Manhã fria, chuvinha teimosa, praia cinzenta. Mar, céu, tudo cinzento, sem contornos. Mundo inteiro sem cor, chumbo derretido, chumbo frio. Vento. Vento que machuca a cara, o peito, entra nos ossos, na medula, invade o cérebro, vazio de pensamento.
Mar feroz, batendo na areia.
Areia molhada, barraca úmida. Goteiras na costura (Impermeável, sim senhor! O melhor modelo, conforto de casa!). Tranqueira espalhada, fogão, panelas, crianças chorando. (Fuja da poluição! O campismo põe você junto à natureza. Ar puro, descontração, liberdade!).
– São só duzentos quilômetros até Ubatuba – dizia o cretino do Paiva. – E você não vai querer passar a semana santa aqui, coçando o saco na frente da televisão. Vamos, homem, sacode esse corpo!
De noite. Sono pesado, corpo doído. Mar subindo, perigo. (Essa agora!). Ondas rebentam como gengivas brancas mordendo a areia. Mulher grita. (Nossa Senhora!). Crianças choram. Chuva cai, vento corta.
De dia. Chuvisco miúdo, intermitente. O Paiva foi pescar, nas pedras. Também vou girar, esticar pernas, não fico aqui, acabo louco.
Areia deserta, planada pelo mar, lembra calçada de cimento fresco. Ando devagar, olho para trás: marcas de meus pés, solitárias. Horizontes encortinados de bruma. É um outro planeta ou o fim dos tempos? Eu sozinho. Só.
As pedras. Subir com cuidado. Lisas, escorregadias. Mar brabo lá embaixo, espirrando. Revela fossas, lembrança infantil (... buraco é fundo, acabou-se o mundo).
Paiva com a vara telescópica, carretilha francesa. (Que pose, sô!). Só três peixinhos na caixa de isopor.
Um velho galgando as pedras, ágil igual menino. Pés treinados, pisam fácil, natural. Achega-se. (Matando muito?). Camiseta de meia descobre o pescoço grosso, encarquilhado como a cara magra. Tisnado, curtido de sol. Fundo de rio seco. Idade? 50, 60, 70. (Trudia, aqui memo, matei pra lá de dúzia. Uns bitelo que só vendo...). E o tempo, melhora? Olhinhos brilhantes, travessos, miram o horizonte. (Vai não.). Acende cigarro e enfia papo comprido. Vive faz tempo por estas bandas, mora ali adiante. Agora, com a filha casada, que a mulher morreu faz dois meses. Olhos infantis marejam. (Fazia uma sopa!).
Estava pescando naquele dia. Não tinha matado nenhum quando fisgou dos grandes. Agüentou o puxão, brigou, mas não conseguiu tirar o bicho. (Era garoupa entocada.). Hora da janta chegando, arresolveu amarrar a linha em pedra graúda. Voltava de manhã cedinho.
De noite a mulher queixou de dor no peito. Não tinha quentura. Mesmo assim deu novalgina. Dor aumentou, cresceu. (Ai! Ai!). Suava frio. Buscou filha, levaram para o hospital. (Num diantou, coração tinha rebentado.).
Depois da missa de sétimo dia saiu por aí, à toa. Pensava na vida, como ia ser agora? Sem sopa, sem chá pelando com pinga (pro peito é porreta!), sem quentura dos corpos colados nas noites frias, sem prosa vadia. Amor? Não, hábito, costume. Sem amor a gente passa, difícil é não ter quem entende a gente só de olhar. E agora? Cavalgara as pedras com lentidão, em trote de burro velho. Olhar perdido, cismarento, os pés enxergavam por si, evitavam dobras e musgos. Foi subindo. Embaixo, o abismo roncando. Corpo treinado, automático. Espírito ausente, para lá do horizonte limpo. Céu azul, sol forte na cara, batendo contra o couro grosso, curtido de tantos anos.
Então pisara na pedra solta.
O instinto recolhe o espírito vagabundo e o faz ver através dos olhos. A pedra esquecida. A linha de náilon, amarrada na pedra, estica por algum momento e torna a afrouxar. A linha. A pedra. A memória que volta. A pescaria interrompida no dia da morte. Com cuidado experimenta a linha: débil resistência. Puxa-a cautelosamente, domina o ímpeto que ameaça romper-lhe o peito. Sente o peso na ponta do dedo, o movimento suave. Continua puxando até o corpo prateado reverberar na superfície d'água. O peixe, cansado de semana, entrega os pontos. (Uma baita garoupa, deste tamanho!). Abre os braços em medição, enquanto os olhinhos de menino brilham contentes.
(Mentira de pescador?).
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