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UM COPO COM ÁGUA

 

Naquela mesa tem um copo com água pela metade.

Capítulo Um: Copo Quase Cheio

            Sou, sempre fui, e acho que continuarei a ser. Apesar de mulher e negra, sou otimista. Os amigos brincam que é defeito de fabricação; mulheres normalmente se queixam de preconceitos, de serem maltratadas pelos homens, perseguidas e até violentadas. Eu, não. Nada disso sofri, por isso sou otimista. Mulher negra, então, aí elas se queixam mais ainda; além de sofrer tudo o que já foi dito, padecem também do preconceito da cor. Eu, também não. Aliás, minha cor de mulata sempre agradou aos homens; alguns até perdem o senso, chegam a endoidar. Verdade que não é só pela cor, mas por todo o resto. É certo que já tive meu tempo de maior glória, mas mesmo agora, chegando aos quarenta, ainda dou um bom caldo. Os tempos áureos já passaram, mas os de hoje ainda têm o seu brilho; não são poucos os marmanjos que ainda quebram o pescoço quando me veem passar. Até o João, meu marido, que não tem mais o mesmo fogaréu dos primeiros tempos, ainda me procura de vez em quando, principalmente quando o Corinthians vence a partida; aí ele fica mais animado e eu vou para o sacrifício. Opa! Acho que usei uma palavra forte demais; não é que eu não goste, mas é que o ato ficou um tanto frio, quase burocrático. Será que é reflexo dos vinte anos de casados?

            Não, não sou infeliz no casamento, ao contrário, damo-nos bem, amamo-nos e temos uma linda filha de dezessete anos, a Luiza de nosso coração. Mas aquela paixão do só vou se você for acabou por enfraquecer depois de dois lustros passados. Sobrou um bem querer macio; a água da fervura amornou e hoje é apenas tépida. Mas não fria. E se, nessa situação, de repente, quando você menos espera, alguém lhe aparece com uma chaleira borbulhante, o que você faz meu irmão? É a vida novamente pulsante que volta a se lhe oferecer. E a vida, o que é, o que é, meu irmão? – pergunta o adorável seresteiro. Ele sabe que ninguém sabe, mas enquanto ainda não se sabe, ele grita: é bonita, é bonita, e é bonita! Viver é poder amar ao som da Sonata ao Luar, rezar com Jesus Alegria dos Homens, dormir embalada por um Noturno de Chopin, sonhar inspirada em uma Bachiana de Villa Lobos. Viver está além da ciência e dos cientistas, mas ao alcance de todos nós, os simples, os ingênuos. Só os puros sabem apreciar um dia de chuva e sol, quando os raios de luz tiram faíscas das gotas que caem. Mais do que produto de artista, a natureza é uma pintura de menino travesso; o sol no poente, querendo ainda brincar um pouco, vai desenhando no ar filhotes de arco-íris, e se a gente tiver um pouco de imaginação pode ver na miríade de gotas que caem do céu, em cada uma delas, o reflexo das sete cores, e no conjunto, o quadro completo dos sete mil amores que Jobim guardou para a Luíza dele.

            Toda mulher tem uma melhor amiga, assim como todo homem tem seu melhor amigo. São eles os melhores ouvintes e em quem sempre se pode confiar; mas nem todo casal tem os dois melhores amigos formando outro casal. Se vamos procurar estatísticas julgo que encontraremos a possibilidade na casa de quase zero. Pois não é que eu e João temos nossos Pedro e Clara formando outro casal? Pedro é do João e Clara, minha, nossos melhores amigos. E olha que, com tanto nome de santos, nosso relacionamento deveria ser sem pecado. Mas não é. Confesso que, embora não acreditando em pecado, de início resisti a essa aventura; afinal iria trair João e Clara, as pessoas que mais amo depois de Luíza. Mas era só tirar um “a” da palavra aventura e ela se prometia como ventura! Este azinho não devia de estar bem grudado, pois caiu logo. Obviamente que este raciocínio é vicioso, o certo é que, se o desejo é forte, a carne é fraca. Não foi difícil encontrar argumentos lógicos para justificar a traição; e para achar argumentos contrários sou boa, fui treinada a vida toda, sou advogada de sucesso. Sem entrar em outros, fico só neste: o desejo é uma força vital, não tem nada de errado, a vida social é que inventou as proibições. Na natureza, quando a fêmea entra em cio, escolhe como quer o macho da vez. O convívio com Pedro me despertou as entranhas adormecidas e entrei em cio. Tinha que respeitar a natureza. Afinal, pensando por outro lado, se o corpo que tenho é meu, a mim mesmo compete decidir o que fazer com ele. Lembrei até do caso do homem rico que comia diariamente lagostas, perdizes, caviar e trufas e que ficou maluco no dia em que comeu ovo frito. Em um casamento de mais de vinte anos, ainda que se coma lagostas e trufas todo dia, chega a hora em que dá vontade de ovo frito. O corpo é meu, não dou a ninguém, só empresto. Não me venham com esse negócio de direito por usucapião, a dona dele sou eu. Eu e só eu. E se um dia quiser ouvir estrelas? Ora, direis, ouvir estrelas! Pois, digo eu, devemos escutá-las com toda atenção, são elas o murmúrio que restou da Grande Explosão. Assim se fez a criação. Todo corpo tem o desejo atávico de ouvir estrelas. Devemos, vez ou outra, ouvi-las.

            Por outro lado, se desculpada está a traição, é preciso aliviar o peso da palavra. A melhor maneira talvez seja mostrar que não deve ela ser usada para designar os atos carnais fora do casamento. Se os considerarmos normais, apenas uma obediência aos ditames que a natureza impõe a todos nós, animais que somos, não serão mais vistos como traição. Afinal, não se está arrancando pedaços de ninguém. Como diz o vulgo: lavou, tá limpo. O ideal seria que essas relações fossem abertas, de conhecimento público, mas a humanidade está longe desse ideal. Basta, então, que se faça tudo bem escondidinho, o que os olhos não veem o coração não sente.

            Sei perfeitamente que essa empolgação com o Pedro um dia termina, como acabaram aqueles outros casos. De um ou outro nem lembro mais os nomes.

            Como disse o Gonzaguinha, a vida é bela e eu sou uma eterna aprendiz. Viver é bom.

Capítulo Dois: Copo Quase Vazio

            Vivia dizendo o Riobaldo, com razão, que viver é perigoso. Não bastassem os perigos que a própria natureza nos apronta, como barrancos, avalanches e alagamentos, além de dentes nada amigos de leões, cobras e lagartos, temos ainda que enfrentar as armadilhas e arapucas que a própria espécie humana nos reserva. Alguém já disse que o homem é o lobo do homem, outro, que vivemos em um vale de lágrimas. Há toda uma corrente de filosofia que afirma que a suprema virtude é resistir ao infortúnio. Se o pão com manteiga cai da mesa ao chão, não tenha dúvida, cairá com a manteiga por baixo. Dizem que sou pessimista; não retruco, polemizar para quê? Sei, por mim, que sou apenas realista. Viver é perigoso. Viver cansa.

            Um dia me perguntaram o que é a vida. Levei mais de uma semana para achar a resposta: a vida é uma doença da matéria, uma infecção que lhe acomete. O mundo inanimado é em si mesmo imutável, perfeito. Aquilo que já é bom não precisa mudar, só precisa o que é ruim. Uma pedra no chão não se move; está bem. Só rolará se um vento forte ou uma enxurrada a empurrarem. A água do mar, se não fosse a vida que a habita e polui, seria sempre límpida. Se não houvesse árvore na floresta o raio de Zeus não causaria incêndios. E se não houver Zeus, mas apenas homens, continuarão os incêndios, pois nossa espécie parece que foi criada para destruir. O peixe pequeno é comido pelo peixe grande, este é comido pelo homem, e o homem é comido pela fera, quando não o é por outro homem. A vida é uma carnificina planetária, eternamente observada pela impassível Lua, único lugar onde a paz existe.

            Não sei o que me deu hoje; acordei com o pé esquerdo. Esta situação está me incomodando. Estou casado com Ana por mais de vinte anos e agora começo a traí-la. E pior, com sua melhor amiga. Não sei como isso pôde acontecer. Verdade que, com tantos anos juntos, a gente perde aquele fogo dos primeiros tempos. Mas tinha que ser com Clara, não podia ser qualquer outra? A culpada foi a grande convivência; ver-se quase todo fim de semana, férias na praia, aquele corpo branco de neve. É, acho que foi o corpo claro de Clara que me endoidou. Tão acostumado com o acobreado de Ana, o branco de Clara mexeu comigo. Bem que ela merece o nome que tem, de tão branca que é; ainda mais com aqueles cachos de cabelo loiro. Dizem que todo homem merece ter uma loira na vida. Não que ela seja mais bonita que Ana; não é, Ana é mais bonita. Pedro, o marido de Clara, até brinca chamando Ana de mulata do Sargentelli, tão perfeita ela é. Clarinha é mais magra, frágil, e acho que foi isso que me balançou. Eu, que me julgava uma fortaleza, derrubado por aquele pedacinho de mau caminho! Quando a tenho nos braços sinto que estou brincando com um bibelô; parece que volto aos tempos de menino. Talvez seja isso mesmo que me enfeitiçou, quem não gosta de voltar a ser menino? Mas essa brincadeira não pode continuar, tem de acabar. Eu, que ganho a vida inventando histórias, até pensei, em algum momento, aproveitar o nosso caso para um roteiro de minissérie que a tevê me pede. Para apimentar esse pecado extraconjugal, vejam só, até pensei em colocar mais um casal comungando de igual pecado. Como a imaginação da gente é sempre descontrolada, hoje acordei pensando que o outro casal pudesse ser Ana e Pedro. Confesso que me assustei. Minha mulher e meu melhor amigo? Que absurdo! Que ideia mais maluca! Como é que fui pensar numa coisa dessas? Conquanto rejeitasse a ideia, a danada não saiu de minha cabeça. No fundo, reconhecia eu, não deixava de ser uma boa ideia; chocante, é verdade, e por isso mesmo boa: sacode a moralidade burguesa, pisa em cima da religiosidade barata. Duas melhores amigas e dois melhores amigos patrocinando oito traições em triângulos amorosos cruzados. Podia até explorar a soma algébrica de tantas traições. Cada uma das personagens estaria traindo o cônjuge com a pessoa que é deste a melhor amiga, e estaria sendo traída de igual forma. Se atribuirmos um ponto negativo a cada traição cometida e um ponto positivo pela sofrida, teremos os números: quatro negativos por traições cometidas e quatro positivos por traições sofridas, que, em soma algébrica, tem como resultado um enorme saldo zero. Estaria a matemática nos ensinando que as ações humanas pouco valem no universo, que somos pretensiosos de nos imaginar importantes? Quanta lição poderíamos extrair dessa simples historinha! Pena que tem ela um defeito grave: falta de credibilidade. Ninguém vai acreditar na possibilidade de uma trama tão artificial. No mundo real essas coisas não acontecem. Como se diz nos botequins, é forçação de barra. Que pena, parecia uma boa ideia!

            O jeito agora é procurar outro caminho, mas ando tão pouco inspirado! Que tal um casal de primos que se odeiam, náufragos em uma ilha deserta? Não, também é de baixa probabilidade. Contudo, não seria o caso de distinguir o provável do possível? Improvável é alguma coisa difícil de acontecer; impossível é aquilo que não acontece nunca. Uma categoria ofende o bom senso, a outra, a lógica. Primos na ilha deserta ou o meu cruzamento de traições certamente ofendem o bom senso, mas não contrariam os cânones da lógica; podem ser improváveis, mas não serão impossíveis. Diacho! Assim pensando, não seria melhor voltar ao festival de traições? Ainda mais que, depois de toda aquela contabilidade algébrica, podia a minissérie ser rotulada com um título chamativo, um curto, grosso e sonoro SALDO ZERO!

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