Bem aventurados os que não têm nariz
ou que os têm em pouco uso. A humanidade seria mais feliz sem eles, privada do
cheiro de urina das calçadas de nossas cidades, protegida do odor corpóreo de
nossos semelhantes não afeitos ao banho diário, livre da agressão cotidiana dos
perfumes, franceses ou não, que nossas mulheres insistem em nos impingir. Que
felicidade seria aspirar um ar limpo de poluição! Como isso não é mais
possível, abaixo os narizes!
Sei que serei tachado de retrógrado,
não me importo, o gênio sempre foi incompreendido em seu tempo. A humanidade me
tem por louco, também não me importo, luto para salvá-la. Sou altruísta, talvez
visionário, mas continuo minha luta solitária em busca do bem geral. Neste
subterrâneo de cientista louco, manipulando bicos de Bunsen e destiladores de
vidro, entre provetas e cadinhos, persigo com destemor o objetivo de minha
vida, livrar a espécie humana de sensações. Para isto nasci, libertar o homem
do sofrimento, missão e destino. Como um Messias não aguardado sofro
perseguições e sei que, ao final, serei também crucificado, como aquele outro.
É o preço da redenção que volta a ser cobrado. A experiência da vida me levou a
isso.
Quando moço, já quase nem lembro,
fui aluno da vetusta Salamanca. Creio que foi ali, mergulhado em ambiente
medieval que adquiri o gosto por antiguidades. Não prejudicou contudo, este
gosto, minha formação científica; frequentei pos-graduações em Oxford e
Sorbonne, onde julgo não ter feito má figura. Naqueles tempos, passeando em
Londres, surpreendi um casal de namorados tirando fotos ao lado de uma das
iconográficas cabines telefônicas da cidade. A moça, em determinado momento,
abriu a porta da casinha vermelha e fez menção de nela entrar, mas o gesto
ficou só na vontade, recuou apressada tapando o nariz. Estranhei o fato e
quando o casal se afastou fui até a cabine para desvendar o mistério. Para meu
cérebro positivista não pode haver mistérios na natureza, o insólito tem que
ser explicado. Creio que foi então que, pela primeira vez na vida, me arrependi
de ter um cérebro privilegiado. Outras e inúmeras vezes voltaria a ter o mesmo
arrependimento. A lei de Newton me atingiu em cheio, com o mesmo ímpeto com que
me dirigi à cabine fui por ela rechaçado. Retornei veloz, também de nariz
tapado, um intenso fedor de urina, acre e penetrante, impregnara-se em minhas
narinas. Levou horas para que se dissipasse delas e dias para se dissolver na
memória.
Passou algum tempo para que
esquecesse o episódio e já o tinha em arquivo morto quando foi ele ressuscitado,
agora em Paris, nos arredores de Notre Dame. Outro casal de apaixonados, desta
vez não tirando fotos, embora com a câmera a tiracolo. Devo lembrar de colocar
entre minhas regras de sobrevivência o alerta de me manter afastado de casais
enamorados. São um perigo.
Esperava o casal que fosse
desocupada uma cabine telefônica, provavelmente para dar notícias a parentes no
país de origem. Dentro dela fazia uso do aparelho um homem elegantemente
trajado, sobretudo bege de lã, cabelos penteados e guarda-chuva no braço. Parei
para apreciar a cena, curioso. Recordava Londres, mas quanta diferença! Ia
seguir caminho quando o homem saiu da cabine e o casal entrou — outra vez a lei
de Newton —, entrou e saiu em duplo movimento, quase contínuo, quase um só de
tão rápido. E agora? Outra vez o mistério. Ah, este cérebro cartesiano! Pouco
adiantaram os alertas do hipocampo; sob comando do córtex minhas pernas
carregaram o corpo relutante até a cabine. Não, não havia fedor de urina; o
pequeno quadrilátero exalava o bodum do homem elegante que o havia ocupado. A
catinga aderiu em minhas papilas olfativas e ali permaneceu por horas, na
memória, por dias. Contrariando as leis do bom método, quase faço uma
generalização apressada, qual seja, a de que os europeus não são lá muito
chegados a banhos. Detive-me a tempo e apenas deixo registrada a má intenção
para que vá, junto de muitas outras, frequentar as prateleiras do inferno.
Dizem que delas anda ele cheio.
De perfumes femininos também não
consigo me livrar, aonde quer que vá. Em ônibus, metrôs, teatros, não há lugar
em que não seja agredido por fragrâncias de todo tipo. Quantas vezes perdi a
fome em restaurantes por passar a meu lado, ou sentar à mesa próxima, alguma
senhorinha encharcada de inebriantes aromas. Parece que o planeta começa a
entrar em uma nova era geológica. Que os especialistas lhe achem um nome
apropriado, eu de minha parte lhe sapecaria “Era Perfumosa”.
Até bem pouco se usavam sabonetes e
desodorantes sem perfume; os produtos de limpeza tinham cheiro de coisa limpa.
Hoje tudo recende a florais, até mesmo as roupas lavadas, cheiros que de flores
só têm o nome, são arremedos toscos que violentam nossos sofridos apêndices
nasais.
Em minhas vilegiaturas acadêmicas
recordo ter passado um dia inteiro em Évora, cidade do Alentejo. Para
aproveitar o dia, logo ao nascer do sol visitei suas ruínas romanas e, a
seguir, dispus-me a conhecer a famosa Capela dos Ossos, igrejinha edificada com
ossos humanos. Tinha visto fotos: colunas de tíbias e perônios, vigas de
fêmures e arcos de crânios a olhar o mundo com suas órbitas vazias; no
frontispício, a inscrição dantesca: “Nós que aqui estamos por vós esperamos!”
Subia uma ladeira em direção à
capela, sol ainda suave, não seriam nem dez horas; o andar era lento por causa
do aclive e do piso irregular de gastados calhaus. A rua era estreita e sem
calçadas, como o eram há mil anos. À minha frente, a cem metros, dois homens
saem de uma casa carregando um baú, atravessam a rua e entram na casa da frente.
Cena banal, corriqueira, o cérebro a registra automaticamente, quase de modo
inconsciente. Continuo a subir a ladeira, passos e pensamentos lerdos, nos pés
as pedras, na cabeça a Roma vista e os ossos a ver. De repente o cérebro salta,
se é que se pode dizer isto dele, um bodum o choca depois de passar pelas
narinas, cheiro conhecido, lembrança de Paris. O pensamento, que andava
vagueando, reflui para o agora e cá está a casa azul de onde saíram há momentos
os homens e o baú; o fedor de suores fermentados paira no ar empesteando-o.
Apresso o passo para atravessar logo a corrente nauseabunda. Por experiência
sei que de pouco adiantará, o odor já está impregnado nas narinas e no cérebro,
só o tempo trará a cura. Fico espantado com a intensidade da percepção; desde
que os homens por ali passaram andei vagarosamente por cem metros e o cheiro contudo
ali está, firme e forte. Ainda é manhã e os homens tresandam, indício de que o
vêm acumulando por dias.
Suponho que foi em Évora que comecei
a pensar seriamente na cruzada de minha vida, libertar a espécie humana das
sensações. Inicio pelo sentido que julgo o mais perverso, o olfato. Se tiver
sucesso pensarei em estender a ação para os outros. A ameba, por exemplo, só
dispõe do tato; quando toca alguma coisa que a repugna, foge, se lhe atrai,
absorve-a. Creio que é feliz. Os peixes abissais não têm olhos, e por isso não
enxergam a bocarra dos predadores quando os devoram.
Contudo, sou um cientista, tenho que
ser realista, reconheço que aquelas outras serão lutas inglórias. Devo me ater
a esta que agora intento, focar a ação para o inimigo do momento, com ou sem
rimas conquistar apoios, escrever artigos e livros, ir a jornais, convencer as
populações de que o adversário a ser vencido é o olfato.
Começo esta cruzada com este pequeno
ensaio. Rogo ao leitor que o leve na devida conta. Não devemos lutar contra
moinhos de vento, devemos lutar contra fatos. O olfato é um fato!
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