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CLUBE DA BENGALA

            Na realidade nem clube é, apenas uma reunião de amigos que, lá por volta dos anos oitenta, resolveram se encontrar todo mês para jantar e jogar conversa fora. Estavam então em idade fértil trabalhando para construir o futuro, cada qual em sua área e segundo a competência. Para isso dispunham ainda da energia que sobrara da juventude recém ultrapassada. Conversavam de tudo, de serviço e de mulheres, de futebol e de mulheres, de filmes e de mulheres, de falta de dinheiro e ... de mulheres. Quando passava uma delas perto da mesa que ocupavam, se bom exemplar fosse, as cabeças rodavam nos pescoços para acompanhar, em seu apogeu tangencial, a órbita que a bela executava. Então, se o assunto da conversa tivesse sido outro, no ato era esquecido; voltavam a falar de mulheres.
            Alguém se lembrou um dia de botar nome no grupo. Assunto sem importância, nem controvérsia houve, botaram Clube do Chope, pois os jantares eram sempre regados com um baita canecão gelado. Mas o homem põe e o diabo dispõe. Com o passar dos anos as coisas do mundo foram mudando, alguns cabelos branqueando, outros cedendo lugar a testas mais amplas, barrigas ficando flácidas e cérebros ansiando por novidades. Vale lembrar aquilo que revelou um antigo operista: La donna è móbile, que serve não somente para a mulher, mas também para o homem. Agora sabemos disto, mas na época machista em que o compositor viveu, se reconhecesse a igualdade, certamente seria apedrejado. Mas o tempo andou e hoje, por distração ou descuido, deixa escapar a verdade: o homem também é volúvel.
            Concedida a volubilidade dos varões, fácil é entender que um e outro componentes do grupo, mais cartesianos que os outros, levantaram um dia a pergunta: por que só uma vez por mês? Por que não a cada quinzena? Como sempre fora grande a sede de seus esôfagos o alvitre foi bem aceito, passaram a se reunir duas vezes por mês.
            Para uma parte da turma, que ainda galgava os primeiros degraus da escada da fortuna, iria fazer diferença nos bolsos a duplicação da despesa mensal. Sendo, porém, pessoas criativas, encontraram logo a solução para minimizar o prejuízo, trocaram o chope pela cerveja. O preço da caneca abandonada dava para pagar duas garrafas da prima pobre e, assim, o dispêndio pouco aumentou. O nome do Clube passou a ser da Cerveja, mais consentâneo com a troca efetuada.
            Instituíram novas regras ou estatuto? Não. Nem pensaram nisso.
            O comparecimento às reuniões quase nunca foi completo, vez ou outra havia alguma falta, o que não impedia o congraçamento. Depois de tanta conversa voltavam tarde da noite para casa, mas perigo não havia, pois ainda era época de se amarrar cachorro com linguiça.
            Vieram porém os tempos modernos e, enquanto aumentava a criminalidade e os perigos noturnos, diminuía o número de sócios do Clube. Uns haviam se mudado e outros adquiriram o péssimo hábito de se irem morrendo. Ao fim e ao cabo restou apenas uma meia dúzia. Assim diminuído o grupo, todos enfim aposentados e com os dias livres, surgiu então a ideia de trocar os jantares por almoços, tentativa de driblar a violência instalada no país. Acometidos agora de males da idade e proibidos de beber álcool, metade deles passou a consumir sucos e águas desvirtuando, assim, o próprio nome Clube da Cerveja. Urgia mudá-lo. Mais fácil teria sido todos os países do mundo respeitarem as decisões da ONU.
            Os quatro membros do Clube teriam chegado rapidamente a uma conclusão, não fossem dois deles, turrões, discordarem, José e Wolf, confirmando o ensinamento daquela escola filosófica que afirma que a velhice torna os homens teimosos e obstinados e sua ranzinzice não é outra coisa senão o crescimento exponencial de seus defeitos. Para não fugir da verdade importa assinalar que Wolf é nome sincopado de Wolfgang, que nosso personagem recebeu do pai, grande fã de Mozart. Ele não suporta carregar nome tão pesado e gosta de ser chamado só pela metade, o que respeitamos neste relato, ao qual voltamos para dizer que os outros dois, Olavo e Heitor, de temperamento morigerado e telúrico bom senso, concordavam com tudo (entendiam a absoluta desimportância do assunto). Os turrões, contudo, batiam o pé, não arredavam posição, longe estavam de atingir a sabedoria que os muitos anos vividos costumam prometer ao bicho homem. O nível da contenda chegou a ponto de ameaçar a camaradagem, e foi nessa hora que a turma-do-deixa-disso propôs o adiamento da questão. O salomônico alvitre foi aceito e o assunto não mais discutido nas reuniões seguintes, deliberadamente esquecido, o que comprova afinal que não está de todo errada a promessa que os anos vividos nos fazem, a todos nós, de um dia chegarmos perto da sabedoria.
            Neste instante sou obrigado a interromper a narrativa para permitir que aquele leitor, ali no canto, que parece trazer na garganta uma aflitiva pergunta que não quer calar, se manifeste.
             Diga lá, amigo!
            — Na verdade são duas as perguntas. A primeira: se eram seis os componentes do Clube, por que agora o senhor só fala em quatro? A segunda: quais seriam, afinal, os dois nomes propostos que quase provocam briga? Não acha que é um desrespeito deixar o leitor ao deus-dará?
             Querido leitor, respondo já!
            Antes digo que não é bajulação usar eu o adjetivo “querido”. Segundo regras que aprendi em leituras de manuais de redação, qualquer referência que se faça ao leitor deve sempre tratá-lo de caro, querido, amigo, paciente etc. Na verdade, muito justa a lição, pois ele poderia estar fazendo coisa mais útil ou prazerosa e, no entanto, gasta seu precioso tempo acompanhando-me nesta narrativa descosida. Em segundo lugar, devo-lhe desculpa e àqueles dois outros que ainda não desistiram de mim. Se como desagravo serve, invoco pouca experiência no ofício ou até escasso talento, mas jamais desídia. De fato, esqueceu-me comunicar ao vigilante amigo que o grupo fora reduzido de dois componentes, ambos falecidos, um, de morte morrida e outro, de morte matada. Quanto aos nomes de troca, um era Clube do Chope, defendido com tenacidade pelo advogado José, que propugnava fosse privilegiado o primeiro nome que o Clube tivera, num verdadeiro resgate histórico. Wolf, formado em História, defendia o nome Clube da Bengala. Ironicamente o causídico, que devia ter em mente o futuro, olhava para o passado enquanto que o outro, que por formação devia resgatar o passado, prestava tributo ao futuro. A vida real tem incongruências que nem Pascal explica. E por que Wolf queria Clube da Bengala?
            Antes é preciso salientar, ainda que tenha ficado implícito, que nossos quatro mosqueteiros desde muito haviam ultrapassado o que se convenciona chamar de meia idade. Olavo, o decano, nascera no ano de 1932, enquanto os outros três eram de 37. Velhos, mas não tanto como alguns varões da Bíblia. A soma dos quatro chegava a pouco mais de trezentos anos, enquanto apenas Matusalém tivera três vezes isso, 969; Lamec, pai de Noé, 777 e o próprio Noé, 950. Creio eu que tão extensas vidas é que fazem alguns céticos descrerem do livro santo.
            Enquanto o voto de José estava voltado ao passado, recuperando aquilo que já fora, quem sabe até homenageando os tempos de juventude, à moda daquele francês que vivia em busca do tempo perdido, a sugestão de Wolf estava nitidamente dirigida ao futuro (teleologicamente, diria ele, apenas para revelar seus conhecimentos filosóficos). Em seu desfavor, porém, é preciso confessar que nos dias de hoje nenhum dos quatro membros do Clube usa bengala, mas Wolf contra argumenta que, levando em conta os anos que cada um carrega nas costas, é presumível imaginar que dentro de um lustro delas farão uso... aqueles que sobreviverem, afinal não vivemos mais em tempos bíblicos.
            Moral da história, não sendo resolvida a pendência da mudança de nome, o Clube acabou ficando sem ele ou, para um Pangloss redivivo, com a abundância de três: da Cerveja (para Olavo e Heitor, que não quiseram tomar partido), do Chope (José) e da Bengala (Wolf). Como este escrevinhador teve que se decidir por um dos nomes para titular esta crônica, acabou por escolher da Bengala, por razão que será explicada com a leitura da próxima frase.
            Convidado que foi pelo tio Wolf a um dos últimos encontros do Clube, este escriba pode assegurar que os quatro cavaleiros continuam a discutir os problemas do mundo, mas ainda estão longe de encontrar soluções. Não deixam, porém, de manter alguns hábitos antigos. Ao passar uma jovem figurinha, tangenciando nossa mesa, todas as cabeças giraram sobre os pescoços. Meu galhofeiro tio exclamou:
            — Antigamente eu até sabia para que servia!


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