Manifestação
mais espetacular da Natureza, o fogo é ao mesmo tempo a mais reverenciada e a
mais temida pelo gênero humano e isto se deve a seu poder criador e a seu poder
destruidor. Nos tempos em que o homem antigo perambulava pelas paisagens
geladas, à procura de alimento e abrigo, acostumara a se esconder do frio da
noite dentro de cavernas. Não havia ainda domesticado um pedaço de fogo para
aquecê-lo; ao contrário, o fogo que conhecia era um inimigo perigoso,
proveniente de temporadas de raios, que caiam sobre árvores provocando
incêndios. Desse fogo, que queimava seu alimento do dia seguinte, fugia
espavorido, como animal que era e que sempre foi. Mas, diferente dos outros
animais, tinha ele um defeito grave, era curioso. Um dia achegou-se de uma
árvore em chamas e sentiu um calor bom, que espantava o frio com que o vento
gelado lhe açoitava as costas. Daquele dia em diante, quando surgia a
oportunidade, repetia ele o ato de acalentar-se. Mas eram raras as ocasiões.
Tempestades não acontecem todos os dias.
Em uma
dessas raras vezes o fogo que lhe aquecia, apiedando-se do pobre coitado,
aproveitou da proximidade e, por um processo de osmose mágica, fez surgir
dentro da cabeça do homem uma fagulha que, embora pequena, foi suficiente para
iluminar a escuridão que dominava soberana naquele crânio bruto. Pôde ver ele,
então, enrodilhada em um canto daquela masmorra, uma ideia dormente.
Desenrolou-a com cuidado e pôde apreciá-la:
— Não seria
bom se eu levasse para a caverna fria um pouco deste fogo quente?
Nascia
naquele dia a primeira grande descoberta humana; pena que ainda não existia
calendário para registrá-la.
Um outro
bicho-homem, em outra manhã fria, ao sair da caverna, diante da paisagem gelada
sentiu uma quentura vinda o alto, olhou para o céu e viu o Sol. O astro, também
ele, apiedando-se da ignorância da espécie, lançou um raio certeiro que entrou
pela retina do homem e explodiu dentro do cocuruto originando a segunda grande
invenção da humanidade: a descoberta de que o Sol é uma bola de fogo. Muitos
anos mais tarde um tataraneto daquele homem, já não lembrando bem do
acontecido, inventou a história de Prometeu.
Descoberta
a natureza do Sol foi fácil observar que é ele que esquenta o mundo, não muito
bem, é verdade, podia ser um pouquinho mais quente, sem tanto gelo; mas não há
que negar, sem seu calor não haveria água corrente nos rios, não haveria terra
boa para abraçar a semente, nem chuva para regar a planta nascente. Não demorou
que o raciocínio titubeante chegasse à conclusão reveladora: é o Sol o provedor
da vida; não fosse ele o mundo seria uma pedra de gelo. E foi então que a
espécie humana revelou outra característica que, além da inventividade, a
distingue dos demais animais, o misticismo: inventou um deus, o Deus Sol. Devia
a vida àquela bola de fogo, nada mais justo do que adorá-la.
A
criatividade humana, uma vez revelada, nunca mais deixou de evoluir, o
progresso material fez a espécie se multiplicar e ocupar todos os recantos do
planeta. Junto com o sucesso cresceu também outra característica só sua, o
narcisismo. Passou a se adorar a si mesmo. Para não ser confundido com os
outros animais inventou uma classificação única para si, animal racional; só
ele era assim, todos os outros eram animais irracionais. Adotou até um
sobrenome pomposo para distingui-lo ainda mais, “SAPIENS”. Não pôde contudo
deixar de se reconhecer pertencente à categoria animal, mas faz questão de
disto se esquecer a ponto de virar bicho quando é chamado de animal.
Um ser
assim tão especial não podia ter como deus uma simples bola de fogo. Foi o Sol
alijado do trono e em seu lugar colocado um novo deus, perfeito entre os
perfeitos, uma cópia exata do próprio homem. Daí para a frente o deus-homem,
masculino e viril como devia ser, de barba longa para sublinhar essa
masculinidade, passou a reinar em todas as nações e também sobre as mulheres.
Era o deus universal, de todos os povos. No entanto, como o bicho-homem é
também um animal egoísta, houve nações que inventaram um deus só para si, um
deus tribal, protetor daquela etnia. Não se deram conta, essas nações, da
contradição evidente da noção Deus com a noção Pátria. Desta confusão de um
simplíssimo raciocínio ilógico nasceram quase todas as guerras e morticínios
que infelicitam até hoje a história humana.
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