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B. O.

            O Senhor Doutor me desculpe, mas me dê licença para prestar queixa contra um cabra malvado de nome Donato de Jesus. Do Santo ele carrega só o nome, pois tem cara de boi sonso mas sua mansuetude é falsa: lobo em pele de cordeiro. Tem a boca carnuda de uma Iracema, mas que, ao contrário, destila, não o mel da virginal pessoa, mas uma peçonha de cheiro bom que atrai e cativa a incauta vítima que dela prove, e que torna a desgraçada para sempre viciada. Seus olhos, pretos da cor da noite profunda, brilhosos de jabuticaba madura, não são de humana espécie, são de lince e percebem a presa a qualquer distância, se aquém do horizonte esteja. E pobre dela que não mais lhe escapa. Artimanhas de raposa: de início, possui ele a delicadeza de um colibri beijando a flor e o toque suave de mãos de fada; mas não dá ponto sem nó, o danado. Água mole em pedra dura, quando do enlevo desperta a donzela e de si se dá conta, a vaca já foi para o brejo e a menina percebe que deu com os burros n’água. Aí não adianta chorar o leite derramado, que nem sempre perdido é, ao depois pode virar menino novo.
            Se é verdade que Deus só dá dentes para quem não tem fome, então o cão deve de ser criatura do Demo, pois fome ele tem sempre, mas só de carne nova, e dentes, ele os têm aguçados, de vampiro, que quando pega a gente por trás – que é como ele gosta – crava-os em nossa nuca, a jeito de leão faminto, de modo que chega a escorrer sangue. Aquela que julgar ter forças para resistir-lhe, pode tirar o cavalo da chuva, que não consegue; verá que todo esforço não passa de um furo n’água e ao final vai se encontrar num mato sem cachorro. Quem prova daquela boca suculenta, desatina.
            O Doutor, como autoridade local, deve de proteger as donzelas indefesas retirando o meliante de circulação. Para poupar-lhe tempo, faço um retrato falado do facínora.
            Os cabelos são negros de azeviche, de brilho molhado, repartidos ao meio e de comprimento mediano; cobrem-lhe as orelhas; têm o cheiro de terra molhada de primeira chuva; pestana grossa acompanha os olhos de jabuticaba; o nariz, fino, é ligeiramente curvado; o rosto, de pouca barbação, tem a suavidade enganosa de cara de menino; a boca, já disse, carnuda e os dentes, completos e claros; seu sorriso ilumina e desarma; o hálito lembra pitanga colhida na hora; o pescoço é forte como tronco de cabreúva; espadaúdo; pele trigueira; altura, um e oitenta; setenta e cinco quilos; gibão de vaqueiro e alpercatas no pé. Sestroso, fala mansa, sussurro macio, corpo quente.
            Encontrado o indigitado elemento, prenda-o em cela enjaulada de porta trancada e me dê a chave. Cuidarei do malfeitor sem ônus para o distrito.

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