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O ALEMÃO



Ave, amigo João!

Há que tempo não nos falamos!

Que estas mal traçadas o encontrem bem de saúde e paz.

Cheguei a pensar em lhe ligar, mas Danilo achou melhor não incomodá-lo depois da cirurgia delicada por que você passou. Espero que voltemos a nos ver breve, sinto falta de nossos almoços e até de nossas brigas. Uma coisa me leva a fazer esta carta, uma preocupação: João, acho que estou perdendo a memória.

Sei que quando a gente chega na idade em que estamos a memória começa a falhar, mas uma coisa é saber por ouvir dizer e outra é vivenciar. Como nascemos no mesmo e longínquo ano, fico curioso em saber se isso tem acontecido com você também. É algo assustador imaginar que a coisa possa evoluir e daqui a pouco a gente não lembrar de mais nada, ainda mais agora que a vida que a gente leva quase não tem mais presente e só passado. E se daqui a pouco nem ele mais tivermos, o que será de nós?

A coisa começou com o esquecimento de palavras, não palavras complicadas, mas do dia-a-dia. Nas nossas conversas, não sei se você reparou, houve momentos em que não achei a palavra certa, fazia uma pausa de ponto-e-vírgula e acabava por achar uma substituta meia boca. Não deu, porém, para achar substituta quando a palavra esquecida foi “berinjela”. Lembra? Você até me ajudou na hora. Nas conversas de matar o tempo até que essa dificuldade não é importante, mas para gente como você e eu, que costumamos escrever uma ou outra crônica pretensamente literária, o defeito se torna grave. A gente imagina uma frase de efeito e, quando vai botá-la no papel, a palavra não vem. Dá uma aflição que só. Chego até a ver o tamanho da palavra, mas ela se esconde atrás de uma névoa densa. Não adianta soprar. O jeito que tenho encontrado é procurar no dicionário uma outra, com sentido assemelhado ao que pretendo dizer, e ver se entre os sinônimos acho aquela que buscava. Às vezes dá certo. Por exemplo, se a palavra que imagino é “enxerido”, mas ela sumiu da memória, procuro “intrometido” e lá, escondidinha atrás de uma vírgula, encontro a danada. Às vezes não dá certo, aí vai de “intrometido” mesmo, contudo perde-se o efeito desejado.

Disse antes que tudo começou com o esquecimento de palavras, mas não é verdade. Lembro agora que começou mesmo foi com ações rotineiras dentro de casa, do tipo de, estando deitado no quarto, levantar-me e ir até a cozinha para fazer alguma coisa. Chegando lá não lembro do que fora fazer. Como sou uma pessoa dissimulada, disfarço e bebo um copo d’água. Engano os outros, mas não a mim mesmo. No começo até ficava nervoso, mas agora perdi a vergonha.

E filmes, então? A gente entra em plataformas de cinema e um ou outro título chama a atenção. Aí eu digo: vamos ver este? Bebel responde: já vimos. Insisto. Bebel concorda. Vemos o filme e quando chega lá pela metade ela diz: não falei? E para machucar só um pouquinho (Bebel é bondosa, você conhece), igual ao homem masoquista que espeta o calo com a ponta do guarda-chuva, ela comenta rindo: a gente podia comprar uns vinte filmes que dava para assistir a vida inteira, era só chegar no vinte e começar tudo de novo.

Até que eu vinha levando a coisa numa boa, afinal é o preço a pagar por ter chegado a esta idade, todo mundo sabe que a memória começa mesmo a falhar. Mas agora fiquei assustado. Você não vai acreditar no que vou contar, mas é a pura verdade. Aconteceu na semana passada. Sábado de manhã eu acordo e não vejo Bebel ao lado. Como todos os dias ela acordou antes e foi preparar o café. Vou ao banheiro fazer o necessário e depois chego na cozinha onde Bebel esquenta o leite. Olho para ela e lembro que Bebel é o apelido, apelido do que mesmo? Diacho, qual é mesmo o nome dela? Você sabe, o nome dela é Isabel, e daí veio o apelido Bebel, mas cadê eu achar na cachola o nome dela? Fiquei apavorado. Disfarcei. Bebi um copo d’água. Só fui lembrar o nome dela na hora do almoço.

Será que estou começando a ter aquela doença do alemão, como é mesmo o nome dela?

O que você acha?

Abraços, beijos e queijos!

Deô.

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