Pular para o conteúdo principal

NA FILA

            Não sei se o leitor já percebeu; se não, preste atenção e confirmará: quase toda pessoinha idosa gosta de conversar. Homens e mulheres, velhos ou muito velhos, encontram momentos de felicidade quando estão em filas. É a oportunidade que têm de conversar com qualquer estranho que esteja a seu lado. Em poucos minutos o estranho se transforma em amigo e confidente. Se der tempo, a conversa será longa, quase sempre um monólogo, dividido por assunto em capítulos, ao final dos quais surge sempre o arremate: O senhor não acha? A gente sempre acha, ou por achar mesmo ou por educação.
            Estava eu outro dia na fila do SUS, fila moderna, cada um com sua senha, aguardando chamada, sentado onde houver cadeira vaga, quando se senta ao meu lado um velho — que digo? —, um velhinho, alto e seco, mirrado, encurvado que só anzol de bagre. Pouco demorou para puxar conversa. Esperando o quê, consulta? Próstata só vou ver daqui dois meses, hoje é este lumbago, que não me deixa dormir e me puxa a perna quando ando. Quem sabe o doutor não me dá umas pílulas...
            Fazia tempo que não escutava esta palavra: pílulas! Não sei se foi ela que fez despertar em mim simpatia pelo homem ou se foi sua figura frágil e encarquilhada que desarmou minhas resistências. O fato é que me senti disposto a ouvi-lo, embora tenha, no mais íntimo, alguma inclinação misantrópica.
            O homem, mais que velho, era antigo; tinha sido testemunha da guerra. Esqueceu-me perguntar qual, mas não importa, pouco falou dela. Curiosamente, falou da primeira impressão que tivera em vida: um par de botas azuis. Sabia que lembranças muito antigas soem ser difusas, como fotos fora de foco, confusas como arquipélagos não mapeados, fragmentadas como pedaços de organismos esquartejados. Pois eram assim as lembranças de sua primeira memória, mais sensações do que impressões, cores, sim, contornos, quase não. Lembrava de um azul intenso, de um azul gostoso — que naquela idade tudo deve ser bom ou mau, ruim ou gostoso —, lembrava também que esse azul assumia o formato de um par de botas que pareciam sorrir para ele, talvez porque as sentisse como suas. Não acha o senhor que o sentimento de propriedade já nasce com a gente? Achei. Fiz um movimento com a cabeça.
            Mas o homem era um filósofo, não se contentava com a descoberta do fato, queria a explicação. Achou esta pérola: o sentimento de propriedade é filho do egoísmo. Ora, as botas eram dele e esse sentimento de posse produzia uma couraça de confiança, que funcionava como armadura, protegendo o corpo franzino do menino. E o orgulho só fazia crescer, pois as botas eram dotadas de uma fileira de pequenos botões que, fechados pela mão da mãe, com um instrumento parecido com uma agulha de crochê, estreitavam-se magicamente em torno dos pés, causando uma sensação aveludada. Possível que fosse ela aumentada pelo carinho das mãos da mãe.
            Neste instante da narrativa uma sombra pareceu descer pelo semblante do velhinho e seus olhos perderam momentaneamente o foco, como quem devaneia ou se alheia diante de uma miragem. Supus ser saudade das botas e das mãos da mãe.
            Ficou ele em silêncio por um minuto ou dois, tempo de voltar quase um século e reviver o vivido. Ao cabo, sacudiu a cabeça e continuou.
            Era Natal e o menino que um dia ele fora acabara de ganhar um velocípede. — Depois da pílula, o velocípede! Somente ouvindo velhos se pode escutar este tipo de palavras, que não se usam mais, tão esquecidas como eles próprios. Mentalmente traduzi para triciclo. — Pois o triciclo que o velho em menino ganhara era atarracado, forte, de canos grossos, enquanto ele, menino, era espigado, de canos finos. Saiu à rua com o presente para brincar na calçada e encontrou outro menino, que brincava também com seu velocípede novo. Só que este, diferente do dele, tinha mais altura e canos finos. Brincaram juntos, como dois cavaleiros correndo em seus cavalos, cabelos ao vento, risos soltos pelo ar. Trocaram várias vezes de montaria, só pelo prazer de montar cavalos diferentes. Ao final da brincadeira o menino estava gostando mais do cavalo do vizinho, que era mais alto que o seu; e o vizinho, que era baixo e gordinho, gostara mais do seu. Fizeram negócio e cada um entrou em casa de cavalo trocado. Foi um deus-nos-acuda. Indignação. Ficou sabendo então que seu cavalo atarracado e gordo havia custado muito mais que o pangaré magricelo que trouxera. A mãe correu à casa do vizinho e desfez a troca. Assim foi anulado seu primeiro ato de comércio. Pena que não pôde contar com a mãe em outros negócios que veio a fazer no futuro. A maior parte deles devia ter sido anulada. O homem, como uma planta, precisa ser cultivado para dar certo. O senhor não acha?
            Sem esperar resposta, continuou, dizendo que o cultivo de sua pessoinha deu-se por caminhos retos e caminhos tortuosos, como, aliás, acontece com todo mundo. Não fora ele exceção. Deixou clara sua opinião de que se aprende mais pelos caminhos tortos do que nos retos, pois guarda-se melhor na memória os desvios do que os acertos. E é a memória que faz o homem. O velho era mesmo um filósofo!
            Sua primeira escola, de freiras, tinha disciplina militar, muito estudo e nenhuma folgança. Irmã Clemência, uma tirana aos olhos da classe, reconhece ele hoje que era uma moça bonita; como podia ser tão dura com aquele rosto angelical? Mas era. Clemência tinha só no nome. Levava a classe na ponta da régua e, quando julgava preciso mais rigor, dividia a turma em duas filas paralelas, ambas de costas uma para a outra, e passava pelo corredor assim formado distribuindo chicotadas, em glúteos e coxas, com um fio elétrico coberto de plástico marrom, o “chocolate”. Depois do castigo, o “chocolate” era guardado na prateleira superior do armário, para uso futuro. Como todos odiavam aquele armário! Mas, engraçado, como a Natureza os havia feito fortes, nenhum deles, por causa disso, deixou de gostar de comer chocolate, em especial aqueles Gardano, pequenas coroas de delícia embrulhadas em papel alumínio dourado, futuras companheiras das matinês de domingo no Cine São Luís.
            Ao dizer isto, o velho parou outra vez, olhar perdido no sonho. Mas foi só um instante, logo seguiu.
            Lembrava dos hinos cantados no pátio da escola, as classes formadas em filas. É certo que, do que cantavam, pouca coisa entendiam. Lábaro que ostentas estrelado, clava forte, verde louro desta flâmula, o que fazia um papagaio verde na bandeira? Mas nada era mais estranho que o hino da bandeira: Japonês da pátria filhos... Que diabo! Como é que aparecia este japonês no hino brasileiro? Mistério que só viu solucionado quando já tinha barba na cara.
            Além da irmã Clemência, outra freira que metia medo na molecada era uma figura rústica, que cuidava do quintal da escola, quintal enorme, quase sítio, que tinha de tudo, jardim, pomar e horta. A freira — esqueceu-lhe o nome, talvez por algum mecanismo de defesa freudiano — era grandalhona e vestia hábito acinzentado, diferente de todas as outras, que trajavam marinho e branco, Enquanto a roupa destas era impecável, passada e engomada, a da outra era amarrotada e suja; sujas também eram as manzorras, de mexer na terra e nas plantas, de ceifar capim e ervas daninhas com foice de mão. Pois é desta foice de mão que o velho traz lembrança atroz. O caso sucedeu por culpa do pecado da gula. No pomar da escola, bem perto do muro que dava para a rua dos fundos, alguns pés de laranja, no tempo devido, encontravam-se pejadas de frutos maduros. Ah, aquelas laranjas alaranjadas! Podiam ser vistas da rua e as viram os moleques do bairro, ele também incluso. E eles as desejaram e, ladrõezinhos incipientes, decidiram roubá-las. Em cima do muro havia uma cerca de arame; pularam muro e cerca e estavam colhendo as frutas quando foram surpreendidos pela irmã-fera. Correram de volta e pularam novamente muro e cerca; mal tinham feito isso e ouviram um tinido de aço no arame da cerca. A freira havia lançado a foice, que ricocheteara, caindo de volta no pomar. Desse dia em diante as frutas da escola, para os moleques do bairro, sempre pareceram verdes.
            Um calafrio perpassou o rosto do velho fazendo-lhe tremer a pele enrugada. Um sorriso de alívio se lhe escapou da boca murcha.
            A formação religiosa da meninada deu-se com o estudo do catecismo, preparatório para a primeira comunhão. Havia também a “História Sagrada”, matéria curricular, onde se aprendiam as histórias da Bíblia. Achavam estranhas aquelas histórias antigas, de desertos que nunca tinham visto, de gente de nomes bizarros, de um povo judeu escolhido por Deus. Eles, que não eram judeus, então estavam perdidos, sem salvação? O livro era ilustrado com figuras coloridas, homens de túnicas grandes e barbas imensas. Impressionou o velho, mais que todas, a cena em que Abraão segura o menino Isaac pelo pescoço, sobre a pedra da imolação, no alto da colina; o pai, figura possante, com o braço levantado e o punhal na mão, prestes a descer no golpe fatal; o menino, inerme, frágil, inocente, sem reação e sem entendimento. Que Deus era este, capaz de produzir tamanho sofrimento? Bem certa a primeira lição do catecismo, temer a Deus sobre todas as coisas. E foi bem este o deus impregnado naquelas almas infantis, o deus da ira, do castigo, castigo que podia ser eterno, de nunca acabar, pois era este mesmo deus que poderia os mandar a todos, pecadores, para o inferno de todo o sempre. Não admira que muitos daqueles meninos, ao crescer, se tornassem ateus.
            Após breve interrupção começou a discorrer sobre as missas de domingo, mas sua senha piscou no écran luminoso, chamando-o a consulta.
            Desculpou-se, despediu-se e ameaçou: Na próxima vez conto mais...


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...