Binho
já é quase homem, tem quase catorze anos e já é quase barbeiro no salão de seu
pai. Ainda é meio oficial, aprende os últimos segredos da arte da tesoura e da
navalha. Já não corta tantos queixos, nem faz muito caminhos de rato nos cabelos
dos fregueses. Mais um pouco e será, com certeza, um bom oficial, como seu pai,
não tão falante como ele pois é algo tímido. Introspectivo, já o era no tempo
de engraxate, no mesmo salão do pai, tempo que passou depressa pois o moleque
espichou rápido e é hoje um bitelo espigado, altura de homem feito. Só lhe
falta carnadura, que virá com o tempo.
Binho
estuda de manhã e vai para o salão depois do almoço. Lá pelas quatro da tarde
uma fominha começa a apitar na barriga e ele fica na espera do som da matraca
do vendedor de amendoim. Pontual como um britânico, às quatro e meia lá vem o
homem agitando seu instrumento. Para na frente do salão. Conhece a freguesia.
Binho vem com o dinheiro contado na mão e a menina da loja de sapatos atravessa
a rua. O rapaz, por instinto ou educação, cede a vez, a garota agradece e torna
a atravessar a rua levando seu pacotinho. Deixa atrás de si um perfume que se
mistura com o cheiro gostoso do amendoim torrado.
Lá
está agora Binho, sentado ao fundo do salão, comendo com gosto e com culpa seus
amendoins. O pai lhe tem advertido, menino não coma tanto amendoim que dá
espinhas. Razão deve ter o pai, basta Binho se olhar no espelho, mas não
aprendeu ele ainda a dialética da verdade: outros rapazes, iguais a ele, têm
suas caras espinhadas, e não comem amendoim. Sofre, pois, com a ignorância,
come com culpa, com culpa mas com gosto. É seu vício. Acostumou com o amendoim
desde que começou como engraxate, há dois anos. Agora tem mais um motivo extra
para reforçar o vício, o cheiro amado do amendoim faz lembrar o perfume de
Malu, a filha do dono da loja de sapatos, a menina magrela que anda botando
dois peitinhos por baixo da camiseta branca, e um sorriso de promessas no rosto
toda vez que vem comprar amendoim. Ela vem sempre, todo dia, e Binho nem se dá
conta de que, à fominha das quatro horas, agora veio se juntar a fome de sentir
seu cheiro. Sem que percebesse alojou-se-lhe na alma uma outra dependência.
Cada vez que quebra um amendoim entre os dedos, o som de clique parece provocar
em seu coração um baque surdo e, se o som varia de clique para plique — pois os
amendoins são volúveis, como sabem todos os biólogos — o baque do coração
continua com o mesmo tom surdo: Ma-lu! Ma-lu! Sístole-diástole. E assim, de
plique em clique, de batidas surdas e cheiros vai sendo construída na
sensibilidade do rapaz a quintilhonésima cópia da sinfonia composta pelo
primata pai de todos, ainda no tempo em que dinossauros se transformavam em
aves.
De noite, na cama, Binho-quase-homem sonha acordado, de
olhos abertos. O quarto é escuro e a sombra da noite, entrando pelas frestas da
veneziana, não consegue clarear nem o pé da cama. Os olhos, porém, têm sua luz
própria, a fantasia, que se projeta no teto negro e Binho, agora um cineasta
inspirado, vai tecendo as cenas românticas de Malu correndo em gramados verdes
ou dentro de trigais dourados, sempre perseguida pelo tresloucado namorado. As
cenas são de corridas longas, com trilha de gritos e risos, em que nenhum dos
protagonistas se cansa ou perde o fôlego. Nas fantasias somos todos atletas
olímpicos. Quando Malu é finalmente alcançada, os dois rolam pelo chão. Os
sonhos são sempre limpos de modo que o ato não macula nem amarfanha o vestido
branco e diáfano da donzela. E aí se dá o clímax do enredo: um beijo casto é
depositado com devoção quase religiosa nos lábios ofegantes da virgem ninfeta.
São os primeiros sonhos, e é natural que sejam castos; o
primeiro amor pode começar platônico e só tempos depois penetrar no reino de
Dionísio. Enganam-se aqueles que sempre juntam sexo ao despertar do amor. Não
que Binho seja assexuado. Não o é. Presta diariamente seu tributo ao déspota
Onan, mas não deixa que a figurinha virginal de Malu ali interfira. Outras
figuras são chamadas a fazê-lo e cumprem bem o papel, pois a imaginação do moço
tem o viço da idade.
Dia seguinte, vencidas as horas de escola e a espera do
almoço da mãe, nem uma nem outra, seja dita a verdade, com nenhum atraso, corre
Binho para o salão. Esteve aflito com a demora que não houve. Não houve para o
Mundo, mas para ele houve, e muito. São as contradições da gnosiologia do amor
nascente. Mal chegando ao salão os olhos atravessam a rua, atrapalhados pelos
veículos indiferentes que resolvem passar logo agora. Desviam-se deles e
procuram nos intervalos de espaço a porta da loja de sapatos. Acham a porta mas
não acham Malu, está vazia. Espreitam o interior da loja, mas o contraste com o
sol derramado da rua permite ver apenas sombras. Binho não enxerga nada. Num
impulso atravessa a rua correndo e quase atropela um carro inocente. Dentro da
loja encontra a irmã de Malu e fica sabendo que ela só virá lá pelas cinco
horas, foi acompanhar a mãe a consulta médica.
Cinco horas! Que fazer neste tempo todo? Tomara que
cheguem fregueses com barba para escanhoar ou mães trazendo filhos para corte
americano. Enquanto isto vão bem estas palavras-cruzadas do jornal. Sentimento
de afeto... quatro letras...
De uma forma ou de outra o tempo se esvai lento, como a
areia numa ampulheta entupida. De minuto a minuto Binho olha o relógio, e os
ponteiros imóveis parecem devolver-lhe um riso sarcástico. Lógico que não há
nem sorriso nem zombaria nos ponteiros, é só um modo de dizer como os
sentimentos humanos têm o condão de deformar a realidade. Alguém já falou, lá
bem longe, que o homem é a medida de todas as coisas. Também disseram que não
há mal que sempre dure e, como ambos os ditos são verdadeiros, o tempo acaba
por passar, os ponteiros se movem sem que os olhos aflitos do moço percebam e,
de repente, o som da matraca. O vendedor de amendoim! Binho havia até se
esquecido, pela primeira vez o homem o pega desprevenido. Lá está ele à porta
aguardando. Compra dois pacotes, um para Malu. Na certa ela vai gostar da
surpresa.
O amendoim torrado, cheiroso e gostoso, ajuda a passar o
tempo; o prazer antecipado de presentear a menina trabalha em sentido
contrário. As duas forças, que se opõem, acabam por imitar as rodas de uma
engrenagem e empurram o tempo para frente. Este resiste o que pode mas, como é
de sua natureza, passa.
Lá está Malu agora na frente da loja e cá está Binho
atravessando aos saltos a rua, que por sorte não tem trânsito. Entrega o pacote
de amendoim e fala qualquer coisa, mas um caminhão, neste momento, passa com o
motor aberto e faz um barulho ensurdecedor que nos impede de ouvir a conversa;
solta também uma fumaceira que quase engole a cena. Porém deve ter acontecido coisa boa, dado que
o rapaz volta radiante ao salão, sorriso abotoado de orelha a orelha, olhos
flamejantes de febre. Maldito caminhão!
Não se perdeu, contudo, o principal. No domingo
encontram-se os dois à porta do cinema, compram pipoca e vão ver o filme. Algo
do gênero se adivinhava desde o caminhão desregulado, portanto não há surpresa,
não se perdera o principal. Não há novidade também no que acontece dentro do
cinema. No escurinho da sala Binho toma a mão de Malu e ambos estremecem; com
palmas e dedos acariciam-se mutuamente. As cabeças se apoiam, os rostos se
roçam e um beijo virginal acontece.
É hora de deixar o casal e nos retirar discretamente,
respeitando sua intimidade. Cada qual que escolha seu próprio prognóstico:
Platão ou Dionísio?
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