“Yo no creo en las
brujas, pero que las hay, las hay.”
Penso até
que, matreiras que são, o nome de sua ciência resolveram trocar, hoje ela se
chama tecnologia. O chaveiro que carrego no bolso tem dois centímetros e nele
cabe toda a Enciclopédia Britânica. Desconfiado que sou, um dia o desmontei
para ver o que tinha dentro: um quadradinho de metal do tamanho da unha de meu
mindinho mais uma carreirinha de minúsculos grampos de prender papel. É ou não
é bruxaria? Até mesmo o antigo idioma grego as bruxas conseguiram ressuscitar;
hoje o mundo inteiro fala grego: é quilo, mega, giga, tera e por aí vai.
Conquistas
da ciência vão se avolumando e não existem mais, como antigamente, sábios
universais, agora só há especialistas. Experimente o amigo leitor ficar doente;
até há pouco tempo bastaria procurar um médico e matava o assunto; hoje tem de
saber antes qual o especialista que tem de consultar, se um cardiologista, um
pneumo ou um endócrino. Ou será que deve procurar um reumatologista? Ou um
geriatra?
Outro dia
os jornais estamparam a manchete “Dia Histórico: Um Buraco Negro é Fotografado!”.
Explicaram que o feito fora conseguido pela combinação de oito observatórios situados
em algumas das regiões mais inóspitas do planeta, como o deserto do Atacama, um
vulcão no Havaí e até o Polo Sul. Disseram que o objeto clicado é o centro de
uma galáxia localizada a 55 milhões de anos-luz de distância, ou seja, enquanto
a luz do Sol leva apenas 8 minutos para chegar em nossa velha e querida Terra,
a que vem do buraco fotografado levou 55 milhões de anos. Abstraído o fato
incrível de que estamos vendo hoje um passado de mais de cinquenta milhões de
anos, assusta também a própria constituição do Buraco Negro.
Para se
fazer um Sol seria preciso a massa de 300 mil planetas Terra. E para se fazer
aquele Buraco Negro, quantas estrelas iguais ao Sol seriam precisas? Recomendo,
querido leitor, que se sente em uma cadeira antes de ler a resposta. Dou-a
fazendo imensa força para eu mesmo nela acreditar: 6,4 bilhões de estrelas! Mamma
mia! exclamaria minha avozinha se ainda fosse viva; Bah tchê!
deixaria escapar o primo gaúcho. Mas é assim mesmo que está estampado no
jornal: 6,4 bilhões! Com be de bola. Cético, imediatamente concluí: foi erro de
digitação, deve ser milhões (ou milhares?).
Dias depois
tive a oportunidade de encontrar um astrônomo e ele confirmou o jornal; era
mesmo be de bola.
Imaginou,
leitor, quanta estrela junto, apertadinhas umas com as outras, tudo em um mesmo
lugar? O Buraco Negro tem esse nome porque é uma imensa quantidade de matéria e
sua força de gravidade é tão grande que nem a luz consegue dele escapar. Por
isso é negro. A matéria é tão densa quanto seria o nosso planeta se fosse
espremido até se tornar do tamanho de uma bolinha de gude.
Serão os buracos negros as
bolinhas de gude de um deus menino?
Ao que tudo
indica, no centro de cada galáxia existe um buraco negro e a ciência desconfia
que isto é necessário. Dentro de nossa própria Via Láctea deve existir um deles
e a gente não o vê por estar encoberto por nebulosas e poeira cósmica. Há
muitas galáxias rodopiando pelo espaço e a nossa não é das grandes, mede 50 mil
anos-luz. A maior já conhecida é uma tal de NG6872, que fica na constelação do
Pavão e que tem diâmetro de 500 mil anos-luz, portanto dez vezes maior que
nossa humilde Via Láctea. Mesmo a vizinha mais próxima, Andrômeda, que fica
logo ali, apenas a 2,5 milhões de anos-luz, tem o dobro do tamanho da nossa.
Não desprezemos, contudo, nosso lindo caminho de leite; estima-se que ele tem
cerca de 200 bilhões de estrelas. Não é pouco, não.
Antes do
telescópio Hubble iniciar sua vida de bisbilhoteiro do espaço era suposto
existir uns 100 bilhões de galáxias no Universo; hoje calcula-se que há mais de
um trilhão delas. Ainda bem que o amável leitor se conserva sentado! De “bi”
passamos para “tri”. Agora é só fazer a conta: 1 tri vezes 200 bi e teremos o
número de estrelas no Universo. Para buscar maior simplicidade fiquemos só com
a metade, faremos apenas “1 tri x 100 bi”, o que dará 100 sextilhões de
estrelas ou, como se costuma gravar na fronteira das matemáticas, 10²³, que
significa o número 1 seguido de 23 zeros (são zeros caindo pela beirada da mesa!).
Pois bem,
se imaginarmos que de cada milhão de estrelas uma delas possui um planeta que
permite a vida, teremos 100 quatrilhões de planetas (1017) semelhantes
à Terra. Se de cada milhão deles apenas unzinho tiver vida inteligente, serão
100 bilhões. Que alegria, não estamos sozinhos no Universo! Quem sabe um dia
encontraremos esses irmãos siderais.
Tolo
engano! Jamais haverá tal encontro. Apesar desses tantolhões de estrelas e
planetas o Universo é, ao fim e ao cabo, um incalculável e espantoso espaço vazio.
Toda a matéria nele contida se encontra tão espalhada no espaço que, se formos
viajar até a estrela mais próxima, levaremos mais de 60 mil anos para lá
chegar. Viagens interestelares, só na fantasia dos cinemas!
Até mesmo a
natureza que está bem perto e nos rodeia tem mais espaço do que matéria. Um
martelo ou uma barra de ferro, pesados que são, têm quase só vazio; milhões de
partículas de neutrino os atravessam a cada segundo sem colidir com qualquer de
seus átomos, que se encontram muito afastados entre si. Assim como martelo e
ferro, iguais a eles somos nós outros no mundo atômico, como ar rarefeito no
cimo de montanha.
Impossível
que é chegar perto de um buraco negro, a espécie humana, inventiva que é, deu
um jeito de criar um para chamar de seu, e o planeta começa a ser por ele tragado.
Nossa Terra está “bichada”; o verme responsável pela infecção é a própria
espécie humana, que logo mais atingirá a insuportável cifra de dez bilhões de
indivíduos. É muita gente para um planeta só! O bicho homem, como vírus da
Terra, aonde põe os pés extingue a vida; animais e vegetais perecem; até mesmo
parentes próximos como os neandertais foram por ele exterminados. Iguais a
vírus inconsequentes destruiremos o planeta como aquelas criaturas
microscópicas sempre destruíram seus hospedeiros. Mas não se desesperem, amigos,
sejamos ao fim magnânimos: auguremos às outras espécies inteligentes do Universo
uma melhor sorte, que não sejam elas, como nós, outras tanto suicidas. A
possibilidade de sucesso é estatística; em muitos casos haverá inteligências
melhores que a nossa.
Que assim
seja!
Emudece
agora o canto da antiga musa pois uma dúvida final se alevanta: por que
intitulei esta crônica de “Buraco Negro” se pouco falei dele? Falarei agora
mais um tanto e, prometo, será um final surpreendente.
Teorizam os
astrônomos que os buracos negros que se encontram nos centros das galáxias irão
pouco a pouco atraindo e absorvendo a matéria de que elas são formadas;
nebulosas, poeiras e estrelas serão engolidas. O processo será lento, durará
bilhões de anos e, antes que a eternidade termine, terminará a luz do Universo,
cada galáxia será um buraco negro. Teremos então um trilhão deles. Nada mais
senão eles. Nem o mais imaginativo escriba imaginaria um final mais negro.
FIM
P.S.: Não se aflija, sensível leitora: esses astrônomos são,
todos eles, uns bruxos loucos!
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