(Memórias
de um lembrador)
Era uma vez o menino que já fui um
dia e suas reinações no milênio que já não é.
E é tudo verdade!
Só para mostrar como as coisas acontecem
na vida da gente sem lógica ou razão, conto o sucedido em uma noite tenebrosa.
Estávamos todos já deitados a caminho do sono, quando manifestei o desejo de
dormir na casa de tia Diola, irmã de meu pai; morava ela a quase um quilômetro
de distância. Naturalmente, com toda razão, a mãe disse não e mandou que eu
dormisse; insisti, ela recusou novamente; comecei a chorar, queria porque
queria; o pai entrou na história: cala a boca menino! A entrada do pai na
história não era um bom sinal, geralmente terminava em surra. Avaliei a
situação, não estava ficando boa para meu lado, mas com que cara ia desistir,
depois de ter formado um banzé? Não sei se já deu para perceber que eu era um
cara teimoso, depois que encasquetava com uma coisa não dava o braço a torcer.
Maldita ideia de dormir na casa da tia! Agora não podia voltar atrás, tinha de
bancar o durão. Aumentei o volume do choro, levei os primeiros cascudos – ah,
se pudesse simplesmente desistir! Mas não, e a vergonha de enfiar o rabo no
meio das pernas? Continuei chorando e apanhando, amaldiçoando a desastrada ideia
e nela teimando, até que o pai cansou, trocou o pijama e me levou pela orelha. Mal
pisei no chão daqueles oitocentos metros. Até hoje uma de minhas orelhas é mais
pontuda que a outra, igual a de um presidente que recentemente tivemos e que
deve ter querido também dormir na casa da tia, quando criança.
Para conseguir uma coisa que nem
queria mais, levei uma das maiores surras da vida. Isto já estava implícito no
parágrafo anterior e só o retomo como desculpa para abrir este. É que fiquei um
tanto preocupado com o uso do adjetivo tenebroso para definir a noite em que se
deu o episódio. Minha intenção era apenas dizer que a noite era escura, cheia
de nuvens, mas creio que o adjetivo ficou um pouco forte demais, podendo levar
o leitor a imaginar que a noite fora medonha, terrível. Faço a advertência aqui
e assim evito voltar muitas linhas para efetuar a correção, procurar um novo
adjetivo etc.
Nesta altura desconfio que o leitor
já concluiu também que sou preguiçoso; mas nem sempre fui. Quando moleque era
ativo, brincava de tudo. Bem verdade que naquele tempo (olha eu usando
expressões bíblicas!), naquele tempo a televisão ainda não tinha sido inventada,
nem o videogueime, o que tornava obrigatório que a meninada debandasse de casa
logo depois da escola e só retornasse ao cair da noite. As mães não se
preocupavam, a rua era segura e filhos menores mais o serviço de casa eram
suficientes para ocupar integralmente tempos e cabeças. Como a maior parte de
nós, meninos, era pobre ou mal remediada, fazíamos nossos próprios brinquedos.
Note-se que realcei o gênero menino; foi de propósito: não havia meninas no
mundo, todas elas ficavam dentro de casa, raramente saíam, a não ser para a
missa de domingo, ou para uma procissão, parada da independência ou - aleluia! – nalguma noite especial, para
cirandas e jogos de amarelinha na calçada. Era quando aproveitávamos para ter
algum contato com elas; os mais novos de nós as achavam umas chatas enquanto os
mais crescidos ficavam bobos, babando que dava dó. Nós, os meninos, pouco
sabíamos delas, só o que aprendíamos com nossas irmãs, mas irmã não vale, de
modo que elas eram para nós seres estranhos, diria alienígenas, se então fosse
de uso o termo. Mas, cá estou me desviando do assunto.
Dizia que fazíamos nossos
brinquedos, e é verdade; raramente ganhávamos brinquedos prontos, a exceção
eram os piões e alguma bola de capotão, estas, raríssimas por causa do preço. O
jeito era costurar bola de meia. Fazíamos também aros de metal em forma de
roda, que vivíamos empurrando com cursores; montávamos pipas, balões (não eram
proibidos, então, e enchiam os céus dos três santos juninos); jogávamos pião e
bolinhas de gude - estas também, esquecia dizer, compradas, mas eram
baratinhas. Colecionávamos figurinhas de futebol e carteiras de cigarro;
sabíamos todas as marcas: Aspásia, Petit Londrinos, Beverly (preferência de meu
pai), lisos ou com ponta, todos cilíndricos, à exceção dos Cubanos, que eram
ovais; tinha até uma marca de cigarros pretos chamada Negritos, de papel doce
de alcaçuz. Nenhum adulto se importava com essas coleções, não havia a
consciência de que o cigarro faz mal, era até bonito fumar, a gente se sentia
por alguns momentos um Humphrey Bogart.
Jogava-se bola nos campos do bairro
e, é lógico, de vez em quando alguém torcia o pé. Aí, era levar o coitado para
o pai de um dos companheiros, massagista especializado em colocar de novo o pé
no lugar. Sofri muito na mão do tal homem; ele vinha com o dedão em riste e
tacava-o em nossos tornozelos inchados, não se importando com os berros que
dávamos. Só depois de adulto é que vim a saber que o correto é não mexer,
manter imobilizado o pé até que ele sare sozinho. Não sei se o homem tinha boa
fé ou se era um sadomaníaco, só sei que, se o visse hoje, metia-lhe um sopapo
pelas fuças. Contudo, como criança é por natureza um animal forte, coisa que
nem Euclides da Cunha percebeu, todos nós acabávamos sarando e creditávamos a
cura ao maldito homem, que procurávamos de novo quando outro acidente
acontecia.
Por hoje é só, não tenho mais o
vigor dos velhos tempos e a canseira bate na porta. Se as Parcas fiandeiras do
destino não impedirem e a preguiça deixar, outro dia conto mais.
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