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DESPERTAR

            Era no tempo da guerra. O menino já tinha sido desasnado, sabia ler, mas só lia gibis, para desconsolo do irmão mais velho. Dele ganhara um livro, Reinações de Narizinho, mas tinha muita letra e pouca figura. Gostava mesmo era do Gibi, que saía às 2ªs., 4ªs. e 6ªs. e do Globo Juvenil, às 3ªs., 5ªs. e domingos. Não demorou veio o Gibi mensal, com histórias completas a cada edição. Vivia ele dentro do mundo dos quadrinhos, participando das aventuras do Capitão Marvel, do Super-Homem, dos Príncipes Submarino e Ibis, este último com seu triângulo mágico que, acionado, satisfazia-lhe qualquer desejo. Sonhava o menino em ter ele também um triângulo só para si. Como era tempo de guerra os heróis viviam tendo aventuras contra os nazistas do Eixo. Só o Capitão América, quantos nazistas não nocauteou? Era um gosto vê-lo rodeado de alemães armados e ele distribuindo socos e sopapos, a torto e a direito, e os bandidos gritando HIMMEL e ACHTUNG! Assim mesmo, com letras graúdas e ponto de exclamação. O menino começava a aprender alemão sem que se desse conta. Meninos e homens sempre aprendem coisas sem que percebam e, geralmente, são as coisas mais importantes da vida.
            Como era tempo de guerra faltava pão e, quando alguma coisa falta, aí é que ela se torna indispensável. É próprio da espécie esse comportamento. Havia uma padaria que vendia pão só uma vez por dia, logo de manhãzinha; ficava na Rua do Ouro, esquina da Tuiuti, e só vendia um pão por pessoa. A incansável tia Mariella acordava o menino, dia ainda escuro, e lá iam os dois subindo a Tuiuti, vento frio na cara sonolenta. Entravam na fila que dobrava a esquina, fila quase só de mulheres, muitas velhas, poucas moças, um ou outro menino; não importa, valia um pão por cabeça. O menino se sentia então importante, valia um pão!
            Na fila as velhas conversavam, tricotavam, trocavam receitas e, baixinho, contavam segredos cabeludos. O menino ouvia tudo e, desinteressado, entendia só a metade. Não deixava a fila, contudo, de ser uma experiência pedagógica; sem querer, por osmose, ia ele incorporando os saberes da vida, bem verdade que misturados de alguns males. E não é sempre assim? Quem é que consegue aprender só bondades?
            De todas as coisas que aprendia uma lhe ficaria guardada na memória por toda a vida, isto porque, mais que um conceito, era uma impressão sensorial. Sentia sempre, no meio de tantas velhas, um cheiro especial, sempre o mesmo quaisquer que fossem as velhas. Perceberia com o tempo o mesmo cheiro onde houvesse velhas, em feiras, em velórios. Era sempre o mesmo cheiro, cheiro de velha. Demorou algum tempo para que achasse outra coisa que cheirava igual, e ficou espantado com a descoberta: era cheiro de galinha! A revelação se deu quando a tia o levou consigo até a avícola, tinha que fazer uma canja para o Tonico, que estava adoentado. Naqueles dias a ave era um produto caro e, por isso, era corrente a piada: pobre só come galinha quando um dos dois está doente. Bastou chegar à porta da avícola para que o menino sentisse o cheiro conhecido, cheiro de velha; mas lá dentro não tinha nenhuma velha, só galinhas. Foi então que seu cérebro aristotélico elaborou o primeiro silogismo de sua vida, imperfeito é verdade, pois admitia duas conclusões: as galinhas têm cheiro de velha, e as velhas têm cheiro de galinha. Para além da conclusão ficava, porém, o aprendizado ontológico: a verdade pode ter mais de um lado, lição especial, primeira talvez de um futuro protagonista político.
            Mas o menino era ainda uma criança, não pensava nessas coisas, mas não era mais uma criança, começava a pensar em outras. Seu corpo se modificava, sentia que coisas estranhas aconteciam dentro dele, alguma coisa despertava em sua cabeça. Os olhos, ao ler as histórias domingueiras do Príncipe Valente, demoravam-se a apreciar os contornos do corpo de Aleta, magnificamente desenhado por Hal Foster, a curvatura suave dos seios, o torneado de pernas e coxas. Até as figuras mal acabadas de Narda, do Mandrake ou de Diana, do Fantasma eram suficientes para prender por instantes a atenção daqueles olhos, que dirá então as linhas sensuais do decote da ingênua Violeta, a noiva de Ferdinando? Quem já passou por isso, sabe do que se trata.
            Pois foi nessa quadra da vida que o menino e família foram à festa de casamento da prima Naná com Jesus. O noivo, de nome bíblico, era um mulato claro de boa estampa, um rapagão flexível e simpático, mas a noiva — ah, a noiva! — era uma morena carnuda, de seios fartos, cabelos negros a cair sobre os ombros desnudos. Perto de chegar aos vinte anos, tinha ainda o rosto de menina, a pele, de cetim de pêssego maduro e os olhos, pretos de jabuticaba, profundos de perder a alma. O sorriso —  ah, o sorriso! — não era de menina, era de mulher, carregado de promessas... Exalava aquele perfume que as flores usam para inebriar o zangão e as mulheres, para dizer ao bem-amado: Toma-me, aqui me tens, estou pronta!
            O menino, que via a prima só de vez em quando, quedou-se aturdido, parecia que a via pela primeira vez. Que mulher! Digna da pena de um Hal Foster! Olhava aquela pele morena, realçada pelo contraste do vestido branco, a cintura delgada fazendo ponte entre a curva das ancas e a saliência dos seios e, mais que tudo, na boca alva, aquele sorriso malicioso de promessas...
            Alvorotado, sente uma quentura que sobe e desce, o nariz, aguçado de feromônios, percebe no ar o cheiro que emana daquele corpo maduro... Ah, inveja do Jesus! Vai colher logo mais, o danado, todas as promessas daquela fêmea... Num átimo, ele se dá conta de que já não vê mais a prima como prima e, simultaneamente, percebe-se a si próprio não mais como um menino, mas como macho em desabrocho. Não tem consciência clara do que ocorre, somente sente uma vontade doida e doída de chegar seu corpo àquele corpo, de juntar o seu calor ao calor dele, de derrubar a lei da ciência e ocuparem os dois o mesmo lugar do espaço. É neste momento que a prima, na tarefa de cumprimentar os convidados, chega-se a ele e o aperta em um abraço, e beija-lhe a face sussurrando-lhe ao pé do ouvido: Querido, que bom que você veio! É um instante apenas, mas aqueles seios duros, pressionados contra seu peito, mais o beijo molhado bem pertinho de seus lábios, e o cheiro inebriante, e a palavra sussurrada, tudo isso lhe bambeia as pernas e se lhe imprime no cérebro epicurista marcas de fogo, como se o órgão sofresse a ação de um ferrete em brasa.
            Contudo, ele sobrevive e, noite alta em sua cama, revive aqueles momentos e, qual romanceiro de cordel, dá-lhes sequência inventando enredos onde se misturam fantasias de posse com angústias de abandono.
            Assim termina o dia em que do menino nasce o homem.
            No quintal, uma crisálida aguarda o amanhecer para romper o casulo ao nascer do sol.


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