Impaciente, aguardo a noite chegar.
Ajudam-me a Bíblia e um cálice de conhaque, uma no colo e o outro apoiado na
mesinha ao lado. O livro me desafia: as letrinhas miúdas, aos olhos cansados e
as alegorias, ao cérebro doente; a bebida forte me estimula, aquece-me as
entranhas frias de ansiedade. Alguém dirá ser estranho o quadro, quase
sacrílego, que beberagem não combina com leitura de livro sagrado. Mude-se,
porém, o adjetivo para livro histórico e a cena será perdoada. Na qualidade de
estudioso da cultura humana examino a Bíblia em seu caráter de importante
documento, não como livro sagrado. Com esta disposição espero apaziguar crentes
e ateus, todas as coisas têm sua hora.
Agora é a hora em que o dia acaba. Como moribundo, ele
lança pela janela uma luz envergonhada, desbotada como um aceno triste de
despedida. Pelo ar mortiço, lá fora, um casal de passarinhos risca o céu
cinzento a caminho da mangueira do quintal. Como o dia, ele também se despede,
o dia morrerá ao mergulhar no horizonte, as avezinhas, depois de alguns
arrulhos, dormirão no galho da árvore. Na manhã que vem outro dia inteiramente
novo nascerá, e nele tudo outra vez será possível; os passarinhos se lançarão
no ar refrescado pela noite e nem se darão conta do presente recebido.
A penumbra da quase noite vai
invadindo minha sala e já começa a impregnar a página do livro aberto. Se
quiser continuar a leitura devo acender uma lâmpada. Em vez disso penso,
indeciso, e os olhos se desfocam, atravessam o volume grosso que tenho caído no
colo e, esquecidos, esbarram no infinito, como é próprio de olhos perdidos. A
parte consciente do cérebro, absorta em sua matéria, nem percebe o descaminho
dos olhos, seu campo de visão estampa a figura desejada de Amora, com os lábios
carnudos de fêmea madura. A lembrança do gosto dessa boca ferve meu sangue nas
artérias e a indecisão de ler ou não ler se esvai, como fumaça dispersada pelo
vento.
Fecho o livro com ruidosa
disposição, entorno o restante do conhaque e, com a garganta e o coração em
chamas, ganho a rua, quase em disparada.
Sei que é cedo, mas que importa?
Chegarei a casa dela antes do combinado, talvez mesmo antes de seu banho.
Melhor, tomaremos o banho juntos!
Ah, essa mulher me enlouquece! Eu,
que já me julgava aposentado de amores, náufrago da vida, reputado como o
eremita do departamento de humanidades, de repente me vejo atingido por este
tsunami de hormônios, como um adolescente de dezessete anos. Não sei se bendigo
ou maldigo a hora em que aceitei ser o orientador do mestrado de Amora.
Enquanto aluna ela não me havia chamado a atenção, mas foi só iniciarmos as
reuniões de trabalho para tudo mudar. Não é linda, nem nova, terá alguns anos
além dos trinta. O rosto não é feio, diria quase belo, os traços regulares
coadjuvando o protagonismo daquela boca pintada de carmim. Esta boca, sim,
talvez seja a explicação da mudança de minha indiferença inicial. Ao falar, ao
sorrir, aqueles lábios se movem como se tivessem vida própria, como se agissem
com independência da dona deles, mulher de atitudes recatadas, que se veste com
sobriedade, que tem gestos pudicos. Contraste enervante entre a figura e a
boca, figura de vestal, boca de cortesã. Boca de perdição.
Perdido fiquei no momento em que me
aproximei daquela boca. Sua força de atração, qual um buraco negro na galáxia
de minha vida, envolveu-me, prendeu-me, tornou-me irremediavelmente seu cativo.
Não tive forças para me libertar, nem queria. Gravitando em torno daquela boca
queria mesmo era me atirar sobre ela, beijá-la, apertá-la, chupá-la,
penetrá-la, apossar-me dela e, ao mesmo tempo, ser por ela possuído. Não sei
definir o que sentia, se amor, se paixão, se loucura, só sei que não queria,
não podia, não conseguia mais ficar longe dela. Sofri, penei. Cada novo encontro
era aguardado com sofreguidão e temido com desespero. Neles minha sapiência,
meu raciocínio alternavam picos e vales, ora eu era brilhante, pouco depois, um
idiota. Ela se divertia, sorria um riso aberto, ocasiões em que um brilho
diferente parecia faiscar em seus olhos negros. Seria um incentivo, ou só uma
projeção de meu desejo inflamado?
Um dia, num intervalo entre Platão e
Aristóteles, ao final de um riso aberto e antes que se apagasse a faísca no seu
olhar, contrariando minha timidez congênita, tomei Amora em meus braços e
beijei loucamente aquela boca indecente. Para minha surpresa não fui repelido.
Amora assustou-se, é verdade, mas, depois de um breve instante, correspondeu ao
beijo roubado.
— Custou, Professor! Julguei que não
acontecesse mais...
Nem preciso dizer que Aristóteles
ficou para outro dia. Perdi a noção das coisas e, quando dei por mim, estávamos
nos acoplando, desfazendo e enrugando os lençóis da cama, Ares e Afrodite
enlaçados, eu, um fauno enlouquecido, ela, uma ninfa macia, que combinava
pundonor e concupiscência, recato e devassidão. Aprendia eu, na prática, que
esses valores tão contrários, ao se juntar, produziam um efeito devastador.
Desde então minha vida tem sido um
estado de suspensão, estou morto longe de Amora, e ressuscito quando em seus
braços. Longe dela, como um zumbi, estudo sem atenção e faço anotações
mecânicas. Já lhe levei, para o tema de seu mestrado, trechos do Kama Sutra, de
mil anos antes de Cristo e do árabe Jardim das Delícias, de mil e quinhentos
depois dele. Levo hoje anotações do Cântico dos Cânticos, da Bíblia
judaico-cristã. Eis algumas delas:
Ele
me levou à adega
e
contra mim desfralda
sua bandeira de
amor.
Meu amado põe a
mão
pela
fenda da porta:
as
entranhas me estremecem.
Ele
todo é uma delícia!
Seu
umbigo... essa taça redonda
onde
o vinho nunca falta.
Seu
ventre, monte de trigo
rodeado
de açucenas.
Seus
seios dois filhotes,
filhos gêmeos de
gazela.
Como
você é bela,
como
você é formosa,
que amor
delicioso!
Sim, seus seios
são cachos de uva.
Sua
boca é um vinho delicioso
que
se derrama na minha.
Creio que estes versos ajudarão
minha querida a compor sua monografia. Espero que lhe sejam proveitosos e, mais
que isso, que sirvam de estímulo para que continue a sessão de ontem em que ela
dizia que amar é o destino de sua vida, que não é à toa que seu nome é Amora,
ou seja, a forma feminina da palavra amor, que não é à toa que tem ela aquela
boca carnuda e que não é sem motivo que a pinta de vermelho: quer que ela seja
sugada como uma amora suculenta. Toda ela, todo seu ser, é uma fruta perfumosa
a ser colhida.
Vou logo, amor. Estou chegando,
Amora.
2
Messalina! Era assim que Tavares me
chamava, é assim que ainda me chama. Não me ofendia antes, era um carinho de
intimidade, mas hoje me revolto, não aceito. Tratava-o então e continuo a
tratá-lo de Professor, com pê maiúsculo, como se o substantivo comum fosse-lhe
o nome próprio, uma forma amorável de demonstrar gratidão e respeito. Devo
muito a ele e sempre deixei isto muito claro. Sua ajuda como meu orientador de
mestrado foi inestimável, sem ela não teria conseguido abordar por tantos
vieses históricos a sexualidade humana. Até o presidente da banca, professor
Medeiros, elogiou a diversidade do trabalho. Fui aprovada com louvor. À noite
festejamos juntos, eu e o Tavares. O Professor nunca esteve tão amoroso, até me
deu um pequeno anel de brilhante, como se fosse formatura. Ralhei com ele, não
devia ter gastado tanto comigo.
Por três meses vivemos uma
lua-de-mel. Éramos adultos, desimpedidos, corpos sãos, mentes livres. A
relação, contudo, era um tanto desequilibrada, eu gostava do Professor, é
verdade, com aquele jeito ingênuo de menino envelhecido, mas era um gostar
calmo, controlado, enquanto ele demonstrava ter por mim uma daquelas paixões
avassaladoras que eu julgava existir somente em romances e novelas. Confesso:
cheguei a ter medo.
Terminou nossa lua-de-mel quando o
professor Medeiros, aquele que havia sido o presidente da banca, mudou-se para
Salvador, convidado que fora para assumir uma cátedra na Universidade da Bahia.
Lembrou-se de mim, que acabara de conquistar o grau de mestre e ofereceu-me um
lugar de professora assistente. Fiquei envaidecida, como ficaria qualquer
mortal em meu lugar, o homem mal me conhecera e já me fazia uma proposta tão
honrosa. No entanto, estive a ponto de recusar, afinal a mudança iria
desestruturar toda minha vida. Vendo minha indecisão ele tornou a proposta irrecusável:
me arranjaria uma vaga de doutorado e se dispunha, mesmo, a ser meu orientador.
Não tive mais dúvida, aceitei.
À noite, com o Professor, não
conseguia esconder meu contentamento. Assim que nos encontramos fui logo contando
a novidade. Eu estava eufórica, ele, nem tanto, aliás, nem um pouco. Recebeu a
notícia com frieza e tentou me dissuadir. Sem argumentos técnicos, apelou para
nossa relação, que ele chamava de romance, para o sofrimento que a separação
nos causaria, ofereceu-me até casamento, o que considerei uma ofensa, pois não
era uma mulherzinha qualquer que pudesse ser comprada com um papel assinado.
Vendo minha expressão indignada, descontrolou-se, começou a agredir Medeiros,
“aquele safado, traidor”.
Não preciso dizer que a noite
terminou por ai. Só voltei a encontrar o Professor uma semana depois, véspera
de minha partida. Tivemos uma última noite de amor. Antes não tivéssemos tido,
foi uma noite de amor triste, de despedida. Saímos dessa noite sofrida cansados
de corpo e esgotados de alma. Repetiu-se a lição que a vida ensina e que a
gente nunca aprende.
Hoje, passado quase um ano, me sinto
já meio baiana, viciada no acarajé do Rio Vermelho, esforçando-me para
desacelerar e levar a vida no ritmo lento do povo daqui, que parece ter
encontrado a sabedoria no sincretismo do branco pintado de preto. Tenho duas
classes no curso de História e comecei, semana passada, os trabalhos
preliminares do doutorado.
Professor Medeiros cumpriu o
combinado, será meu orientador. Sorte minha, pois ele é uma das autoridades
mais respeitadas da área, além de ser pessoa muito afável. Tenho por ele muita
admiração e gratidão e percebo que ele tem por mim uma afeição especial. Creio
que nos daremos bem.
Estou feliz com as promessas de meu
futuro.
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