Ao final da década de 50 São Paulo
não chegava a três milhões de habitantes, as ruas eram limpas e sem cheiro e
amarrava-se cachorro com lingüiça. Estava eu iniciando minha vida de bancário e
— recordo — para se fazer remessa de numerário (era assim que se falava na
época), parava-se um taxi na porta da agência e lá íamos dois funcionários a
carregar uma mala cheia de dinheiro. Num dia furava o pneu na Marginal e a gente
ajudava o motorista a trocá-lo, noutro dia o trânsito entupia no Largo de São
Bento e não tínhamos a menor dúvida: saltávamos do carro e íamos, lampeiros,
pela Rua Líbero, com a mala cheia, até a sede central, na Av. São João. Nunca
se soube de nenhum assalto a esses malotes bancários e nem isso passava pela
cabeça de ninguém.
Rapaz
magrelo (quem dera hoje!), fazia Filosofia na USP da Maria Antônia. Trabalhava
na Penha até às 6 da tarde e saía correndo para tomar o ônibus 29. Descia na
Clóvis e, correndo ainda, varava pela Sé, Rua Direita, Viaduto do Chá e Xavier
de Toledo. Chegava à Maria Antônia esfalfado e entrava direto na aula, que já
começara. No intervalo, dava um pulo ao bar da esquina e comia um ovo cozido de
casca pintada, que ia salpicando a cada mordida. Como era seco, para descer
melhor, bebia um copo de leite frio, e a isto se resumiam meus jantares, o que
pode explicar, talvez, a esqualidez do peito, onde se podia contar costelas.
Quanto ao colesterol, nem sabia o que era. Bons tempos aqueles!
No
término das aulas, lá pelas onze, saíamos a conversar, um grupo de três ou
quatro, e baixávamos a Xavier de Toledo até a esquina do Mappin, onde nos
detíamos. Dali, cada um seguiria caminho diferente. A parada, que poderia num
dia ou noutro ser ligeira, quase sempre ia até depois da meia-noite. Aos vinte
anos têm-se que salvar o mundo e ali, sob a vitrina iluminada da loja,
dedicávamo-nos a isso com afinco a esgrimir comos e porquês, contrapondo teses
e antíteses e raramente chegando a alguma síntese.
Quando
nos despedíamos, deixando embora o mundo por salvar, cada um seguia um ponto
cardeal. Minha direção era o leste: Viaduto, Direita, Sé e Clóvis. Tinha noite
que caía uma garoa fria com vento, dessas de molhar por baixo do guarda-chuva e
enregelar os ossos. Hoje o clima está mudado e não se vê mais isso, mas quem
viveu aquele tempo sabe do que estou falando. O jeito, então, era fechar o
paletó no peito, enfiar as mãos nos bolsos e estugar o passo, cabeça baixa
lançada à frente para cortar o vento. Certa vez economizei um dinheirinho e
comprei luvas de couro, forradas de lã. Foi o primeiro luxo de minha vida.
Quando
chegava na Clóvis, pegava de novo o 29 e apeava na Rua Tuiuti, a trezentos
metros do meu destino. Findava a jornada a pé, pelo escuro pálido da rua pouco
iluminada, a pensar ainda em silogismos mal formados. Àquela hora todas as
casas estavam apagadas: dormiam elas e seus donos. A televisão não passava de
um sonho estrangeiro. Eu não tinha medo de ladrões, nem ninguém tinha, porque
não os havia. Podia ter algum medo de fantasmas. Às vezes um arrepio passava
pela espinha quando pressentia algum vulto no negrume da calçada, mas o cérebro
cético recusava o medo: era só o efeito da garoa gelada.
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