Naquele
tempo a Lapa ainda não tinha virado moda e a frequência de suas ruas e becos,
assim que a noite fechava o céu, era de boêmios, malandros e prostitutas. A
iluminação pública era fraca e, em vez de luz, lançava sombras. Contudo, sabia
o povo que ali vivia, não tinha lugar mais seguro em toda a cidade. Vez ou
outra um abusado levava uma navalhada na cara, mas era só para aprender.
Num
beco, quase embaixo dos Arcos, havia um bar de nome sugestivo: Mestre Cartola.
De dia fornecia pasto aos famintos do Largo da Carioca, de noite, música
brasileira para quem dela tivesse fome. Modesto, sem luxo, mesas quadradas e
cadeiras de vime, combinava com a freguesia despojada, de meia idade. Os mais
jovens preferiam rock ou bossas novas e, se incautos sentassem a suas mesas,
logo debandavam à procura de agitação maior.
Ocupava
ele um armazém antigo de pé-direito alto, tendo ao fundo um palco que podia
abrigar uma pequena orquestra. Acima, presos ao teto, penduravam-se dispositivos
de luz branca e negra. Bem defronte do palco um quadrilátero de dez metros, com
piso de tábuas, funcionava como pista de dança. Ao redor dele e no resto do
salão, sobre piso de cerâmica queimada, perfilavam-se as já citadas mesas com
cadeiras de vime. Do teto pendiam lampadários que, pouco ou muito acesos,
forneciam iluminação desejada segundo a circunstância.
Artistas
de pouca fama, notívagos das pensões vizinhas e até gente que vinha da longínqua
Copacabana quase enchiam a casa nas noites de fim de semana. A féria nunca dava
para grandes contratações, porém os artistas inspirados de Mestre Cartola não
deixavam a peteca cair. Destacava-se aos sábados um mulato magro e alto,
espadaúdo, de peito cheio, voz grave de barítono e quase de tenor em notas
altas. Devia beirar os cinquenta anos, se já não os ultrapassara, e seu
repertório era antigo como ele, quase só de clássicos. Apresentava-se com seu
violão, sem acompanhamentos, e quando a luz negra, banhando preguiçosamente o
palco, lambia a carapinha do mulato, arrancava faíscas dos fiapos brancos que
encontrava. Revelava assim, traiçoeiramente, o trabalho dos anos que a figura
apolínea do artista teimava em negar. Apesar de pouco renome e do minguado
ganho o homem era mesmo um artista, sentia na alma aquilo que cantava e a voz
possante, digna de transmitir procelas, amainava-se em sussurros de dor de
cotovelo, quando a mão dedilhava passagens românticas de sambas antigos. O
repertório era um tesouro de heróis nacionais, de Noel a Caymmi, de Cartola e
Ataulfo, do ufanismo de Ary às depressões de Lupicínio. Cantava amores e
desilusões, sucessos e tropeços do que acostumamos chamar de vida.
Agora,
nesta noite, está ele ali no palco com seu violão, dentro do círculo de luz
branca e sua voz ecoa pela penumbra do salão, lambe os ouvidos da freguesia e
em cada um deposita uma lembrança, um anseio.
“...
Mas a lua, furando nosso zinco
Salpicava
de estrelas nosso chão
Tu
pisavas nos astros, distraída
Sem
saber que a ventura desta vida...”
Quando
a canção termina decai a iluminação e a luz negra se espalha titubeante pelo
palco, bêbada da poesia de Orestes Barbosa. É o instante em que o artista
recebe o aplauso do público e dedilha novos acordes para introduzir outra
canção. A plateia silencia e a poesia volta a impregnar o recinto e os ouvidos
sedentos.
“,,,
Eu, igual a toda meninada
Quanta
travessura eu fazia
Jogo
de botões pela calçada
Eu
era feliz e não sabia...”
O
artista, embora absorto na interpretação, não deixa de perceber uma jovem
sentada ao pé do palco, muito jovem para ser sua fã. Toda vestida de vermelho é
acompanhada de um senhor idoso, este sim com jeito de freguês habitual. No
entanto, é ela que manifesta maior aprovação com aplauso caloroso, enquanto ele
o faz mecanicamente.
“...
Nunca mais quero o seu beijo
Mas
meu último desejo
Você
não pode negar...
Que
estranho! Tão moça, mas parece que ela conhece todas as canções. Não tem idade
para isso...
“...
E assim adormece esse homem
Que
nunca precisa dormir pra sonhar
Porque
não há sonho mais lindo
Do
que sua terra, não há...”
As
músicas se sucedem e a moça continua empolgada; o acompanhante, burocrático.
Por fim, chega o momento culminante do espetáculo, que o artista reserva como gran finale, não só porque é sua música preferida,
como também por homenagem ao nome da casa, de Mestre Cartola, As Rosas não
Falam. A voz possante se adoça, a garganta modula melífluos queixumes e a
plateia em enlevo se embriaga na canção.
“...
Queixo-me às rosas
Mas
que bobagem
As
rosas não falam
Simplesmente
as rosas exalam
O
perfume que roubam de ti, ai
Devias
vir...”
A canção vai
terminando, a voz decaindo para surdina enquanto a luz perde intensidade. Os
aplausos irrompem forte e a luz toda se acende. O artista levanta o violão com
braço estendido acima da cabeça, como atleta que ergue um troféu, e brada:
—
Viva Mestre Cartola!
Ei-lo
agora no camarim guardando o violão na caixa de couro, retirado o paletó de
brilho que se contenta em abraçar o espaldar da cadeira. Na porta entreaberta
um toque lhe chama a atenção. É a moça de vermelho.
E
essa agora! Eu com meus cinquenta, ela com seus vinte, não vai dar pé. Mas que
bela figura! Por ela seria capaz de loucuras, de jurar como na canção antiga:
aos pés da santa cruz, você se ajoelhou, em nome de Jesus um grande amor você
jurou...
—
Calma, calma! – exclama a moça. Não ponha Jesus em nossa história. Eu e ele não
nos damos bem.
—
Mas eu não disse nada, senhorita!
—
Mas pensou, é suficiente.
—
Quer dizer que além de bonita a senhorita também lê pensamentos? — perguntou
confuso o artista, quase colocando “gostosa” no lugar do adjetivo.
—
Gostosa seria indelicado e grosseiro...
Novo
espanto. O artista fica boquiaberto.
—
Mas... mas... que diabo é a senhorita?
—
Dos bons, cavalheiro, dos bons. Ou melhor, dos piores, graduação máxima, o
mesmo que tratou de negócios com um senhor de nome Fausto; só que na ocasião me
apresentava como um rotundo varão. Agora as circunstâncias me indicaram esta
figurinha dengosa, ou mais precisamente, gostosa, como prefere o senhor.
O
cantor fica paralisado, sem ação, o cérebro congelado, momentaneamente vazio, e
a boca teima em permanecer aberta, queixo caído, todo ele estátua petrificada.
A
jovem de vermelho — Mefistófeles revelado — aguarda paciente o tempo em que o
sangue voltará a irrigar a pele mortiça do homem. Tem ela, ou ele, a
experiência enfadonhamente repetida de que deve aguardar alguns minutos mais. É
sempre assim, o estupor da revelação demora a passar, mas a paciência dela é
enorme, cultivada por montanhas de anos. Basta aguardar.
Depois
de longos minutos o homem dá sinais de reviver; um tremor lhe sacode as
mandíbulas e ele fecha a boca; nos olhos volta a brilhar um fiapo de
consciência e uma corrente elétrica lhe percorre a medula da nuca aos pés. Ao
cabo balbucia:
—
O que quer de mim?
—
Sua alma. Quero comprá-la.
O
artista ri. Parece ter retomado o controle de si.
—
E para que se dar o trabalho? — argumenta. Com a vida que tenho levado é certo
que vou parar no inferno. — E conclui com ironia: — Vai gastar seu dinheiro
à-toa.
Mefisto
não se dá por achado:
—
Meu amigo, o futuro só a Deus pertence, com o perdão da má palavra. Com o
instituto do arrependimento, em má hora criado por decisão monocrática dele,
não se pode mais ter certeza de nada. Vá que o cavalheiro, antes do suspiro
final, dê uma de se arrepender. Como é que ficamos, então? Alma perdida. Para
se ter certeza, só com contrato assinado.
—
Ainda assim, senhora diaba, perdeu a viagem. Não ligo para dinheiro.
—
Dinheiro não é a única moeda de compra.
—
O que me oferece, então?
—
Música.
—
Como assim?
—
Ofereço-lhe uma canção, mais que isso, a melhor canção que já foi composta, As
Rosas não Falam.
—
Há, há, há... A canção do Cartola? Pena, mas já tem dono.
—
Você não entendeu, o que ofereço é a existência da canção. Sem o acordo, faço
ela desaparecer do mundo, como se nunca tivesse existido.
—
Isso é impossível, milhões de pessoas têm ela na memória. É um clássico.
—
Menino, menino! Deixe de travessuras. — Um sorriso lindo de dentes perfeitos
acompanha a censura. — Você não sabe do que sou capaz...
A
diaba estala os dedos e um calafrio percorre o corpo do artista causando-lhe
ligeira tontura.
—
Qual é mesmo a música que o senhor mais gosta? — pergunta com voz macia.
—
Tem tantas... Do Noel, Feitiço da Vila; do Cartola, O Mundo é um Moinho; do
Caymmi, Suíte dos Pescadores; e tantas outras.
—
Do Cartola, você não conhece nenhuma que fala de rosas?
—
Rosas, rosas... Não, acho que não.
A
diaba estala os dedos de novo e, depois do calafrio, o homem fica outra vez
boquiaberto.
—
Mas, como? Como não me lembrei de As Rosas não Falam? — O estupor empalidece de
novo sua face. Está indignado consigo próprio.
—
Porque, meu jovem, a canção deixou de existir no mundo por alguns instantes.
Quisesse eu e teria deixado de existir para sempre, apagado seu nome de todos
os registros.
—
Mas então é verdade? Não pode ser. Seria um crime de lesa humanidade!
—
Pois é isto, amigo, sua alma pela canção. É este o preço. Um bom negócio. E
note que o inferno não é tão mau como dizem. É até divertido.
O
homem pensa agora em como o mundo ficaria pobre sem a canção de Cartola, quase
indigente. Que é sua alma comparada com a canção? Um nada, uma titica de
galinha. O que perderá o céu sem sua alma? Nada. Ainda mais que ela não iria
mesmo para o céu, com a vida desregrada que ele leva e da qual sabe que nunca
se arrependerá de verdade. Então o preço é bom. No fim está ele enganando a
diaba, vendendo o que seria dela de qualquer jeito. Levanta a cabeça com
altivez e, com voz firme de barítono, pergunta:
— Onde é que assino?
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