(Conto quase infantil)
A Gabriela tem seis anos, é magrinha, cabelos curtos, cortados em franja na testa. Come pouco, mas tem a energia de um serelepe. Rosto vivo, sorriso aberto, olhar matreiro. De vestidinho curto, faz-me lembrar da Emília, do Lobato, nas antigas ilustrações do Belmonte de minha infância.
Quando chego em casa, à noite, pula-me ao pescoço. Se trago pacote, quer logo desembrulhá-lo.
— Pai trazeu presente para mim?
— Trazeu, não, filha; trouxe.
— Oba!
— Mas não é para você; é para mamãe.
— Manhê, o pai traz... "troche" presente para você! – e corre para a cozinha, carregando um sorriso e o pacote. – Deixa abrir? Deixa?
Vou para o banheiro, mantendo a porta só encostada. Dali a pouco ela se abre e a Gabriela vem, como quem não quer nada. Vejo o vulto se movimentar de um lado para outro, atrás do acrílico translúcido. Dentro do box, a água jorra em minha cabeça ensaboada. Ela desliza devagar o anteparo e mostra a carinha.
— Fecha a porta, filha, que está molhando o chão.
Ela fecha, mas não de todo; conserva fresta para um olho.
— Pai, hoje veio uma tia nova.
— É, filhinha? E como é o nome dela?
— Tia Marília.
— E ela é bonita?
— É.
— E a outra tia, como é mesmo o nome dela?
— Tia Dirce.
— Que aconteceu com ela? Por que não veio?
— Ela foi ter nenê, estava muito barriguda.
— E a tia Marília, é boazinha, você gosta dela?
— Gosto. Só que... – Indecisão. – Só que ela me pôs de castigo.
— Por quê?
— Porque briguei com a Maria José.
Saio do chuveiro, começo a me enxugar.
— Paiê, que dia é amanhã?
— Quinta.
— E depois?
— Sexta.
— E depois?
— Sábado.
— Aí você não vai trabalhar?
— Não; nem sábado, nem domingo.
— Demora muito para chegar sábado?
Terminado o banho, é hora do jantar. As duas mesas estão postas, a da família e a da Gabriela. Mesinha de dois palmos, à frente da televisão. Enquanto finge que come, torce pela mocinha da novela.
Depois, aboleta-se em meu joelho, no sofá, com a revistinha na mão.
— Pai, conta a história do Cebolinha.
— Agora não, deixa ver esse programa.
— Ah, conta no intervalo.
E lá vou eu, de intervalo em intervalo. "Conta agora pai". Atenta a todas as figuras, cobra a leitura de algum balãozinho que, inadvertido, pulo.
Sua capacidade de avaliar situações às vezes causa embaraço. Foi o que aconteceu no ano passado, quando visitávamos tia Anita, no interior. Tia Anita é uma velha seca, esqueleto com pele em cima, pernas tortas de vaqueiro de cinema. O rosto é enrugado e o nariz, adunco, disputa em tamanho com uma verruga imensa que tem do lado. Resumindo, é mais feia do que a fome. A Gabriela, que não a conhecia, ficou espantada com tamanha feiúra. Conversa vai, conversa vem, achegou-se a mim e perguntou, com voz que tentava ser baixa, mas que não foi o suficiente:
— Pai, ela é a bruxa da Branca de Neve?
Mais um comercial na tevê. Agora de cigarro, com carrões e donas-boas em Brasília. Cartões postais da cidade.
— Quando é que nós vamos voltar para Brasília, pá?
A danadinha! Já faz quase três anos e ainda não esqueceu. Também, foram dois meses de farra para ela! Piscina todo dia, parquinho, sorvete. Nos fins-de-semana, zoológico, restaurantes, igrejas bonitas. E todas as noites, antes de dormir, o passeio de carro para ver os "pratos". Ela cismou, virou obrigação. Às vezes morria de sono, mas não dormia antes de vê-los. Ficava toda contente quando dávamos a volta na Praça dos Três Poderes e encantava-se com a iluminação dos "pratos", um virado para cima e o outro emborcado.
Uma historinha, outra historinha, o programa na tevê acaba e com ele, a noite. Hora de dormir.
— Pai, você conta história da Emília?
— Outra vez, filha?
— Conta, vai.
— O papai está cansado.
— Só uma...
— Está bom. Vai pôr o pijama enquanto vou pensando.
Minha cabeça parece que está murcha, sugada, de tanto inventar história da Emília. Todas as noites, antes de dormir. E só vale se for da Emília.
Ela volta.
— Já pensou?
— Já. Vamos para a cama.
— Conta bem grande, hein, pai. Deste tamanhão! ––Aponta com os braços abertos.
E lá vai a história.
A Emília acordou cedinho. O dia estava bonito, cheio de sol. Foi para a cozinha, tomou leite com café, comeu pão com manteiga e bastante bolinho da Tia Nastácia. (As histórias começam sempre assim, insistindo eu na Emília comilona. A sugestão porém não deu resultado, ainda.) Depois, de barriguinha cheia, saiu para brincar. Ouviu, então, uns latidos que vinham da porteira do Sítio. Au!, Au! Era uma cachorrinha preta, de pelos compridos.
— É a Tetéia! – ela grita alvoroçada. (A Tetéia é a cachorra de casa).
A Emília chega perto da cachorra, que está com um bruta linguão para fora da boca. Au! Au! Au! Ela não entende nada. Então a Emília faz-de-conta que a cachorra sabe falar a nossa língua e ela começa, de fato, a falar:
— Au! Au! Estou morrendo de sede neste solão. Au! Será que a senhora pode me dar um pouco de água? Au! Au!
— Claro! Entra que vou arrumar uma água fresquinha para você.
A cachorra, então, contou que se chamava Josefina (desaponto da Gabriela), e que tinha ido ali adiante visitar uma tia. Agora estava voltando para casa, mas o solão estava muito forte e precisava descansar um pouquinho.
— Au! Au! Au! Estou tão cansada...
— Por que você não dorme aqui no Sítio, e vai embora só amanhã cedinho, Fina? – A Emília tem mania de por apelido em todo mundo, não?
— É sim, ela é mesmo uma apelideira! – confirma a Gabriela.
Combinaram, então, que a Fina dormiria junto com a vaca Mimosa. A Emília preparou uma caminha de palha.
O dia seguinte amanheceu bonito. A Emília acordou, tomou leite com café, comeu pão e manteiga e um montão de bolinho da Tia Nastácia. (Insisto de novo no ponto; um dia essa psicologia bandida é capaz de funcionar). De barriguinha cheia, saiu e foi ver a Josefina. Adivinha o que tinha acontecido durante a noite?
— O quê? O quê, pai?
— A Josefina tinha tido filhinhos! Seis cachorrinhos, pequeninhos assim. Quatro brancos e dois pretos.
"Ah! Por isso é que ela estava barrigudinha..." – pensou a Emília. Ficou contente e começou a brincar com os cachorrinhos. Eles eram uma belezoca! Pelo lisinho, macio...
A Emília falou com a Dona Benta e arranjou para a Josefina ficar no Sítio até os filhinhos crescerem um pouco. Todos os dias ela brincava com os cachorrinhos, que foram crescendo e ficando fortes porque bebiam bastante leite. Ela gostava mais da cachorrinha preta, bem parecida com a mãe, de pelo comprido.
Quando os filhinhos cresceram mais um pouco, a Josefina falou:
— Au! Au! Agora preciso ir embora. Au! Como você foi boazinha para mim, au!, pode escolher um cachorrinho para você.
A Emília ficou toda contente, e escolheu a pretinha.
— Como é o nome dela, Fina?
— Ainda não tem nome. Au! Au! O dono é que põe.
— Oba! Então eu vou chamar a cachorrinha de... deixa ver... de Tetéia!
— Ah! – delicia-se a Gabriela.
A Josefina se despediu, dizendo que voltaria sempre para visitar o Sítio. Foi embora com todos os cachorrinhos atrás. Au! Au! Au!
A Emília ficou com a Tetéia. Dava comidinha para ela, dava banho, punha para dormir. E ela foi crescendo e ficando cada vez mais bonita.
E acabou a história!
— Ah! Conta outra, pá!
— Não!
— Só mais uma...
— Não!
— Curtinha... deste tamaninho! – mostra com o polegar e o indicador.
— Está bom. Mas é só, hein.
Conto outra história. Menor.
— Pronto! Agora chega, já passou da hora de dormir.
Então Gabriela vai dormir. Mas antes reza:
— Com Deus me deito, com Deus levanto, Nossa Senhora me cubra com seu manto.
— Boa noite, filha.
— Boa noite, pai!
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