(Contém pitadas de erotismo)
Arrumei os negócios, dei instruções e fui.
Chegando a Embirussu não encontrei mudança nenhuma. A mesma cidadinha morta, abrasada de sol, de quinze anos antes. Só estranhei as faixas e cartazes e os muros pichados de fresco.
Corri à casa da tia e fui recebido com abraços, beijos e muito choro.
— Que bom que você veio! Benza Deus, que homão bonito! Quem diria, hein? O menino mirrado que você era... Cruz, credo! Parecia até que não vingava. E olha só agora... Que boniteza!
Se havia causado boa impressão na tia, a recíproca é que estava longe de ser verdadeira. Ela era um caco, magérrima e engelhada. E surda, ou quase, como percebi dali a pouco.
Foi difícil a conversa. Era obrigado a falar alto, quase gritar. Indaguei de sua saúde, melhor seria dizer de sua doença, tantas e tão escabrosas foram as disfunções que me revelou. Concluiu dizendo que sua hora estava próxima, com o que acordei de foro íntimo, embora negando veementemente, também eu a berrar.
Estávamos aos gritos, quando a porta se abriu e entrou Mariana, vinda da rua. Do tipo espigado, redonda onde devia e na medida exata, Mariana não carregava no corpo nenhum peso inútil. A proporção era correta, a tez um tanto morena e os cabelos muito negros, arrepanhados com displicência no alto da cabeça, de onde voltavam a cair-lhe aos ombros. Mesmo não usando pintura, trazia o rosto afogueado, resultado da caminhada que acabara de fazer sob o sol escaldante. Os traços, quase comuns, eram iluminados por um buço suave, sublinhado por lábios carnudos, combinação atrevidamente sensual.
De um jeito todo à vontade, atirou-se-me ao pescoço, dando boas vindas. Espetado pelos seios duros, fiquei tolhido pelo inesperado do gesto, e quando pensei em corresponder ao abraço, era já tarde, Mariana afastara-se e segurava-me por ambas as mãos.
– Vim correndo assim que me avisaram da sua chegada. Todos estão falando... Parece até que fui a última a saber! – E sorria com a boca, com os olhos, com o corpo inteiro.
– Você... É a Mariana? – consegui balbuciar, não refeito do estupor. – Mas você era um tico de gente... Mal havia aprendido a andar!
– É, primo, mas agora eu sei andar e até dançar. – E falando isso, rodopiou com graça pela sala. Depois, veio sentar-se ao pé de mim e quis saber de tudo, da viagem, da vida na capital, de cinemas, teatros, e de um milhão de coisas mais.
O jorro abundante daquela curiosidade trouxe o condão de me devolver o autodomínio, que perdera desde sua entrada na sala. Senti, mesmo, uma ponta de superioridade em relação à moça, à medida que notava a total ignorância dela sobre as coisas da cidade grande. Mas nem por isso a conversa era comandada por mim. Ao contrário. Não tendo paciência de se demorar em nada, muita vez me interrompia para fazer pergunta nova, e logo depois passava a outro assunto. Lembrava-me os exames orais de escola, onde o professor saltita a argüição, com o fito de abarcar toda a matéria.
Havia esquecido por completo de tia Jandira. Tendo ido coar um café na cozinha, voltava ela com as xícaras na bandeja enfeitada de toalhinha de renda.
Aproveitei a pausa para tomar, juntamente com o café, um pouco de fôlego.
— Está havendo alguma eleição na cidade? – perguntei.
— Ah! Você viu a propaganda? Estão emporcalhando tudo, os dois. – E Mariana explicou que se tratava de eleição para a nova diretoria do Clube Recreativo. – Como você sabe (ou não se lembra mais?) os Flores e os Martins não se suportam; quando um deles quer fazer alguma coisa, o outro lado tenta de todas as maneiras atrapalhar. Por isso é que este lugar não sai da droga que sempre foi. Agora, veja você, alguém meteu na cuca do Sr. Miguel que ele deveria ser o presidente do clube. Não deu outra: no dia seguinte o Sr. Juarez também era candidato. E desde então vivem se insultando em praça pública e empapelando toda a cidade. Um inferno!
— Mas o "clube" – cuidei de, com a voz, colocar aspas na palavra – não é ainda aquele clubinho vagabundo do meu tempo?
— O próprio! Um pouco piorado, talvez. O campo de futebol virou pasto, o galpão está destelhado...
— E, então, qual a vantagem? Aquilo não dá prestígio a ninguém.
— Não se trata de prestígio; a questão é de amor próprio. Se um quer, o outro também quer.
— E qual deles você acha que ganha? – perguntei a Mariana.
— Sei lá! O povo não vai nem com um nem com outro. Está correndo notícia que vão anular os votos. Não foi lá em São Paulo que votaram no rinoceronte Cacareco? Aqui parece que vai dar o burro do Alfredo.
— Como assim?
— Eu explico. O Alfredo – continuou ela – é o lixeiro da cidade. Todas as tardes ele corre as ruas recolhendo o lixo em uma carroça, que é puxada por seu burro. O Alfredo vem na frente, a pé, pegando os sacos, e o burro o acompanha, parando enquanto ele os joga na carroça. O burro é esperto; pára quando necessário, dobra esquinas, tudo sem precisar ordem. Dizem até que é o mais inteligente funcionário da prefeitura... incluindo o prefeito. Já o Alfredo, coitado, é burro que nem uma porta. Quando se fala em "burro do Alfredo”, vem logo a pergunta: – Qual dos dois?
E nesse tom a conversa continuou. A maneira despachada e franca de Mariana me encantava. Creio que continuaríamos até o juízo final, se a trombeta de Jericó não nos chamasse a cuidados mais práticos. A trombeta, no caso, foi a voz estridente de tia Jandira, lembrando à prima que devia auxiliar no preparo do jantar.
A tia me levou a conhecer o quarto onde ficaria instalado, enquanto Mariana corria para a cozinha. Entramos por um corredor que principiava no meio da parede da sala, mal disfarçado pela cortina de estampa florida. Do lado direito, dois quartos, o primeiro dela própria – foi explicando –, e o segundo, o meu. Do lado contrário, havia um grande banheiro e outro quarto, o de Mariana.
Desfiz as malas, instalei-me e decidi tomar um banho, para espantar a canseira da viagem. Ela, porém, a canseira, não se assustou, porque, depois do banho, tencionando só estirar o corpo, deitei-me e acabei por ferrar no sono. Fui acordado para o jantar, quando já escurecia.
Comi feito um cavalo. O jantar estava delicioso e eu o disse a Mariana, que aceitou o elogio com a naturalidade de quem recebe pagamento que lhe é devido. Depois, pegou-me das mãos e saímos à rua. Fomos à praça da matriz, apresentou-me amigos, auxiliou na relembrança de lugares e coisas que já julgava esquecidos. Passeávamos de mãos dadas e tão próximos que, por vezes, nossas coxas se roçavam. A noite era escura, sem lua ou estrelas, pois o céu pejava-se inteiro de nuvens espessas. Fazia calor.
— Aí vem chuva, e da grossa – falou Mariana. – É melhor voltarmos para casa.
Foi dizer e acontecer: no mesmo instante espocou no alto um relâmpago com formidável estrondo. Mariana deu um salto e gritou:
— Santa Bárbara!
— Você tem medo de trovão? – perguntei rindo.
— Morro de medo! Desde criança.
Corremos de volta e entramos em casa. Já os primeiros pingos grossos começavam a enegrecer a poeira da calçada.
Enquanto a moça ia à cozinha para ajudar a mãe na arrumação da louça, busquei um livro no quarto e tornei à sala. Tentei lê-lo, mas a atenção, vadia, escorregava além das linhas ou por entre elas. A cabeça andava a roda, com os sucessos do dia, e esses sucessos convergiam todos num só: Mariana.
À noite, na cama, ainda pensava nela. Na escuridão total do quarto, apenas interrompida pelos clarões dos relâmpagos, pensava nela. Não estava cansado, nem com sono, e esforçava-me em fixar-lhe a imagem, que me enchia toda a cabeça e fazia o sangue fluir mais depressa nas veias. E de tanto que pensava nela, demorei algum tempo para perceber que ela havia entrado em meu quarto, presença real, deixando a porta entreaberta, por onde penetrava uma réstia da luz do corredor.
— Mariana! – tartamudeei.
— Vim ver se o primo está bem – disse ela, assentando-se na beirada da cama. – Não consigo dormir com esses trovões.
Naquele preciso momento explode o maior e mais bendito trovão que já algum dia estourou entre o céu e a terra. Digo isso porque Mariana dá um grito, chama por Santa Bárbara e pega na minha mão, apertando-a contra o peito.
— Que susto! Meu coração parece que vai saltar fora. Sinta como bate!
Percebo, de fato, as batidas rápidas, mas não posso jurar não sejam elas a sensação de meu próprio sangue latejando alterado nas veias. Ali deixo ficar a mão. Mariana está sentada entre mim e a luz que entra pela porta e, assim, a visão que tenho dela traz a magia do efeito silhueta. A luz atrás de si coa pelo tecido leve da camisola e distingo com nitidez o contorno do seu corpo: o pescoço fino, um pedaço de ombro, a suave ascensão do colo, que termina no promontório do seio. O mamilo saliente e levemente arrebitado.
— Sente? – pergunta ela.
— Não – minto, ao tempo em que recobro coragem e mudo a posição da mão, deslizando-a para cima e parando sobre o mamilo. – Talvez aqui...
Ela estremece, e o mamilo aumenta de tamanho, espetando-me a palma. Deslizo de novo a mão contra a resistência daquele bico duro, que ocupa, um depois do outro, os intervalos dos meus dedos e que parece não parar de crescer. Mariana não esboça nenhum gesto e estremece outra vez. Espremo-o entre as falanges retesadas. Ela desce a cabeça para mim, ofegante, com a boca entreaberta, o que torna ainda mais grossos os lábios carnudos. Puxo-a em abraço violento, e bebo em sua boca uma saliva de fornalha. Tento desatar os botões da camisola, mas os dedos tremem e se atrapalham, e são tantos os botões! Ela vem em meu socorro e, lentamente, vai soltando-os, um a um. À medida que a pele escura vai se mostrando, minhas mãos penetram sob o tecido e sentem o ardor daquele corpo em febre. O último botão cede, finalmente, e a camisola, toda aberta, mostra inteiro o tórax palpitante, os seios empinados, arrogantes. Mariana empurra minha boca para seu seio. Chupo com força o mamilo intumescido, que me entra inteiro na boca. A violência a magoa.
— Ai, primo! Assim me machuca.
Peço perdão e procuro me conter. Ah, como é difícil ser suave!
Desato os cabelos, que ela trazia presos, e uma chuva macia de fios grossos envolve minha cabeça. Passo-lhe a mão pelo dorso, na reentrância da cintura e na elevação opulenta das nádegas. Demoro-me ali, pareço hesitar.
— Calma, primo. Cada coisa no seu tempo... – A voz dela, ciciada, é uma promessa. Que loucura!
O corpo nu freme de desejo, as coxas se entreabrem, as pernas se retesam, e os movimentos sôfregos do baixo ventre, mais que um convite, são um grito de fêmea em cio.
Latejante, ingurgitado, endoidecido, qual novo Dom Quixote a investir contra moinhos, de lança em riste tomei a fortaleza e cavalguei Mariana, transfigurada em fogosa Dulcinéia. E o embate foi terrível: queimavam minha carne as brasas do inferno, enquanto os raios de Jove estrugiam sobre o campo de batalha. E apesar do ardor da refrega, Mariana soluçava: – Santa Bárbara! – cada vez que um trovão estalava.
E muitas vezes, naquela noite, a batalha reiniciou e a fortaleza foi tomada, sob faíscas celestes e evocações da santa protetora, até que pesado sono nos venceu a ambos em armistício de Morfeu.
Houvera trilhado quase metade do caminho o carro de Apolo, quando... Não, chega de imagens e mitologia! Abusei o bastante do estilo e da tua paciência, leitor amigo. Volto ao prosaico, que condiz mais com o temperamento meu e com a história. Digo, pois, que o sol já ia alto, quando acordei. Estava sozinho na cama, e só não duvidei da intensa atividade noturna pelos vestígios que dela ficaram. Encontrava-me despido, os lençóis amarfanhados, exibindo aqui e ali algumas nódoas e, se isso não bastasse, um resto de cheiro do corpo da prima. E, mais que tudo, uma moleza de corpo, indicativa do esforço despendido.
Levantei-me com lentidão, vesti calças e chinelos e fui ao banho. Depois, já composto, entrei na sala.
— Ora, viva! Até que enfim acordou. Dormiu bem, primo?
A moça me surpreendia e a cada momento desconcertava-me. Esperava encontrá-la um tanto arredia e dissimulada, olhando de través, com pouca fala e alguma lentidão de gestos, talvez arrependida e envergonhada do sucedido. Conhecedor de muitas mulheres, formava convicção de que esse quadro, além de pudico, tinha a vantagem de avivar o dengo. E, no entanto, ali está Mariana na minha frente, sorriso descontraído a mostrar os dentes brancos, olhar direto e limpo de receios, gestos ágeis, toda ela naturalidade e inocência.
Ela percebe meu embaraço e aumenta a troça:
— O que há, primo? Perdeu a língua? – e agitando um envelope nas mãos: – Olhe que tenho novidade para você! Um convite.
Passou-me o envelope, que vinha sobrescrito com meu nome, precedido da locução “Ao Ilustríssimo Senhor Doutor”, com iniciais maiúsculas e sem abreviações. No interior, a assinatura de Juarez Flores, garantindo que teria muita honra e prazer com minha presença no churrasco que faria realizar no próximo sábado, dia 14, em sua fazenda, comemorativo do início da colheita do milho.
— E então, primo, você vai?
— Só se você for comigo – disse eu, com intenção de galanteá-la. – O estranho é que esse pessoal nunca se dignou baixar os olhos até nós, e agora me vem com convite e honrarias.
— Mas é que agora você é importante, "senhor doutor" – caçoa a prima e conta, para espanto meu, que sou considerado visita ilustre na cidade. Meu nome tem aparecido em jornais da capital, em publicações de editais, e isso é o bastante para desfrutar de prestígio na modesta vida social de Embirussu. E vaticina:
— Olhe, aposto que antes de sábado você será convidado para alguma outra festa. A esta altura o Sr. Miguel deve estar inventando qualquer salamaleque.
Dito e feito, na tarde do dia seguinte recebi emissário do Sr. Miguel Martins, convidando-me a "jantar íntimo”, na noite de quinta-feira. Esquece-me agora o propósito oficial da recepção, falta que o leitor me perdoará, por irrelevante, quando não seja pela quantidade de anos passados. Contudo, não o cansemos, nem a ele, nem a mim, com o relato das duas reuniões. Fica dito, apenas, que foram suportáveis. Fiz ouvido mouco às maledicências recíprocas que as duas partes assacaram e, creio, consegui manter posição imparcial na contenda das famílias. Inteirei-me, a contragosto, dos planos e programas de ambas as partes, em caso de vitória na próxima eleição do clube. Os projetos eram muitos, e todos claramente inexeqüíveis, face à pobreza da receita. Levantei a questão, com habilidade, e fiquei sabendo que os dois traziam intenção de colocar dinheiro seu no negócio. A vitória bastava-lhes ao orgulho, a vitória e a entronização de herma, que o povo agradecido certamente teimaria em oferecer ao seu benfeitor.
Não estranhem o paralelismo de atitudes das duas personagens; na política como na vida, o homem é sempre o mesmo, sendo suficiente pequeno esforço para descobrir que o altruísmo é uma combinação de vaidade e orgulho, se é que ambas as coisas não sejam uma só. Vanitas, vanitatem...
A campanha acirrou-se na última semana, com cabos eleitorais – jagunços de confiança – peitando-se pelas ruas. Cheguei a recear pelo pior, mas chegamos todos vivos ao domingo da eleição, incluída a tia Jandira, cuja saúde piorava a olhos vistos.
O dia amanheceu ensolarado, de céu limpo, prenunciando calor forte. Bandas alugadas atacavam marchas e dobrados, com perfeita mistura de estridência e desafinação. O povo vestiu roupa de missa e, dita a própria, saiu da matriz em direção ao clube para votar. A zoeira, os namoros, o matraquear das comadres, a algazarra dos moleques, tudo junto, levado a tostar ao sol generoso, produzia um ambiente de festa, abundantemente temperado de salmoura sudorípara.
Se o dia foi memorável, a tarde e a noite não o foram menos. Guindado a juiz eleitoral, presidi abertura de urna e contagem de votos. Reconheço que o que aconteceu então é inverossímil e não culpo quem descreia. Mas é a mais pura expressão da verdade, e remeto os céticos às atas do clube e crônicas da cidade, caso disponham a se dar o trabalho. De minha parte, conservo anotações particulares que não têm efeito de prova, mas que me servem para lançar neste papel o resultado final da apuração. Foi este:
Juarez Flores 187.......................... Votos em branco 112
Miguel Martins 187.......................... Votos nulos 323
Dentro da classificação nulos, havia 293 votos para o "Burro do Alfredo”, sendo os restantes 30 votos compostos de grosserias e insultos, vários de baixo calão, atingindo os candidatos, pessoas influentes e até o governo federal.
Ia proclamar o incrível empate quando o Sr. Miguel Martins pleiteou ser o vencedor, baseado na anterioridade de sua inscrição como candidato, levantando contundente objeção do Sr. Juarez Flores. Formou-se tumulto, em que os xingamentos de ladrão e vigarista contaram entre os mais suaves. Antes que bofetes e pernadas estragassem o final do glorioso dia cívico, usei de minha autoridade improvisada e declarei suspensos os trabalhos. Ambos me olharam atônitos e expliquei que ia estudar o assunto à luz dos estatutos da sociedade, e marquei nova reunião para a noite seguinte. A intenção era apenas ganhar tempo, mas serviu para adiar a briga.
E assim fiz, estudei o assunto, na cama, junto de Mariana, na pausa entre uma e outra cavalgada. Porque é altura de dizer que os nossos exercícios hípicos haviam continuado, todas as noites, sem tempestade nem Santa Bárbara, que nem uma nem outra nos faziam falta. Bastavam-nos as descargas elétricas dos corpos se unindo e as nossas seivas se misturando em comunhão úmida e quente. A prima se entregava inteira, fremente, despudorada. Não exigia nada em troca, nem promessas, nem juras. Queria ser esfregada, mordida, penetrada. Era a fêmea total.
— Pois eu não lhe dizia que ia dar o "burro do Alfredo" na cabeça? – comentava ela, estirada na cama, recuperando forças, enquanto eu lia o exemplar dos estatutos.
— Olha só, Mariana, o que descobri! Em nenhum lugar diz que é preciso se inscrever como candidato para disputar a presidência do clube. Qualquer um pode ser votado, exige-se apenas que seja sócio. Então, não procede a prioridade do Martins. Caso resolvido!
—Espera aí! Então basta ser sócio?
— É o que diz o estatuto.
—Então – e a prima sorri delicada –, por que você não proclama o burro do Alfredo?
— Ora, deixe de brincadeira.
— Mas não é brincadeira, primo!
— Como assim? Vou proclamar um burro... que ainda por cima nem sei se é sócio?
— Não, mas você pode proclamar o Alfredo, que é sócio, embora burro.
— O Alfredo?
— É. Veja bem – continuou a me explicar –, existe aí no livrinho alguma coisa proibindo colocar adjetivo no nome do votado? – Faz uma pausa para aumentar o efeito. – Então, o Alfredo ganhou! Não importa que o eleitorado o ache burro; mesmo assim é o melhor dos três. E agora, chega de Alfredo e de descanso, vamos para a luta! – Mariana pula para cima de mim e, curvada, esfrega os peitos pendentes em minha cara. O contato de sua carne em minha barriga, os mamilos que endurecem a cada novo esfregão e a visão em perspectiva de suas ancas largas e fornidas, me acendem rapidamente, fazendo-me esquecer de qualquer burro. E nova cavalgada se inicia, comandada por Mariana, que ora a trote, ora a galope, revela mestria de amazona.
Por que não? – acordei de manhã pensando na sugestão da prima, decidido a tentar sua execução. Fiz diligências com o Flores e com o Martins, matreiramente informando a cada um que o outro já havia aceitado a proposta. Consistia ela em ligeiro aperfeiçoamento da idéia de Mariana: o Alfredo na presidência e o Flores e o Martins como diretores, departamento esportivo, um, social, o outro. Aceito o esquema, procurei convencer o burro do Alfredo, que empacou em negativa, ameaçando botar tudo a perder. Foi Mariana quem salvou novamente a situação, conseguindo a concordância do turrão, depois de demorada entrevista particular, da qual o Alfredo saiu muito animado, como se houvera visto passarinho verde. O que fez a prima, até hoje não revelou, o certo é que amoleceu o homem. Ele aceitou a presidência.
À noite, tudo acertado, foi feita a proclamação do arranjo, sob espanto de muitos e aprovação de todos.
Dias depois a tia Jandira entregava os pontos; morreu e foi enterrada com as cerimônias de praxe. Não partiu, porém, sem antes ter me arrancado a promessa de amparar Mariana – coitadinha! – tão ingênua e despreparada para enfrentar este mundo cheio de maldade.
Depois da missa, voltei a São Paulo, carregando comigo a moça.
Hoje, com tantos anos de entremeio, recordo com nostalgia aquele mês de férias em Embirussu. É certo que não tive o descanso almejado. Ao contrário, minhas forças se esvaíram nas cavalgadas noturnas, mas a que regiões de sonho elas me levaram! Voltei depauperado, mas de alma lavada.
Ao retornar com Mariana, casei-a com o Túlio, empregado meu no escritório, um tanto obtuso, mas reconhecido atleta sexual. Aumentei-lhe o ordenado; não queria que nada faltasse à querida prima.
Passaram-se algumas semanas e notei que o Túlio não estava bem. Olheiras, bocejos, deu de emagrecer e ficar mais tolo do que era. Precisava reparar o mal que lhe tinha feito, ir em seu socorro. Tornei-me sócio oculto da empresa conjugal. O reforço parece que resultou, pois ele voltou ao estado normal.
O fogo de Mariana arrefeceu um pouco com o passar dos anos, talvez pela chegada dos filhos, dois meninos, o mais velho guardando certa parecença comigo, padrinho que sou. Creio que o instinto maternal ocupou-lhe parte das energias.
De Embirussu, recebo notícias freqüentes. O Flores e o Martins cumpriram o prometido; derramaram dinheiro no clube, incentivados pelo antagonismo, e transformaram a pobreza em primor. A diretoria tem sido reeleita, todos os anos. Chapa única. Os bustos foram inaugurados na nova sede, todos os três ao mesmo tempo. O do burro do Alfredo no meio.
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