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A VIDA

 

(Oração aos moços)

            Esses moços! Pobres moços! Ah se soubessem o que eu sei... Não sabem o que a vida lhes reserva. O sol quente do verão será um sol frio no inverno. O viço das flores do jardim dura pouco, logo fenece. É o tempo que passa, é a vida que corre e o amanhã logo vira ontem. Mas afinal, o que é a vida? Diga lá meu irmão. Eu, quando jovem, subia as escadas pulando os degraus de dois em dois; agora, me apoiando no corrimão, claudico ao descê-las e subo arfante. O cancioneiro antigo e o seresteiro moderno, ambos cantam com entusiasmo as cores de sua aquarela... que descolorirá.

            Viver é perigoso, diz e repete o Riobaldo. Viver é preciso, digo eu, contrariando o lema de Sagres: navegar não é preciso; viver é preciso. A vida, com suas agruras e sofrimentos, valerá a pena? Só se a alma não for pequena.

            A vida não passa de um microscópico ponto-fora-da-curva na imensidão inimaginável que nos acostumamos a chamar de Universo. O Cosmos é formado quase que exclusivamente de matéria bruta; nele existem gases, poeira, pedra e fogo. Vejam a proximidade de nossa casa: no Sistema Solar parece que a vida só existe mesmo em nosso planeta. Não fosse ela a Terra seria uma cópia de Marte, areia e pedra em um nauseante monocromatismo vermelho. Ao invés, temos nós toda uma paleta de cores de um artista demiurgo. É a vida que colore o planeta. Sem ela seríamos também uma outra tediosa bola de pedra a girar em torno de uma estrela, num canto da Via Láctea. Imaginem como seria triste uma Terra sem mares e oceanos que se interligam nas mesmas águas, plenos de seres que vão do quase microscópico krill até as imponentes baleias, com crustáceos, mamíferos, peixes, todos eles artistas desse imenso circo aquático. Imaginem a falta que fariam se não houvesse florestas e cerrados, montanhas e campinas com todos os tons de verde, e animais que rastejam, pulam e correm num frenesi de olimpíada. Nada de árvores de grosso calibre, impávidos colossos que nem prestam atenção nos minúsculos seres que lhes roçam os troncos, e que permitem repousar em suas sombras o viajante cansado. Para elas, milenares, o tempo não passa; vivem no tempo eterno. Tão triste se não existissem, nos jardins, flores de toda cor a se oferecerem para alegria dos olhos e para o beijo de abelhas e colibris. É bom que tudo seja e esteja, e que pelo ar, na atmosfera azul do planeta, continuem a passar pássaros e passarinhos, em voo solo ou em bandos, às vezes por enxames, e que, com a graça do contraste, sigam desenhando caligrafias de poema no fundo branco das nuvens de algodão.

            Somos sem dúvida privilegiados e tudo devemos à água. Dela provém tudo que é vivo; no entanto, não é comum ser encontrada na natureza. A pouca que existe, quando é achada, está em forma de gelo ou vapor, quase nunca líquida. O planeta Vênus, nossa estrela mais brilhante, o astro mais lindo de nosso céu, que só perde em boniteza para a solitária e triste Lua, mesmo ele não possui água líquida. Com a temperatura acima de quatrocentos graus, toda água está evaporada na atmosfera. Uma e outra lua de Júpiter e Saturno têm água, mas só em forma de gelo. Nossa querida Lua também não tem água líquida e, por isso, quando chora, suas lágrimas são de luz seca; ainda assim, servem para iluminar as noites escuras. Caem seus raios sobre ricos e pobres e furam o teto de zinco dos barracos, salpicando de estrelas o seu chão... e a cabrocha pisa nos astros distraída.

            Devemos dar graças aos céus por termos água. Sem ela não existiria vida, não haveria o homem, nem mesmo presente, passado e futuro existiriam. Para o tempo existir é necessário que alguém o marque e conte. E é esta a principal tarefa humana: para isto fomos criados.

            O tempo, que marcamos e contamos, passa e muda o mundo, mas uma coisa não muda, o erotismo. Ele é a magia inventada pela Natureza para garantir que as espécies se repliquem. Artistas maiores jamais deixam de glorificá-lo. Ao final dos oitocentos, um divino vate cantou a excitante ponta de uma chinelinha de alcova. Não passou de anos um cento e um cancioneiro erotizou, em ritmo de bolero: no dedo, um falso brilhante, e um torturante bandeide... no calcanhar!

            Esses moços! Nossos moços! Quase chegando aos primeiros vinte anos! Não só agruras a vida lhes reserva. Presenteia-os também com beijos e queijos. Estão passando agora pelo espanto do primeiro beijo, e logo terão o primeiro filho. Viverão a alegria de ver nos lábios daquela coisinha o primeiro sorriso e, não demora, passarão pelo medo indizível da primeira febre, e, ainda que tarde, pelo alívio grato da rezada cura. Entenderão, então, que a vida não é fraca, que ela é forte, e que luta e vence. Ah, esses moços! Logo entrarão na faculdade e aprenderão ciências matemáticas ou humanas, e se sentirão poderosos. E moverão montanhas, e mudarão o mundo. Lerão os primeiros clássicos, e a insegurança inicial se transformará em prazer; o medo será vencido pela emoção, e ao lado do riso, a lágrima, por viver outras vidas - imaginárias é certo - mas tão puramente verdadeiras. Não resistirão à obliquidade dissimulada dos olhos de Capitu, e naufragarão nas procelas de sua ressaca.

            A vida é linda e linda será. A rosa tem espinhos, mas ninguém se lembra disso. O que vale é a sua cor, o seu olor, o seu amor. Um seresteiro sonhador um dia queixou-se às rosas, mas, que bobagem, as rosas não falam. Ainda assim, apesar de não obter resposta, continuou a amá-las, e às suas irmãs, flores de outros nomes. E tanta música fez, tanta beleza criou que o Céu se revelou pequeno para acolher tamanho homem.

            E agora, meu irmão, volto a fazer a pergunta inicial: e aí, o que é a vida? Confesso que ainda não sei responder, e desconfio que nunca terei essa capacidade. Mas, igual a toda criança, repito junto com o seresteiro: é bonita, é bonita, e é bonita!

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