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OVO AZUL

            O carrilhão do mosteiro anuncia as seis horas, Marcos e Tavares batem ponto e descem. O elevador vai cheio de mulheres, perfumes e receitas, e de alguns homens e futebol; ninguém fala de serviço, é sexta-feira. Na rua o bloco se dispersa, poucos para o Largo de São Bento, a maioria em direção à Praça da Sé; só os dois pegam a Rua da Quitanda, destino Maria Antônia.
            Têm muito chão para andar, mas ainda é cedo, o Sol só vai bater ponto daqui uma meia hora. Esconde-se ele, por enquanto, por detrás dos prédios, mas deve estar bem aceso pois as nuvens altas do oeste estão ruborizadas, quem sabe envergonhadas do olhar concupiscente que ele derrama nelas. A tarde, antes de se recolher a seu repouso, expira lentamente os últimos ares quentes que engolira enquanto foi dia. Mais um pouco, assim que o escuro lhe fechar os olhos, iniciará seu sono de noite sonâmbula e exalará brisas mais frescas.
            Tavares e Marcos são jovens, nem vinte anos têm, e provavelmente ainda não sabem o que querem da vida. Só isso explicaria que um faça filosofia e o outro, letras clássicas. No mundo de hoje quem pensaria estudar grego, filosofar? Fora isso, são rapazes normais e, mais que fome de saber, têm simplesmente fome. Por causa dela apressam o passo, descobriram faz uma semana um barzinho na Praça Dom José Gaspar, bem atrás da Biblioteca, que serve um prato gostoso e baratinho de fígado acebolado.
            O bar é pequeno, a mesa é pequena e o prato é pequeno. Para fome de vinte anos todo prato é pequeno. A vantagem é que o preço igualmente o é e cabe dentro do salário. Faz mais de uma semana que os dois vêm comer o mesmo prato, mas hoje ele não desce bem, não parece tão gostoso como antes. Quando o descobriram, semana passada, foi um achado: preço bom, prato ótimo, solução ideal para o problema de todo dia, onde jantar. Já haviam experimentado o bandejão da faculdade, mas não levou um mês e não aguentavam mais o gosto desbotado do feijão, grande e insosso, nem parecia feijão. Mandaram o bandejão às favas, que era o que pareciam ser aqueles grandíssimos grãos.
            Passaram então a comer sanduiches aqui e ali, depois experimentaram um prato feito no Feijão com Arroz da Praça da Sé, depois, o par de salsichas com batatas cozidas da Salada Paulista, ao lado do cine Ipiranga, mas nada deu certo; após algum tempo enjoavam. Estudantes da vida, sem que se dessem conta, estavam aprendendo a duras penas uma lição básica: repetição constante enfastia.
            Terminado o jantar, a vontade de fígado acebolado chegara também ao fim. Junto se esvaíra o desejo de voltar ao local. Daqui em diante sentirão um arrepio ao passarem diante da Biblioteca. É normal. O tempo, que tudo cura, curará também o fastio. É da vida.
            Se o tempo cura, também descura. Descuidou ele do pobre Marcos; melhorou o emprego, é certo, mas colocou-o tão longe, no bairro da Penha. Agora, para chegar à faculdade, o rapaz sai correndo às seis horas, toma o ônibus 29 até a Sé e ainda quase correndo sobe a Consolação, para chegar sempre atrasado. Ao final da primeira aula, dá um pulo até ao bar da esquina e come um ovo cozido, com pressa. Para descer melhor, pois são secos esses ovos, vai engolindo junto um copo de leite frio. Tem só quinze minutos de intervalo antes da segunda aula. O moço começa agora a compreender melhor as aulas do semestre passado sobre o estoicismo; está vivendo ele próprio a vida de um estoico. Contudo, pensando melhor, reconhece que está sofismando consigo mesmo, afinal, para ser um verdadeiro estoico, deveria se sentir feliz com as privações. Verdade verdadeira: não se sente. Ao contrário, sonha com bons jantares, com salsichas, batatas cozidas, pratos feitos, sanduiches e até com a comida do bandejão, com seus feijões-fava. Igual ao velho Ataulfo, ele fora feliz e não sabia. Só não sonha com o fígado acebolado. Lembra, divertido, de um conto de Monteiro Lobato que leu por estes dias.
            Lembra também do Tavares. Como estará o Tavares? Decerto anda comendo bem, terminou o curso no semestre passado e agora está lá na França fazendo mestrado. Dizem que se come muito bem em Paris. Sortudo o Tavares, deve voltar mais gordo.
            Marcos ainda não é um intelectual mas vai sê-lo e, se mantiver a honestidade de hoje, se-lo-á dos bons. Reconhece, de tudo que pensou, que nunca será um estoico, identifica-se muito mais com o hedonismo de Epicuro. A vida do homem já é tão curta, por que enchê-la de sofrimento? Melhor, muito melhor, é viver com prazer. Um dia ele conseguirá; quem sabe não fará estágio na Sorbonne?
            Marcos mastiga e engole o naco final do ovo e escorropicha na goela a última porção de leite. A fome, no entanto, persiste e ele decide, contrariando seu hábito, levar consigo mais um ovo para comer depois, afinal ele não é nenhum estoico, é um orgulhoso epicurista.
            — Seo Zé, embrulha um ovo amarelo para viagem e me vê a conta, por favor!
            — Amarelo acabou, só tem azul.
            — Pô, mas logo azul? A tinta azul é mais forte, atravessa a casca e mancha o ovo.
            — Mas é o que tem. Vai levar?
            Marcos titubeia por um momento, hesita enquanto procura as premissas corretas, ai que fome, e a conclusão espoca num brado firme:
            — Embrulha!


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