O bicho homem é o bicho mais
estranho que a mãe Natureza inventou. Isto pode parecer bobagem, mas não é,
basta pensar um pouco, sem preconceito, e logo constatamos que é verdade. Mesmo
que se compare a espécie humana com um ornitorrinco ou com um dinossauro do
período jurássico, animais sem dúvida estranhíssimos, ainda assim o troféu continua
a ser nosso. Somos os únicos que temos medo da morte e, apesar disso, únicos a
destruir o planeta em que vivemos; somos os únicos que amam o próximo e os
únicos que o assassinam; somos os únicos que entesouram riquezas, mas matamos o
futuro em que seriam gozadas.
Por que somos assim? O que nos
diferencia de todos os outros seres que a Natureza criou? Atrevo-me a
responder: foi um pedaço de pau.
O homem é realmente um animal
inventivo, inventa de um tudo, mas nem sempre foi assim, viveu milênios sem
inventar nada. Era um bicho bruto como todos os outros e vivia de sua força e
agilidade. Um dia percebeu que, com um pedaço de pau na mão, podia bater no
adversário sem chegar perto dele; ele batia e o inimigo não conseguia revidar.
Estava criado seu primeiro invento, uma arma, que desde então tanto se
desenvolveu que nos dias de hoje chega a destruir cidades inteiras, manipulada
a quilômetros de distância com um singelo aperto de botão.
Pedaços de pau a Natureza oferecia a
granel, mas o homem foi o único de seus filhos que os transformou em arma. Por
quê? Porque somos diferentes. Se perguntarmos de que fenômeno os seres vivos
têm maior medo, a resposta unânime será: do fogo. Todos os animais fogem dele;
por isso fazemos fogueiras em nossos acampamentos, para nos proteger de
possíveis predadores. E por que de todos os bichos só nós não temos medo do
fogo? Na verdade, também temos medo dele, sim, apenas conseguimos domesticá-lo.
Foi necessário, no entanto, um esforço imenso para conseguir isso. Imagine
quanto medo teve de vencer o antigo pitecantropo para se aproximar da árvore em
chamas e tomar em suas mãos aquele primeiro galho incandescente e levá-lo para
dentro de sua caverna. Mais que coragem, foi um ato de loucura, loucura da qual
não nos livramos até os dias de hoje. O homem é o único animal louco que vive
neste planeta.
Com a primeira arma, o pedaço de
pau, mais o fogo defensivo, conseguiu ele vantagem competitiva, como diríamos
hoje, e passou a conquistar seu alimento com maior eficiência., donde começou a
lhe sobrar tempo livre. Diminuída a fome, o cérebro bem alimentado começou a
crescer. Ora, dizem as más línguas, cérebro grande e tempo livre chamaram a
atenção de Satanás, que se aproveitou da situação para plantar naquele vaso
sementes de maldade, origem de conhecido ditado popular. Como em cérebro maior
cabem mais ideias, aí foi um tal de inventar que não acaba mais.
Afora as invenções físicas, tipo
faca, roda, avião, o homem passou a inventar também teorias de pensamento.
Sendo estas bem mais complexas, precisou inventar antes a escrita, que é a
forma de gravar os pensamentos. Considerando que essas teorias costumam ser
muito complicadas, quase sempre não podem ser produzidas por um único homem.
Elas vão, então, se formando com a colaboração de vários, cada um registrando
sua contribuição, até que venham a formar um conjunto coerente. Quando isto
acontece temos a teoria pronta. É assim que surgiram as teorias do Deísmo, do
Ateísmo e do Nihilismo, do Espiritualismo e do Materialismo, do Fatalismo e do
Progressismo. Pois não foi nosso Machado de Assis buscar inspiração em Darwin
para criar o Humanitismo, a grande filosofia de Quincas Borba? A divisa “Ao
vencedor, as batatas!” não é ela uma aplicação da seleção natural? É assim que
se constroem as teorias humanas, subimos nos ombros de nossos avós para nelas
colocar mais um tijolo. Ironicamente – acontece às vezes - um ou outro neto
sobe em nós com um martelo e derruba parte do muro, que precisará ser refeito,
agora com tijolos mais modernos. Trago hoje meu tijolinho para colocar no muro
levantado por Albert Einstein. Para isto subo em seu ombro e já lhe peço
desculpas.
A teoria do alemão diz que o tempo
não é igual para todos, que ele varia de acordo com velocidade, gravidade e
espaço. Diz também que o espaço e o tempo não são grandezas absolutas, mas
totalmente relativas e, se alguém viajar a velocidade da luz, o tempo deixa de
existir.
No Universo tudo se move, nada está
parado. Mesmo a cobra, quando imobiliza a presa com seu olhar hipnótico, nem
ela nem a presa estão paradas, ambas se movem a idêntica e incrível velocidade,
que físico nenhum deste e de outros mundos é capaz de medir. Senão vejamos: estão
ambas circulando ao redor do eixo da Terra; a Terra circula ao redor do Sol;
ele roda em volta do centro da galáxia; a Via Láctea se precipita no espaço
para, louca que é, colidir fragorosamente com Andrômeda. Portanto, a cobra e o
rato, mesmo parados, estão ambos em velocidade vertiginosa. No fundo,
abstraindo-se de todas aquelas fórmulas cheias de “x” e “y” que Einstein
desenvolveu até chegar na simpática E=MC², a Teoria da Relatividade é isto:
nada está parado no Universo e a velocidade de cada coisa depende da velocidade
em que viaja o observador. Dois observadores, com velocidades próprias
diferentes, verão o mesmo objeto com velocidades desiguais. Tudo depende de
tudo e, por isso, tudo é relativo.
Não deixa de ser frustrante para um
pobre mortal de pensamento dogmático, do tipo que tem certeza de tudo,
enfrentar essa conclusão: tudo é relativo. Sem desmerecer o gênio de Einstein
digo, sem vaidade, que faltou a ele aplicar sua teoria ao que chamo o “bicho
homem”. Explicou ele o Universo, eu, mais modesto, tento explicar o homem.
Antes de mais nada fica desde já a afirmação geral: é o homem o ser mais
inconstante do Universo, nada nele é absoluto, a não ser sua autoproclamação de
ser o único “SAPIENS”. Em razão dessa pretensa sapiência julga ele que tudo que
pensa e faz é definitivo. Por causa dessa falsa pretensão precisa levar um
banho da Teoria da Relatividade. Dou-lhe abaixo uma primeira chuveirada.
Não pretendo desautorar o “homem da
língua”, como ficou conhecido popularmente nosso Einstein ao ser surpreendido
por um paparazzi, durante uma consulta médica, no ato de mostrar o órgão
gustativo ao clínico de plantão. A foto viralizou e correu mundo estampada em
jornais e camisetas. Eu mesmo tenho uma dessas camisetas, que costumo usar em
dias em que meu cérebro se recusa a dar sinal de vida. Às vezes funciona, às
vezes não, o que não prova nada, a não ser a grandeza da verdade de que todos
os fenômenos do Universo se enquadram perfeitamente na Teoria da Relatividade. Respeitando
o alemão, quero tão somente lembrar como sua teoria explica satisfatoriamente o
mundo em que vivemos nós, míseros representantes daquela espécie “sabida”.
Se o amável leitor gosta de
exemplos, dou-lhe um. Estava eu outro dia vagabundeando por uma praia e andava
pela lâmina de água, naquele limite em que o mar vem acariciar a areia,
quebrando sobre ela sua espuma branca. Seguia conselho médico de fazer massagem
linfática nas pernas para aliviar o inchaço dos pés. Enquanto as pernas faziam
moderado esforço para vencer a resistência das águas, caminhava com o
pensamento vadio e, diria poeticamente conversando com meus botões se não
estivesse vestindo somente calção de banho. À falta de pensamento mais
atraente, desviei a atenção introspectiva e comecei a olhar para fora de mim
mesmo. Vi homens de barrigas protuberantes, rotundas e flácidas, com banhas a
cair sobre os calções. Vi mulheres de peitos caídos e traseiros gordos,
exibindo dezenas de microcrateras de celulite. Por mais que procurasse encontrar
espécimes glamorosos, as cenas se repetiam e continuava a cruzar com figuras
dantescas. A contragosto admiti: — A humanidade é feia!
Essa constatação me deixou infeliz.
Lembrei então de Einstein e de sua Teoria da Relatividade, lembrei também das
madonas renascentistas, carnudas, bem servidas, padrões de beleza da época, e concluí
que muitas destas senhoras que comigo cruzavam seriam por Rafael retratadas.
Reconheci que nos dias atuais ser bonita é ser magra, mas já foi ser gorda em
tempos passados. Em sequência – e reconheço por isso ser uma pessoa insegura –
rendi-me ao contra-argumento: A Beleza é relativa!
E foi assim, com o pensamento vadio,
que consegui a proeza de buscar na Teoria da Relatividade aquilo que Einstein
deixou de fazê-lo: aplica-la à espécie humana.
Eu, que começara aquela caminhada
envergonhado de minha rotundidade abdominal, terminava a andança quase envaidecido.
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