O azul
brilhante das pequenas violetas são pedaços refletidos do céu de meio dia. O
sol lambe guloso as pétalas frágeis, aqueles coraçõezinhos tenros, lambe com
pressa, com sofreguidão, pois sabe que logo mais aquela nuvem invejosa virá
encobri-lo e lançar sombra em toda a praça; com ela trará uma brisa fresca que
soprará sobre as flores, lenitivo àquela paixão maluca, que mais fere do que
acaricia.
O canteiro
de violetas é um dos quatro plantados, dois de cada lado do caminho de pedras
brancas que liga a porta da igreja ao início da rua Quinze. São canteiros
quadrados, e ao lado das violetas está o das margaridas. Separando os dois,
outro caminho das mesmas pedras portuguesas, este mais estreito.
Neste calor
de sol a pino poucas pessoas estão fora de casa. Se um observador estrangeiro
de repente acordasse num banco desta praça, veria poucas pessoas transitando e
imaginaria estar em alguma aldeia espanhola, na hora da sesta. Sabemos nós,
porém, que estamos em uma típica cidadezinha do interior brasileiro, igual a
outras centenas de irmãs gêmeas. Para identificar a região seria necessário
ouvir a conversa de algum passante, observar se ele fala cantado, se puxa os
erres, se come os esses, enfim, em que dialeto se expressa, coisa que, por
educados, não faremos. Para nosso bom uso, basta sabermos que estamos no
interior do país.
Aqui neste
banco ao lado do canteiro de violetas vemos um homem sentado; à sua esquerda
tem a igreja e à sua direita a visão do início da rua Quinze. De lá não tira os
olhos, a não ser para olhar ao relógio. De vez em quando olha para as violetas,
olha, mas não vê, pensamento longe. Ele, de olhos pretos, pensa em olhos azuis,
emoldurados de cílios negros. Se visse o que olha, perceberia que também as
violetas são azuis, da cor dos olhos de sua amada, apenas mais escuros, já que
os dela parecem águas-marinhas onde costuma se afogar.
Como era nossa
intenção falar apenas do jardim das violetas, este homem é um intruso na
história e, com seu inesperado aparecimento, já tivemos que inventar alguma
coisa a seu respeito, já que dele não sabemos nada. Constatamos tão somente que
se trata de pessoa jovem e que traja calça de casimira e não de jeans, como
seria natural em sua idade. Como a camisa é social e branca, é legítimo supor
ser ele algum empregado administrativo, talvez bancário. Há que se perdoar o
narrador que, à falta de informação, é forçado a inventar. Provavelmente terá o
rapaz marcado encontro com a namorada no horário de almoço, quando se verão por
alguns minutos, o que já é um consolo para quem tem a vida apertada. A amada
provavelmente será uma colega de banco ou uma vendedora do comércio, nada,
portanto, que nos leve a alguma cena glamourosa. Nestas circunstâncias, compete
a qualquer escriba, ainda que medíocre, improvisar. Inventemos, pois.
Perdido em
pensamentos, o olhar do jovem se detém na porta larga da igreja, agora fechada.
Imagina ela aberta, com as duas folhas de par em par; imagina também o tapete
vermelho estendido até o altar, e lá, um moço de cabelos bem penteados, em pé,
junto ao padre. Olha bem de perto e se reconhece: é ele próprio, ao lado dos
padrinhos. Com terno novo e de gravata prata, espera ansioso que na porta
apareça a noiva amada de olhos de águas-marinhas. De repente escuta o órgão
iniciando a música de núpcias e vê, na entrada, a silhueta dos seus sonhos. Ah,
esses moços cheios de sonhos... Imagina também a festa na casa da noiva, casa
modesta, mas de quintal grande, onde cabem quase quarenta pessoas. O cunhado Tião
capitaneando a churrasqueira e o tambor de gelo com cervejas e refrigerantes.
Na mesa, forrada de toalha xadrez, o bolo com os bonequinhos em cima e as
bandejas de brigadeiros e salgadinhos. Depois a imaginação pula para o quarto
de hotel onde passarão a noite de núpcias...
Melhor que
paremos por aqui, afinal a imaginação do rapaz é minudente e não quero
transformar esta crônica em peça de revista masculina, uma vez que a intenção
sempre foi, e continua sendo, que frequente cadernos de menina-moça.
O tempo
passa, o tempo voa, e voam igualmente as nuvens no céu. Aquela que trazia
consigo uma brisa fresca afastou-se para o oriente e deixou o sol outra vez
lançar seus raios furibundos sobre o canteiro de violetas. O astro rei, criador
do mundo e de tudo que nele existe é monarca absoluto e, por isso, não aprende
nada. Volta a lamber com sofreguidão as pétalas e folhas das pobres violetas.
Só não chega a machucá-las porque elas aprenderam a se defender; pelas raízes puxam
do solo gotículas de água e, exímias alquimistas que são, com a ajuda
inconsciente do astro, produzem a clorofila, bálsamo para aguentar os violentos
ataques daquele amor egoísta.
O nosso
moço continua sentado no banco. Olha de novo o relógio; em seguida vira a
cabeça para a rua Quinze. Será que ela não vem?
Comentários
Postar um comentário