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MARIANA

            Previna-se de antemão: este é um libelo machista! Não se pretende enganar ninguém e por isto é justo que se advirta o leitor sobre minha crença na verdade profunda daquilo que dizia meu pai: “Negócio com mulher só é bom na cama, e assim mesmo a gente sai perdendo...” Às vezes se perde o sossego pelo resto da vida. É o caso, por exemplo, de quando a mulher quer um filho e o homem não. Ela sempre dá um jeito de extorquir a semente e fica grávida. Foi o que aconteceu comigo, ou melhor, com ela. Queria porque queria e ficou. Depois veio me mostrar o resultado positivo e zangou-se com a cara que fiz. O que ela queria? Na minha idade, mais um filho, começar tudo de novo, noites mal dormidas, adeus liberdade, imagina a minha cara. Mas, a bem da verdade, fique claro que eu não disse nada, nem uma palavrinha, menos ainda qualquer palavrão. A boa índole e a educação dominaram-me o impulso. Sabe que mesmo assim ela nunca me perdoou? Disse que esperava outra coisa de mim, que estava decepcionada, ferida e que ia fazer aborto. E pôs-se a chorar, como sempre fazem as mulheres nessas ocasiões. Eu não disse nada, estava furioso, atônito, assustado.
            No dia seguinte pensei o dia inteiro no aborto, absorto, e não tinha cabeça para mais nada. Intelectualmente é tão mais fácil aceitar o aborto, mas na vida real é diferente. É como as estatísticas de morte nos jornais, elas parecem tão distantes, frias, cinco mil, cinqüenta mil, duzentos mil, a gente lê depressa e não percebe. De repente se choca quando vê na rua um cadáver coberto de jornal, vítima de atropelamento ou fuzilaria. Agora eu é que me sentia como um atropelado, a cabeça zunia, o coração apertava, afinal não era um número a mais na estatística, era um filho meu.
            De noite falei com ela que tudo bem, que podia ter esse filho que eu aceitava. E pensa que ela ficou contente ou agradeceu? Que nada, disse que não tinha importância e que já havia decidido levar a gravidez, independente da minha opinião. Deixou bem claro que minha participação na fabricação do filho tinha terminado e que daí para frente era com ela. Se eu quisesse, podia manter o nome de autor, mas o “copyright” era dela. E veja você como uma decisão magnânima da minha parte foi simplesmente ignorada por ela.
            Durante os nove meses uma sombra pairou entre nós. Ela vomitava e engordava, mas guardava mágoa. Eu sabia que ela queria menina; então dizia brincando, só para aliviar a tensão: “Se for menina, tudo bem; se for homem, jogo no lixo.”
            A barriga começou a dar de endurecer de repente, como se a criança se retesasse em seu interior. Depois voltava ao normal. Segundo ela, chegava mesmo a doer. Por isso o nenê ganhou o seu primeiro nome: durinho.
            Passou o tempo, madurou o fruto e chegou enfim o dia. O médico dela estava de férias e havia deixado o nome de um substituto. Da maternidade, pedimos que o chamassem, mas uma parteira fez o exame e concluiu: “Este vai demorar, é só para amanhã. Vocês podem voltar para casa e retornar cedinho.” Eram nove da noite. Voltar para casa, não dormir, enfrentar trânsito na manhã seguinte? Não, senhora. Preferimos ficar e preenchemos os papéis.
            No quarto, as contrações se amiudaram e fiz a única previsão correta da minha vida: “O durinho vai nascer antes das duas da madrugada!” O tempo passava com uma lentidão exasperante e a parteira, que ficara de vir fazer novo exame, não aparecia. Fui atrás dela e trouxe-a pelo nariz. “Nossa, já esta coroando!”, disse aflita e saiu em disparada pelo corredor, empurrando a cama em direção à sala de parto. Não deu tempo de chamar o médico substituto, por isso ficou tudo por conta do plantonista, um rapazote franzino. Fui descartado e esquecido em uma sala de espera, que possuía um dispositivo de duas cores, azul e rosa, e quando uma das cores acendia, informava ao mesmo tempo o nascimento e o sexo do bebê. Quedei-me sentado e hipnotizado pelo dispositivo, aguardando segundo após segundo que a lâmpada azul se iluminasse. Embora preferisse menina, tinha certeza de que seria um menino. Sou um torcedor frustrado, sempre me acontece o contrário do que quero. Faltavam dez minutos para as duas da manhã quando o tal dispositivo funcionou: luz rosa. Então o durinho era uma menina! Mulher já nasce enganando a gente.
            Não demorou nem dez minutos e já saia de dentro da sala de parto uma enfermeira sobraçando uma cesta onde dormia Mariana. Fui ver como ela era; uma coisinha enrugada que nem joelho, placidamente alheia aos conflitos que me provocava, cabeluda e bem penteada. Não me despertou nenhum sentimento aquele pedacinho de gente. Quem nunca foi pai estranhará a primeira vez que vir seu filho, não sentirá aquele tão decantado amor, ficará quase indiferente àquele estranho que lhe apresentam como filho. Mas, previna-se, porque o poder daquela coisinha é imensurável, não vai passar nem uma semana e você já estará irremediavelmente fisgado por toda a vida. A gente fica como um paspalho, olhando e babando: aquela orelha tão fininha que parece papel transparente, a mão de dedos longos (será um batedor de carteira ou um pianista), a boca que faz biquinho e sorrisos banguelas, os pés deste tamaninho, com movimentos desordenados, tudo é tão pequeno, tão mimoso, tão lindo! Quando menos se espera, está-se voltando correndo do trabalho só para segurar no colo aquele pacotinho. Você, que vivia a sua vida normal até havia uma semana, agora não pode mais viver sem ele e, o que é pior, nem se lembra mais – e não se lembrará nunca – de como era a vida antes.
            Com pouco mais de um mês a Mariana veio tomar banho comigo, na banheira. Eu, com todo cuidado, segurando aquele bichinho à tona d’água e de repente ela se turva de amarelo-bosta, detritos ficam a boiar e se agarram nos pelos do meu peito. Veja o que a gente tem de agüentar. E pensa que foi só uma vez? Ledo engano, a cena se repetiu um monte e ela sempre feliz, com cara de inocente. Acho que foi por causa desses banhos que a pele do meu peito ficou mais forte e flexível. Excesso de vitamina.
            O tempo passava muito depressa, eu queria pará-lo, curtir mais cada fase daquela criança que se desenvolvia rápido demais. Queria que ela fosse como o Peter Pan, que parasse de crescer e ficasse eternamente bebê. Mas não, num instante chegou o primeiro aniversário, já ensaiava andar sozinha, e, bem vestida para a festa, parecia até uma mocinha.
            Começou a falar cedo e criou sua própria língua. Pocololo era pernilongo, água era e brinco, pucu. Foi embora era bibola. É lógico que tudo era muito gracioso e é lógico, também, que vocês vão me acusar de pai coruja, mas eu me defendo. A bandida tinha mesmo um magnetismo diferente e isso ficou provado quando viajamos para Guarapari.
          Estávamos lá naquela cidade gostosa a passear calmamente com a Mariana, que andava ora numa ora noutra direção, como a borboleta que é toda criança, quando surpreendi uma mulher, na calçada oposta, que nos olhava fixamente e também caminhava, ora para frente, ora para trás, ao sabor da vontade da bandidinha. Era mais uma pobre vítima, como eu, de seu magnetismo. Ao cruzar com pessoas, raras as que não viravam a cabeça para olhá-la.
          Coquete, muito cedo adotou o batom como companheiro inseparável e aprendeu a pintar a boca até sem auxílio de espelho, como, aliás, faz toda mulher, coisa que não consigo entender como é que pode. Volúvel, seu gosto por cores passou por diversas fases. Houve a fase do rosa, que depois mudou para cor-de-uva, passou rapidamente pelo azul e terminou no branco. Estava na fase do rosa quando lhe comprei uma bicicleta branca. Nem olhou para ela, pedia para andar na cor-de-rosa da amiga. Agora que ela chegou à fase do branco, a bicicleta já não serve mais, ficou pequena, mas mesmo assim ela anda e acha maravilhosa. Agora me digam, é ou não é para judiar da gente?
          Tem muita facilidade a danada para aprender outras línguas. Quando fizemos uma excursão para Buenos Aires, ela ia completar dois anos e pedia para o garçom “tostaditos de jamón con queso” e distribuía “muchas gracias, muchas gracias” para todas as pessoas que encontrava. Mas o que tinha de língua solta tinha de perna presa. Quase matou a mãe de tanto andar no colo. E tinha que ser o colo da mãe, não servia o meu. É uma tirana.
            Gosta de me provocar; quando estou perto, agarra-se ao pescoço da mãe e a cobre de beijos e faz juras de amor. Ao mesmo tempo diz que sou velho e feio. Se demoro a voltar para casa, impacienta-se e fica perguntando por mim. No momento em que abro a porta, esconde-se em qualquer lugar e tenho sempre que entrar perguntando: e a Mariana? A mãe aponta com os olhos o esconderijo e responde que ela não está. “Ah, que pena que ela não está! Trouxe um presente para ela”. Então ela salta sobre mim e finjo levar um baita susto. O ritual não muda nunca e o efeito é sempre o mesmo, uma alegria boa de ter me enganado mais uma vez.
            Não deu trabalho nenhum com chupeta, não pegou o vício; desmamou sozinha, de um dia para outro, aos onze meses; aprendeu a fazer xixi no penico antes dos dois anos e tirou a fralda sem dramas; molhou a cama só uma ou duas vezes. Mas, em compensação, não há meio de dormir na cama dela. Acorda de noite e plé-plé-plé, o barulho dos pezinhos no assoalho, e pimba! – mergulha no meio da nossa cama. No começo até que era bonitinho, mas agora que está crescida falta cama para três. Resultado: estou me habituando a dormir em uma faixa tão estreita que vou acabar virando equilibrista de corda bamba. Para piorar, ela é calorenta, fica chutando os lençóis a noite inteira para que as pernas fiquem descobertas. Esta mania de dormir em nossa cama tem uma explicação: ela não consegue dormir sem um pescoço; agarra-se ao primeiro que estiver disponível. É natural que, se a mãe está junto, será seu o pescoço preferido, mas na falta ela pega o mais próximo. Este hábito e o nosso esquecimento foram responsáveis pelo susto que meu cunhado levou quando Mariana dormiu pela primeira vez na casa dele. Não lembramos de avisar sobre a mania da menina e não deu outra, de madrugada plé-plé-plé e pimba! O cunhado acordou com alguma coisa que lhe apertava o pescoço.
            Se ela é egoísta? Outro dia fui com ela comprar presente para o dia das mães e acabei por comprar mais coisa para ela do que para a mãe. Não se conformou que só existia dia das mães. Mas quando é que era dia das filhas?
            Chantagista ela é, e refinada. Se acontece de eu perder a paciência e levantar a voz ou dar-lhe uma palmada, chora, se esgoela, soluça, valoriza com eficácia absoluta e sempre me rouba o sono – de noite fico me revolvendo de remorsos na estreita faixa de cama que me cabe.
            Maldosa? Só um pouquinho. Estávamos outro dia na rua, de mãos dadas e um homem comentou: “Passeando com a netinha?” Ela fez que nem notou mas foi a primeira coisa que transmitiu à mãe, com um sorriso maroto, nem bem entrou em casa.
            Se é ciumenta? Nem fale! Quando meu neto Bruno vem me visitar ela não sai do meu colo. Encarapita-se nos meus joelhos como a dona que realmente é deles e não permite qualquer aproximação do rival. O coitado nunca vai conhecer o colo do avô. O que me diverte nestas ocasiões é surpreender um disfarçado lampejo de ciúme nos olhos da mãe de Mariana. Acho que mulher é tudo igual, não deixa de ser ciumenta nem quando dorme.
            Interesseira? Faz qualquer coisa por um presente e quando ganha um já está pensando em outro. Nem bem passa o Natal e já está pedindo o da Páscoa, e depois o do aniversário, e depois o do dia-das-crianças e mais este e mais aquele. De antecipação a antecipação já passamos do ano três mil.
            E assim vou vivendo eu, como Deus quer, prisioneiro dessa megera, enfeitiçado por seus encantos, sem mais vontades que não sejam as dela, sem desejos que não os seus, fazendo tudo o que ela quer e não tendo força para nada recusar. Às vezes me pergunto se não será isto o resultado de um plano cósmico, de uma invasão do planeta Terra muito bem urdida por uma raça superior, que vai se apossando das nossas mentes e anulando nossas vontades.
            Será minha filha Mariana uma alienígena? 

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