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UMA VISITA DEMONÍACA

         O Demônio estava ali, sentado diante de mim. Não sei quanto tempo levei para perceber sua presença, absorto que estava na leitura do Fausto. De início pressenti uma mudança indefinível na luz, uma sensação de negrume envolvente, embora a página que lia estivesse mais clara do que nunca. Minha mão, o braço e até o pé, ao final da perna cruzada, mostravam-se intensamente iluminados e, no entanto, não se dissipava a impressão de negrura. A atenção na leitura não permitiu que eu percebesse que a pretidão era real e que engolira todas as formas da sala, tornando o pequeno círculo ao meu redor um oásis de brilho.
         O comportamento da luz, naquele momento, fugia do padrão normal e contrariava as leis de reflexão. Nas noites de leitura — ultimamente quase todas — habituara-me a manter acesa apenas a lâmpada do abajur chinês. Sem outra fonte de luz a atenção se concentra mais facilmente nos serpenteantes caracteres impressos e, se deles se desvia distraída, não sofre a atração dos objetos banhados de penumbra.
         As características inusitadas da iluminação da sala, naquela noite, tornavam nulo o efeito penumbra; havia somente o claro e o escuro: o que era iluminado era visível, e o que não era, ficava invisível. Em querendo, podia se traçar uma linha divisória. O efeito se traduzia como uma atmosfera irreal de sonho, alguma coisa que fugia do concreto. Os objetos situados na linha limite pareciam cortados a faca: meia cadeira, meia mesa, meia estante. As outras metades haviam desaparecido na estranha escuridão, escuridão do não-ser, que engolira a janela, a porta e toda a sala, com exceção do pequeno círculo à minha volta. Parecia que o mundo todo fora reduzido àquele círculo, do qual eu era o centro. E disso tudo eu ainda não me apercebera.
Um forte cheiro de tabaco se fazia sentir na sala.
         O novo é sempre impactante e aquela luz acabou por me fazer, aos poucos, tomar consciência das estranhas sensações. Logo a seguir levei um choque, quando o claro-escuro me revelou a metade de um homem sentada perto de mim. Um calafrio instantâneo percorreu-me a espinha e eriçou meus poucos cabelos. Outras alterações se processaram, como sudorese e taquicardia, resultado do grande abalo provocado pela presença insólita daquele meio homem. Sua outra metade, então, brotou da escuridão e o homem inteiro induziu-me a ter calma, que era de paz. Com gestos e palavras obteve a redução de meu batimento cardíaco, mas o fôlego não voltava. Consegui afinal balbuciar:
         — Quem é o senhor?
         — Essa é uma pergunta não muito fácil de responder — disse a aparição, com voz grave e pausada. E sorriu. A boca, por instantes no limiar do fim do mundo, ou seja, na linha que limitava o círculo de claridade, revelou-se guarnecida de dentes normais; os lábios, carnudos e um tanto escuros, faziam contraste com os dentes e com o tom grisalho da barba. — Não que queira — continuou ele — mas a verdade é que sou conhecido por muitos nomes. O livro que o Professor tem no colo me chama de Mefistófeles, outros preferem Lúcifer, Satã, Satanás; a maioria me chama de Diabo mesmo, outros, irreverentes, de Capeta e de Tinhoso. Gosto do nome de Cão, pela nobre inspiração; divirto-me com o de Beiçudo, com o de Canhoto, com o de Maligno. Este, então, é extremamente injusto. No meio de tanto nome, prefiro Demônio, que vem da velha Grécia, ou simplesmente, Demo.
         Estupefato, ouvia a criatura desenrolar o rol de nomes e à medida que o fazia, a cada novo nome enunciado, inexplicavelmente diminuía o oco de minha barriga. Não entendo como, se era o jeito seguro dele falar, pausado e pontuado de ligeiros sorrisos, se era o acompanhamento das mãos, que se moviam para sublinhar palavras, realçando o sentido, valorizando as pausas, à moda dos italianos, não sei o quê, mas o resultado final é que as revelações, que por sua natureza eram incríveis, tomavam uma cor de banalidade. Talvez que contribuísse para isso o movimento pendular que ele dava ao corpo enquanto falava, que por momentos trazia para o círculo de luz parte da cabeça e, depois, a levava de volta à escuridão, numa dança quase hipnótica. A cabeça era ovoide, larga nas têmporas e afilada no queixo e — demonstração de que eu já havia recuperado a calma — lembrou-me Namor, o Príncipe Submarino, personagem dos gibis da infância, ainda mais que as orelhas do visitante eram pontiagudas como as do Príncipe. Semelhante também era o avanço da testa nas laterais da fronte, formando entradas no couro cabeludo. Parava por aí a parecença: enquanto Namor tinha os cabelos pretíssimos, a entidade que comigo falava os tinha grisalhos. As sobrancelhas eram espessas e negras, como negros eram os olhos, pequenos e incrustados fundamente nas covas. O nariz era reto e grande, mas não largo, e a tez escura realçava a barba clara. A figura toda fazia lembrar um indiano, embora trajasse costume ocidental de cor cinza e gravata intensamente vermelha.
         Debati-me contra a sensação de confiança que começava a se apoderar de mim, como se me houvessem injetado um desses alcaloides de bem-aventurança, que esmaecia a consciência de quão insólita era aquela situação. Do fundo da racionalidade naufragante fui buscar o protesto, que irrompeu expletivo.
         — Não acredito!
         — É natural — concordou a aparição. Disse que não se ofendia e que não era aquela a primeira vez que comigo se encontrava, o que me surpreendeu muitíssimo, apesar do estado de torpor que me conturbava. Explicou que já estivera presente algumas outras vezes, em situações aflitivas, e que só não fora notado por causa do alto nível de tensão; mas que agora, em tempos de calmaria, eu finalmente dele me apercebera.
         — Não, não pode ser! — ouvi minha própria voz a se insurgir. — Isto é uma alucinação! O senhor não existe, é fruto de imaginação.
         — Não, não sou.
         — É, sim! Saiu das páginas do livro que estou lendo. — A afirmação veio acompanhada de desespero, como de quem apertasse o gatilho em jogo de roleta russa.
         — Não deixa de ser verdade — disse ele, depois de um silêncio que serviu para pôr a frase em negrito. Sorriu mais uma vez. Não se cansava de sorrir. — Estou mesmo dentro desse livro, estou também em sua vida, no presente e no passado, e pretendo estar no futuro.
         — Ah! É isso que o senhor veio tratar aqui, não é? — indaguei em desafio. — Pois fique sabendo que não lhe venderei a alma!
         — Ha, há! — gargalhou. — Deixe de rompante, meu amigo. O Professor não acredita em alma, como poderia vender o que não tem?
         Embasbaquei. Era verdade. Se Deus não existe, não existe alma. E se Deus não existe, como é que pode existir o Diabo? Demo (era este o nome preferido) parecia seguir o curso de meu pensamento, pois arqueou uma das sobrancelhas.
         Como é absolutamente imprevisível o comportamento humano! Aquele pequeno movimento supraciliar me evocou imediatamente a imagem do Sr. Spock, personagem vulcano de conhecida série de aventuras. Em que pese à dramaticidade do momento, o intelecto derrapava na irresponsabilidade de uma associação mnemônica de tamanha vulgaridade. Foi exatamente esta autocrítica que levou, no ato, uma parte de minha mente a puxar a orelha da outra e a lamentar a demonstração de esquizofrenia. Demo, por sua vez, alteou ainda um bocadinho mais a sobrancelha e pontuou, condescendente:
         — O Professor é muito rigoroso consigo mesmo. Todos nós somos assim mesmo, seres complexos, e devemos aprender a conviver com isso. É um erro procurar coerência na vida, pois que, em si mesma, a própria vida é um erro.
         — Com que, então, o senhor também lê pensamentos? — tornei com alguma raiva.
         Novamente o sorriso, desta vez com o intuito óbvio de me desarmar. Não sei como aquele sorriso podia ter tantas conotações, se o sentido o tinha ele próprio ou se era eu que projetava significações minhas. Naquele momento assemelhava estar revestido de um pedido de desculpa, dada a entonação melíflua da resposta.
         — É um dos meus castigos. Infelizmente é verdade. Preferiria não os ler, mas as coisas são como são e não como desejamos. É bom que tudo fique claro entre nós desde o começo. Não seria honesto esconder isto.
         — Mas veja só quem fala em honestidade — eu continuava ressentido. — O gênio do mal!
         O sorriso, de novo, ainda apaziguador, porém com um certo traço de decepção. Seria decepção dele consigo mesmo, ao reconhecer que não conseguira ainda vencer minha resistência? Algo, porém, me dizia que a decepção era dirigida não a si, mas a mim, à minha incompetência de conviver com o novo, de aceitar o desconhecido. Reconheço que, se era este de fato o tipo de decepção, era-o justificado. Contudo, que diabo! (com perdão da má palavra), há que se lembrar que eu não nascera ontem, que passara do meio século e que não seria assim, de uma hora para outra, que as categorias e princípios hauridos durante toda a vida fossem simplesmente jogados no lixo.
         É possível que o leitor acabe por se exasperar com a reprodução deste diálogo, a todo momento interrompido por considerações marginais, mas, se o fizer, desprezará a real natureza da conversação. Na verdade, qualquer colóquio, por mais inocência que aparente, pode ser comparado a um iceberg flutuante, cuja parte visível corresponde a uma mínima porção de toda a montanha. Em qualquer diálogo os decibéis lançados ao ar são também uma porção ínfima dos não-decibéis pensados. O que mascara este fato é a estupenda velocidade do raciocínio, que se processa muito mais por visões gestálticas, do que por palavras. O processo é rápido, mas não impede que as frases soem aparecer vestidas de roupagem lógica, adornadas de coerência. O resultado é que, quais atores de teatro mambembe, representam elas uma autossuficiência que de fato não têm. O que se esconde por trás do discurso audível é quase sempre mais rico, é a gangorra dos medos e das certezas, a dialética da alma. Ao proceder, portanto, às interrupções lamentadas pelo impaciente leitor, faço-o em seu respeito. Desejo fornecer-lhe um quadro amplo das situações vivenciadas e não apenas uma esgrima pobre de palavras de curto senso.
         Feita a ressalva, voltemos, o leitor e eu, à cena interrompida da decepção diabólica a tempo de lhe ouvir a queixa.
         — Pois é assim que as coisas se complicam. Quem foi que disse que sou um gênio do mal? Isso é pura invencionice — disse com mágoa, como se estivesse a sofrer injustiça. Condoí-me de sua pessoa, e foi isto que me fez recuar.
         — O senhor me desculpe, não quis ofendê-lo, mas não disse que era o diabo?  Se for, terá de assumir as consequências, a não ser que tudo não passe de uma brincadeira de mau gosto.
         Explicou-me que não se tratava de nenhuma brincadeira, que era mesmo o diabo, que aceitava todos os riscos de sua natureza, mas que não podia ser cobrado por aquilo que não era. Admirava-se de que eu, um agnóstico convicto, orgulhosamente racionalista, viesse a fazer dele um conceito tão ingênuo, em nada afastado da vulgaridade da massa ignara e rude. Falava assim mesmo, desta forma empolada, não se tratando a redação acima de defeito meu, mas de simples fidelidade. Continuando, disse que a humanidade sempre precisou de um bode expiatório para suas mazelas, alguém que responda pelo sofrimento e pela maldade. Incapaz de assumir sua própria responsabilidade, a Deus atribui a fonte de onde emana tudo que é bom e ao Demônio, todo o ruim. Livrou-se assim, a humanidade, de qualquer drama de consciência pela péssima repartição de malefícios e benesses; a Deus ficou a glória das graças e ao Demônio, a culpa dos males. Qual burro de carga ou redivivo Atlas, passou o Diabo a sustentar nos ombros largos o ônus das dores do mundo.
         — Então, se bem entendo — interrompi a explanação — Deus existe?
         Olhou-me fixamente, do fundo dos olhinhos encovados e, expectante, aguardava eu a revelação final, que não veio.
         — Sei lá! — disse com displicência.
         — Como sei lá? — explodi com raiva. — Pois se o senhor, que é o Demônio, existe, então existe também Deus!
         — Essa lógica é sua. De minha parte não vejo relação de necessidade. No seu raciocínio está embutido um preconceito maniqueísta: Deus, Diabo, bem, mal. Pois é exatamente essa dicotomia que não tem base na realidade, é invenção humana. Isso não quer dizer que Deus não exista, apenas que sua existência não pode ser deduzida dessa maneira simplista.
         — Se o senhor é realmente o Demônio deve saber se ele existe ou não.
         — Infelizmente, nesse assunto, sei tanto quanto você.
         — O senhor nunca viu Deus?
         – Não.
         Fiquei desconcertado. Agora a decepção era minha. Mas que diabo de Diabo tinha eu em minha frente? Um Diabo de segunda categoria, que não sabia de nada?
         — Lamento decepcioná-lo — disse Demo — mas não existem categorias entre nós, demônios. Aliás, creio ser meu dever dar-lhe algumas explicações.
         Falou então longamente sobre si mesmo e dessa falação dou a seguir o resumo.
         Em primeiro lugar declarou que quase tudo que se diz a respeito de demônios é invencionice de pastores ignorantes, do tempo em que a humanidade vivia a se misturar com o gado nos campos sem dono, e dele, gado, mal se distinguia. Inferno, castigo eterno, tudo bobagem. Aliás, de eterno ele não conhece nada, tudo acaba por ter seu fim, em bom ou mau sendo. Os próprios demônios não são eternos, são mortais, como os homens e, pasme-se, como os homens, também se reproduzem. Há diabos e diabas. Há romances diabólicos. Ele próprio já se apaixonou mais de uma vez e pôs alguns novos diabinhos neste mundo que dizem ser de Deus. Vive sua espécie uma simbiose com a humanidade, mas tão discretamente que ninguém nota, salvo raríssimos. Estiveram sempre presentes em todos os fatos históricos decisivos, sub-repticiamente, pois detestam publicidade. Junto com os homens sentem-se corresponsáveis pelo destino do planeta, embora nos últimos tempos não venham tendo muito sucesso em neutralizar a estupidez humana que ameaça lhe dar fim.
         — Mas não tem mesmo nem um inferninho, nem uma tentaçãozinha? — surpreendi-me a indagar com distendida calma.
         Demo não respondeu. Limitou-se a sugar o charuto. Enquanto a fumaça inalada percorria os pertinentes caminhos de sua fisiologia desconhecida, da ponta do charuto, da brasa recém-avivada, desprendiam-se fiapos azuis que ensaiavam indecisa coreografia ao ascender preguiçosos, até desaparecer abruptamente, ceifados pelo escuro de fim-de-mundo. A seguir, junto da baforada branca expelida, veio a confirmação da pergunta feita.
         — Pois é. Não tem, não.
         — E o Céu? Também não tem Céu?
         — Isso eu não sei.
         — Mas, na qualidade de diabo, não deveria o senhor saber tudo?
         — Se soubesse tudo, não seria o diabo e sim Deus.
         Calei-me, matutando. Não é que o danado do Demo tinha razão! Sensato o seu pensamento. Ou era um lógico, ou um sofista. Mas uma questão faltava esclarecer, por que, cargas d’água, vinha o demônio me procurar, a troco de quê? Ia fazer a pergunta, mas não foi preciso, ele já começara a responder.
         — Vim por duas razões — disse Demo — a primeira é lhe dar uma mãozinha crítica no ensaio que anda a escrever. Há nele uma ou outra impropriedade que pode sanar.
         — Não lhe indago como sabe dele, que está guardado a sete chaves, pois que o senhor já declarou de tudo saber a meu respeito.
         — Poupa-me de maiores explicações, o que agradeço.
         — Então vamos às correções — incentivei, curioso de saber até que ponto ia a presunçosa sapiência de meu visitante.
         Há que se louvar, aqui, a habilidade demoníaca que ele revelou possuir, pois não me senti ofendido com as restrições que começou a levantar. E olha que, para obter esse resultado, precisa ser muito cuidadoso alguém que se dispõe a fazer críticas a obra alheia, inda mais se a dita pretende ter fumaças de intelectualidade. É bem possível, no entanto, que a ausência do ofendido se deva mais à humildade que me é peculiar, do que à diplomacia daquela tenebrosa figura. Seja por uma forma ou por outra, a verdade é que foi ele levantando objeções que a mim pareceram justas.
         Não cansarei o leitor com a descrição detalhada das observações, apenas direi que, à medida que ele avançava, um desconforto foi tomando conta de mim. A verdade é que a crítica é como um copo de mágoa, as primeiras vão se depositando ao fundo, comportadas, mas, à medida que o copo vai se enchendo, o conteúdo extravasa. Quando ele terminou eu já não conseguia esconder meu desgosto; a crítica nunca é bem-vinda, os que dizem o contrário são hipócritas. Depois de uma constrangedora pausa consegui lembrar que eram duas as razões declaradas da visita. Fiz a indagação com alívio e para camuflar meu incômodo.
         — O senhor disse que tinha dois motivos. Qual é o outro?
         Demo pareceu titubear por um momento. Teriam sido segundos, mas pareceu muito, pelo silêncio e clima. Por fim falou, e sua voz soou sombria.
         — Laurinha.
         O sangue gelou-se-me nas veias. Ele sabia!


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