Era sua
primeira viagem de navio; João e Maria, aposentados, podiam se dar ao desfrute,
nada nem ninguém os exigia em casa. Haviam reunido alguma economia e podiam
gastá-la na travessia do Atlântico. Foram para a Europa de avião e voltariam
cruzando o oceano. Visitaram Roma, Florença, Veneza e Milão e chegaram a
Gênova, onde começaria a verdadeira aventura, o cruzeiro marítimo.
Dentro do
navio, na segunda noite de navegação, durante um coquetel de boas-vindas
patrocinado pelo capitão, viram pela primeira vez o casal ariano. Ele, espigado
e hercúleo, cabelo loiro cortado à escovinha, mantinha-se quase imóvel e,
quando se mexia, era de modo comedido, ora bebericando, ora depositando na
mesinha à sua frente o pequeno copo de uma bebida certamente forte. Os olhos
claros, de reflexos metálicos, moviam-se continuamente como se estivessem
mantendo o ambiente sob vigilância.
— Parece um
oficial da Gestapo — disse João a Maria, embora na verdade nunca tivesse
conhecido nenhum, só os que vira no cinema.
— E a
mulher, então? Olha a figura — arrematou Maria.
Era, a
figura, uma mulher alta e magra, naquela idade de Balzac, entre trinta e
quarenta anos. Sentava-se na poltrona ao lado do oficial e bebia algo
avermelhado, em taça delgada, algum drinque não alcoólico. Igual ao parceiro,
tinha os gestos lentos e os olhos, ao contrário dos dele, eram imóveis, olhos
de estátua, miravam sem foco o infinito, o que talvez fosse a causa de realçar
seu azul intenso. Os cabelos, no entanto, muito compridos, quebravam a primeira
impressão de porte militar: frisados desde o topo, caiam em profusão sobre os
ombros criando a imagem – a um observador impressionável – de que a cabeça
inteira estava engolfada por uma cascata dourada.
João e
Maria, sentados a pouca distância do casal, não conseguiam ouvir as raras
palavras que trocava. O salão, imenso e feericamente iluminado, estava repleto.
As pessoas conversavam e gargalhavam, bebiam e dançavam, enquanto pequeno grupo
de músicos tocava sucessos caribenhos. Imersos em tanto barulho era impossível
a João e Maria ouvir qualquer conversa, ainda que o casal estivesse muito
próximo. Ao pé de orelha comentaram:
— Devem
estar falando alemão!
Nos dois
dias seguintes não viram mais o casal e esqueceram-se dele. O navio carregava
alguns milhares de passageiros e outro milhar de tripulantes de modo que
encontrar alguém pré-determinado era procurar agulha em palheiro. Além disso um
cardápio de atividades – ginástica, piscina, culinária, dança – faria qualquer
um se esquecer de fracos propósitos. Contudo, se o cérebro esquece, o olhar faz
lembrar. João e Maria viram outra vez o casal em uma noite de Lua cheia. Haviam
subido ao tombadilho para apreciar o espetáculo da Lua sobre o mar. Longe de
terras iluminadas pelo homem, ela reinava absoluta, sua luz pujante clareava
todo o céu, onde mal se viam estrelas, que deveriam estar escondidas por trás
do brilho, possivelmente envergonhadas. Um vento forte, estraga-prazeres,
agitava as águas do oceano impedindo que ele dormisse. Irritado, mas ainda um
tanto preguiçoso, suas águas corcoveavam em pequenas ondas que quebravam em
espuma. A Lua, então, brincalhona, tirava proveito e enviava raios para surfar
sobre as ondas, provocando no mar negro reflexos lampejantes.
Tendo como
pano de fundo essa paisagem mista de romance e medo, viram o casal ariano
displicentemente encostado na amurada, alheio à agitação ameaçadora das águas.
— Serão
marinheiros? - aventou Maria.
—
Provavelmente de algum submarino atômico – concluiu João.
Não
tiveram, contudo, coragem de se aproximar. Uma noite de Lua cheia sobre o mar é
sempre um espetáculo romântico, ainda que o mar esteja nervoso. Não seria,
pois, de bom tom que se acercassem, quebrariam o clima laboriosamente planejado
por Cupido, esse menino deus não tão zeloso, mas sempre bem-intencionado.
Cuidara ele da beleza da noite, mandara as estrelas esmaecer para realçar o
brilho da Lua, mas esquecera-se de combinar quietude com o tio Netuno. Este,
velho rabugento, ia despertando lentamente – dado que gigantes não primam por
celeridade, ainda que deuses sejam – e à medida que espertava sofria o efeito
deletério de porções biliares que sua vesícula divina descarregava em seu
estômago idem. Como nem os deuses são imunes às propriedades do sombrio fel, o
senhor dos oceanos se tornava cada vez mais rabioso e atribuía isto à conta do
pequenino arqueiro, esquecendo-se – memória de velho é sempre falha – do leitão
gorduroso que na véspera devorara com o degenerado Baco, judiciosamente
acompanhado de alguns tonéis de vinho tinto.
O derrame
de bile foi enfurecendo cada vez mais o deus do tridente que começou a golpear
a superfície das águas com o formidável instrumento. As ondas cresceram e a
Lua, precavida, escondeu-se atrás de uma pequena nuvem que sempre traz a
tiracolo e que usa em ocasiões especiais. Os vagalhões desgovernados embatiam
no casco do navio e o sacudiam como se fosse uma casca de noz em banheira de
moleque travesso.
Maria e
João cuidaram de se recolher logo à cabina, mas antes lançaram um último olhar
ao casal. Os dois, agora de pernas bem abertas, continuavam a segurar
displicentemente a borda da amurada e seus corpos jogavam contra o movimento do
barco, conseguindo anular os solavancos.
— Não serão
marinheiros de algum submarino, como você imaginou – disse Maria. – Submarinos
não enfrentam tempestades, estão sempre profundos.
— É, é
verdade, devem ser tripulantes de corveta.
Os
transatlânticos de turismo navegam de noite e aportam nas manhãs em cidades
programadas, quando os passageiros descem para visitação. Naquela manhã de sol
e chuva o navio fizera escala em Gibraltar, enclave inglês ao sul da Espanha. A
cidade, cravada nas escarpas graníticas do grande rochedo, desaconselhava
passeios a pé e a chuva intermitente reforçava a íngreme e sensata advertência.
Assim sendo João e Maria tomaram um ônibus de turismo e – surpresa! – nele
encontraram o casal ariano. Sentaram-se próximos, dispostos a finalmente ouvir
sua conversa.
— Desta vez
não escapa – disse a alegre Maria.
Dizem uns
que Deus escreve torto, outros, que as fiandeiras do destino tecem tramas
enviesadas, a verdade é que um ou outras vivem a nos pregar peças, pobres
mortais. À beira de satisfazer o intento anelado, quando Maria e João se
julgavam prestes a ouvir os acordes metálicos do idioma de Goethe, entra no
ônibus uma dúzia de adolescentes. Brasileiros, chineses, italianos ou
iranianos, o certo é que adolescentes, quaisquer que sejam as origens, são
sempre barulhentos quando em bando. Subiram no ônibus e trouxeram na algibeira
sua algazarra. Não foi mais possível ouvir qualquer som que não estivesse na
partitura deles. Para frustração de Maria e João.
E assim,
pela terceira vez, o casal ariano não pôde ser ouvido pelo brasileiro.
Depois de
atravessar o Atlântico chega o navio ao fim da viagem: Salvador, Bahia. Na fila
de passageiros que desembarcam encontramos João e Maria e logo atrás deles,
quem? O casal ariano!
— É agora –
diz Maria.
— Agora ou
nunca – repete João.
Estando as
fiandeiras a dormir ou sendo folga de Deus, a verdade é que podem eles agora
ouvir, nítido e bom som, o que conversa o casal ariano:
— Estamos
chegando em casa, meu rei.
— Tu vai
fazê um cafuné apetrechado pro seu paizinho, minha nega?
— Arrochado,
quente e apimentado, como paizinho gosta...
E assim, ao
cabo de algumas tentativas frustradas, João e Maria, diante do dialeto
soteropolitano, concluem esta verdade simples:
— Ora,
veja: não era ariano, era apenas e tão somente um casal baiano!
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