falso, mas também por gênio ou acaso descobre-se o
novo.
Teorias há que, bem ou mal intencionadas, permanecem
no limbo da indefinição, na estreita fronteira que separa o real do imaginário.
Algumas ali ficam por anos, outras, por eras; de lá sairão para a glória ou
para o esquecimento. Pois ali está há um tempão a teoria do Multiverso,
existência de múltiplos universos, no popular, mundos paralelos. Quanta obra de
ficção, livros e filmes já não se fez sobre o assunto! Quero agora também fazer
um pouco.
Aliás, a bem da verdade, sou franco, não se trata
propriamente de ficção, mas sim de lucubrações sobre fatos reais, fatos que, tenho
visto, não acontecem só comigo e que, por esta razão, podem aumentar um pouco a
credencial de meu relato.
Moro na zona norte da cidade, quase no sopé da
cordilheira, e tenho por hábito fazer caminhadas na Brás Leme. Quem conhece
sabe que se trata de uma avenida ampla, de duas mãos, com largo canteiro
central. Pois é nesse canteiro que o povo corre e anda, não todos é verdade,
apenas aqueles da geração saúde. Intruso que sou, mais que o bem do corpo,
busco recarregar as pilhas do cérebro, já desgastadas pelo prolongado uso.
Pudesse, compraria novas.
Não é que caminhava eu outro dia no tal canteiro, em
nada pensado e pensando em tudo, que é maneira de dizer que o cérebro estava
sintonizado em módulo aleatório, quando os olhos invertem a direção do olhar e,
invés de mirar o mundo, põem-se a ver o caótico desfile interior de idéias
soltas que perambulam pelos desvãos da consciência. Dizendo de modo cru e
sintético, caminhava distraído. De repente uma chuva fina, fria como toda chuva
o é, veio recolocar minha atenção no mundo e vi, surpreso, que chovia sobre
mim, que caminhava em direção à marginal do Tietê, mas não chovia sobre os
corredores e andarilhos que buscavam o sentido oposto, de Santana; por igual, não
chovia também sobre a moça da camiseta da Ilha do Mel, que passou naquele
instante esplendendo de luz roubada do Sol. Os carros, na pista à minha
direita, trafegavam sob a chuva, de janelas corridas, enquanto os da pista à
esquerda o faziam em pleno sol. Pareciam dois mundos diversos, um ao lado do
outro, estando eu no mundo da chuva e podendo, se quisesse, entrar no mundo do
sol com apenas dois passos.
Experiência semelhante ocorreu-me novamente ontem,
quando voltava do centro pela Santos Dumont; o dia estava quente, de muito sol,
por isso mantinha abertas as janelas do carro. Ao transpor o Tietê, pela Ponte
das Bandeiras, uma chuva torrencial se abateu sobre o veículo obrigando-me a
fechar os vidros com sofreguidão. Mesmo assim ficamos muito respingados, eu e
os bancos. Tendo por linha divisória o rio, parecia, outra vez, que dois mundos
diferentes coexistiam, um frente ao outro e, desta vez, eu próprio tinha
deixado um para entrar de supetão no outro. Estes pensamentos me ocorreram
tumultuados e por isso, ou apesar de, vieram carregados de tanta emoção que
quase colidi com o carro da frente, que parara no farol. Pensei então, pela
segunda vez, na teoria dos universos paralelos e fui nela maturando até chegar a
casa; na verdade, até muito depois disso: nessa noite fui dormir ainda
abotoando idéias.
Há quem diga que, quando se vai dormir com
determinada idéia, o cérebro fica a processá-la durante o sono; talvez isso
explique ter eu acordado com uma lembrança que pode se encaixar nesse assunto e
ilustrar com exemplos não atmosféricos a possível existência de mundos
paralelos. Quem já não viveu a experiência conhecida pela expressão francesa “déja-vu”?
Está o paciente a viver, tranqüilo ou não, pois o mundo é cheio de
vicissitudes, mas a última coisa em que ele pensa é na teoria da qual
insistentemente vimos tratando. Isto é ponto pacífico; a personagem, pelo seu
jeitão, nunca pensou em tais coisas; é um pragmático. Está ele, pois,
desprevenido quando um fato, qualquer fato, corriqueiro ou importante, se
desenrola a seus olhos e lhe atrai a atenção; e ele sente que aquilo que está
acontecendo já aconteceu antes. A impressão é nítida e assustadora: parece que
ele já viu aquilo; não poderia ser mais feliz o francês que batizou o fenômeno;
no entanto, não adianta procurar nos escaninhos da memória, o fato não aconteceu
em sua vida. Será que não? Será que não aconteceu ao seu outro, em um mundo
paralelo?
Considerando que até hoje não me consta ter alguém
sugerido tal explicação para o “déja-vu”, resolvi pô-la no papel e o estou
fazendo agora, logo após tomar o café da manhã, que faz mal trabalhar em jejum.
Não penso em ganhar dinheiro com isto, mas quem sabe possa ter um pouco de fama
quando o assunto for afinal resolvido.
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