A Gabriela vocês conhecem. Magra, um tanto espigada, de pernas longas. Gosta de se pintar com cores vivas e veste-se, de preferência, com saias curtas, bem acima dos joelhos. Quando não, usa-as muito compridas, arrastando ao chão. O gênio é bom, dá-se a todos com facilidade. Um pouco desconfiada, às vezes. Enfim, nada de extraordinário, que não combine com os seus seis aninhos.
Quando o pai chega do trabalho, à noite, ela se esconde atrás do sofá. Ele finge procurá-la e sempre grita de susto quando ela salta-lhe à frente, fazendo muito barulho. A cena termina com ela agarrada em seu pescoço e repete-se todas as noites, sem variação. A alegria, na infância, é simples, pouco exigente. Como tudo, aliás. A gente é que complica as coisas, quando cresce.
Uma noite, depois do ritual de costume, Gabriela mostrou orgulhosa o dentinho bambo.
— Mamãe disse que vai cair e que vou ganhar um outro, novinho!
— Deixa ver! – falou o pai, e com cuidado experimentou o dente na ponta do dedo. – É, ele está molinho mesmo. Não demora a cair.
— Verdade que nasce outro, novinho?
— É sim, filha, novinho e bonito.
— Oba!
Desse dia em diante, Gabriela, sempre que lembrava do dente, queria saber se já estava na hora dele cair, para nascer o novo. Depois de um exame, diziam-lhe:
— Está mais bambo. Qualquer hora ele cai.
Mas nada do dente cair. A demora afligia cada vez mais a menina, que, como toda criança, não aprendera ainda o exercício da paciência. Com o correr dos dias, o dente ia se soltando, mais e mais. Mas não caía. Começou a doer, nas ocasiões em que Gabriela mastigava. A menina passou a evitar pão, carne e outras comidas sólidas. A sopa, que antes abominava, veio a ser seu prato predileto. E o dente não caía. Mais bambo que nunca, só faltava balançar com o vento, mas cair, não caía.
Gabriela deu de ficar manhosa, irritada. Os vizinhos, os parentes, todos perguntavam pelo dente. E a resposta, desanimada:
— Ainda não caiu.
A situação era incômoda e tendia para insustentável. Os pais que semanas antes haviam tentado, de surpresa, extrair o dente puxando-o com os dedos, eram agora repelidos em qualquer ameaça de aproximação. A própria cena noturna do esconderijo atrás do sofá deixara de existir. Gabriela mostrava-se arredia, tinha medo. Urgia acabar com aquilo.
A contragosto, combinaram os pais uma solução de força. Quando parecia estar distraída, cercaram a menina. Esta, percebendo a manobra traiçoeira, soltou tamanho grito que paralisou a ambos. E de um salto tentou escapar ao cerco. Teria conseguido, não fosse a passagem acidental do irmão mais velho, exatamente naquele instante. Houve o choque dos dois, que se embolaram no mesmo tombo.
Correram os pais a acudir a menina, que, pensando ser a continuação do ataque, pôs-se a chorar e tremer.
— Calma, filha! Sossega! Não vamos fazer nada.
Um fiapo de sangue escorria sobre o lábio inferior de Gabriela. A boca, aberta do choro, mostrava a ausência do dente.
— O dente! O dente caiu!
A menina leva a mão à boca e constata. É verdade. Não está lá o dente! Uma alegria intensa invade-lhe a alma, dilata-lhe o peito e sobe pela garganta, explodindo em riso, ainda mesclado com um resto de choro. Por um momento, o resultado é indefinido. Mas logo o riso se firma, expulsando de vez o choro.
No chão, o dente parece sorrir-lhe, também.
Pega-o nas mãos. Tão pequenininho! Todos querem vê-lo; Gabriela mostra, orgulhosa.
Depois de lavar a boca e estancar o pouco sangue, a menina corre ao quintal, acompanhada da mãe. Vai fazer aquilo que ela lhe ensinara. Joga o dente no telhado e recita, em voz alta:
— "Passarinho! Passarinho!
Vem buscar este dentinho,
E me traga outro bem novinho!"
E acrescenta, por conta própria:
— E bem bonitinho!
No dia seguinte, logo que acordou, levou o dedo à boca.
O buraco ainda estava lá. Não acreditou e correu ao espelho; o buraco continuava lá. Escuro, feio, entre os dentes branquinhos. Começou a chorar.
— Que foi, filha?
— Não nasceu! O dente não nasceu!
— Mas claro que não nasceu! É preciso esperar mais tempo.
— Quanto tempo, mãe?
— Sei lá! Alguns dias.
— E eu vou ficar com este buraco feio na boca?
— Não é feio, não, filha. Dá uma risadinha que quero ver. – A mãe fez um exame demorado e concluiu: – Olha, até que é muito bonitinho.
— Não é! Não é! – protestou Gabriela e continuou a chorar.
À noite, ela pulou ao pescoço do pai, mas não sorriu.
— Mas que menina séria! – gracejou ele.
— Ela não quer rir por causa do buraquinho do dente – explicou a mãe.
— E por que, filha?
— Porque ele é muito feio, pai.
— Não é, não! Deixa eu ver.
Gabriela arreganhou os dentes, numa careta.
— Pois olha, que você está até engraçada, assim banguelinha.
— Banguelinha?
— É, quando a gente não tem dente, a gente é banguelinha.
— Está bonito, mesmo, pai?
— Está! Está uma beleza!
— Não é mentira, não? – tornou ela, desconfiada.
— Não, filha. Pergunta para a mamãe.
Gabriela pareceu adquirir mais ânimo. Foi ao espelho examinar; ensaiou risos e poses. Só se convenceu quando chegou o tio.
— Mas que bonita que está esta menina! Como ela fica bem de banguelinha!
A menina sorriu, confiante, e se empoleirou no colo do tio.
A lindeza da banguelinha de Gabriela foi confirmada pelos vizinhos e amigos. A menina se envaideceu e o espelho, sempre que convocado, devolvia-lhe os sorrisos e trejeitos. Cada vez que ela encontrava alguém, oferecia:
— Quer ver minha banguelinha?
E todos a achavam muito bonita.
Às vezes não perguntava diretamente, mas através de artimanhas. Rodava em torno da pessoa, passeando o sorriso comprido. Se isto não resultasse, não por culpa sua, mas por defeito de observação da vitima, partia então para a feitura de caretas. Só descansava depois que conseguia o seu intento. Não raro, a mãe lhe prestava ajuda, cochichando alguma coisa no ouvido da pessoa distraída. E então, de repente, a banguelinha era notada e devidamente apreciada em toda sua formosura.
A banguelinha de Gabriela ficou famosa. Vinha gente de longe, só para vê-la. A menina mostrava-a, orgulhosa, e recolhia os elogios. À noite sonhava. Era Cinderela e deixava como pista, na fuga, não o sapatinho de cristal, mas a lembrança da encantadora banguelinha. O príncipe, apaixonado, percorria o reino, de casa em casa, e todas as moças eram obrigadas a sorrir, mostrando as bocas sem graça, com fileiras completas de dentes. Até que chegou a sua vez e o príncipe, instantaneamente, reconheceu o seu lindo sorriso e a levou para o palácio, onde casaram e viveram felizes para sempre.
Mas, ai, que a vida se compraz em desmanchar os sonhos! Numa bela manhã – ou, talvez, não fosse assim tão bela –, a menina foi ao espelho e... Que era aquilo? Um pequeno arco branco no meio de sua banguelinha! Esfregou forte, com o dedo. Era duro. Não saiu.
— Mãe! Mãe! gritou aflita.
— O que filha? – acudiu a mãe.
— Olha! Essa coisa, na minha banguelinha.
— Ah! É o dentinho novo, que está nascendo.
— Mas eu não quero, não quero !
E Gabriela chorou, mais uma vez.
O processo de aceitação do dente foi o mesmo utilizado para a banguelinha. O pequeno disco branco chegou a ser comparado com o crescente lunar. Tanto se fez que Gabriela terminou por se convencer da beleza de sua luinha. E a paz voltou a reinar.
Gabriela ainda não trocou os outros dentes, mas creio que não haverá mais drama. O caso lembra-me o que ouvi, certa feita, a uma senhora. Dizia ela, a respeito de filhos, que só o primeiro é que dói; os outros vêm naturalmente. Julgo que o mesmo suceda aos dentes. Eles são como filhos.
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