Nestes
tempos bicudos em que o bicho homem faz todo esforço para aniquilar a vida do
planeta, e quando alguns de nós erguemos trincheiras para defendê-la, que tal,
leitora amiga, fugirmos um instante e esquecer nossas mazelas? Não, não é
covardia, até as guerras têm momentos de armistício, é quando se renovam forças
para novas batalhas. Ao dia árduo de refregas sucede a noite benfazeja; mansa,
vem ela lamber as feridas do guerreiro. Façamos nós uma breve escapada, que não
envolve planejamentos logísticos, apenas uma viagem em pensamento. Não te
roubará precioso tempo, somente poucos minutos. Relaxa, respira e deixa fluir a
imaginação. Vem comigo nesta fantasia!
Olha lá em
baixo, é o rio Paraguai. A água corre mansa dentro da noite, parece gemer
baixinho, não de lamento, mas de preguiça. A superfície lisa esconde o
movimento que lhe escorre por baixo e, nesse esforço de camuflagem, permite-se refletir
de maneira fugaz o brilho das estrelas. Consegue espelhar, com inclinações
tênues, o quadro fixo do firmamento e o transforma em um espetáculo de
cintilação. A beleza da noite sem luar, o céu pintalgado de pontos de luz, faz
nascer no rio dormente seu primeiro sonho primaveril.
— Há quem
diga que a beleza, para existir, precisa que a contemplem. Para quê a beleza,
se ninguém para vê-la? Uma dúvida dessas só pode ter saído da cabeça torta de
um homem, esse ser pretensioso que imagina que a Natureza só existe para seu
proveito — assim acaba de falar o caçula Antônio a seu irmão, exatamente no
momento de nossa chegada. Sendo nossa presença puramente imaterial, dado que a
imaginação não pesa, não se apercebem eles de nós outros, o que nos propicia
continuar a ouvi-los. “ Coisa feia!” dirá a leitora. O fim justifica os meios,
digo eu. Se o escrúpulo te inibe, será tão somente um pecado venial; duas
ave-marias será seu preço.
— Está
certo — concorda o irmão. (Temos de supor que chegamos ao final de uma longa
peroração.) — A beleza é um valor absoluto; em si mesma já é completa, não
precisa consentimento. — Faz uma pausa, pensa um pouco, e complementa com ar
científico: — Este rio existe muito antes do primeiro homem surgir na Terra e
desde sempre espelha o céu estrelado, ainda que ninguém o veja.
— Temos,
pois, sorte de aqui estarmos esta noite.
— Sorte já
tivemos desde manhãzinha — sorri o mano velho — quando pescamos um pintado e
dois dourados!
Eu e tu,
cara amiga, em nossa pequena viagem, vimos encontrar estes irmãos à beira do Paraguai,
hospedados no rancho do deputado Pessoa; a seus pés, o rio de águas mais
límpidas que já tinham visto: de dia, azul, de noite, negro. Afora o casal
empregado da casa, estão os dois sós. Haviam jantado um dos citados dourados,
preparado com um pirão dos deuses, obra da caseira Josefa, sertaneja merecedora
de um chapéu de Chef de cuisine. O
peixe fora tão generoso que bastou para fartar a ambos e ainda valeu para a
mulher e o marido, que se negaram a tomar assento na mesa dos hóspedes.
—
Agradecido, patrão, mas não é o certo — dissera a mulher pondo a mesa e
desaparecendo a seguir. Fora comer mais o marido no puxadinho do quintal.
Estão os
irmãos, agora, sentados na varanda do rancho com o rio a correr a seus pés. De
estômagos forrados, acalentados pela brisa morna que suaviza o frescor da
noite, mentes calmadas pelo murmulho hipnótico das águas, ambos se encontram propensos
a divagar, pois é sabido que o caminho mais curto para se filosofar é uma lauta
refeição — se não o disse, deveria tê-lo dito o velho Epicuro. Ainda mais se
acompanhada de generosos goles de uma cachaça da boa — dizemos nós. Não teria
sido in vino veritas a frase dos
romanos se eles tivessem tido a sorte de conhecer nossa “marvada pinga”. Per Baco!
Pois é neste
momento de bem-aventurança que vimos surpreender os irmãos, já no meio de filosofias.
Há que se prevenir, contudo, que os goles etílicos escorropichados durante o
jantar podem ter ultrapassado os limites do razoável, sendo possível que os
levem a elucubrações capazes de descarrilar o trem do bom senso. Seja como for,
ainda que sobrevenha este desastre, estaremos nós longe o bastante para não
sofrer consequências. Convido-te, pois, a continuarmos a ouvir a conversa, quem
sabe alguma coisa boa dela virá.
— Veja este
céu, Beto! Veja e aproveite, que outro igual só no deserto do Atacama. Longe
das luzes da cidade, despido de nuvens e sem Lua, o ar diáfano não consegue
esconder o negrume da noite — e as estrelas aproveitam para se exibir despudoradas.
— E por
mais que elas tentem, Tonho, não conseguem rivalizar com a pretura do céu, a
não ser nesse cinturão de poeira que é a Via Láctea. O Universo inteiro, mano,
é um imenso buraco negro, e as estrelas...— Alberto se interrompe por um
instante e arremata gargalhando: — as estrelas são a sua catapora!
— E você
não tem medo, Beto?
— Medo de
quê? De pegar catapora?
—Medo de
cair nesse buraco sem fim.
— Como
assim? – estranha o mais velho.
— Nós
vivemos permanentemente à beira do abismo — explica Antônio. — Só não caímos nele
porque somos protegidos por uma lei.
— Como
assim? — volta a perguntar Alberto.
— Você
mesmo acabou de falar que o Universo é um imenso buraco negro. Pois não estamos
nós à beira desse abismo? Temos um precipício acima de nossas cabeças; o que
nos impede de ser tragados é a primeira das leis, a Lei da Gravidade. Não fosse
ela, que nos prende à Terra, que segura firme nossos pés, estaríamos todos a
cair no abismo, rodopiando até o fim dos tempos.
Um calafrio
percorre a espinha de Alberto, que desde criança sempre tivera medo de altura.
Instintivamente ele leva as mãos a uma pequena palmeira plantada ao lado da
varanda e, segurando-a firmemente, suplica:
— Tonho,
vamos mudar de assunto, falar de outra coisa. Que tal dos peixes que estão
dormindo debaixo dessa água e nem se dão conta das estrelas que por cima boiam?
— Foi bom
lembrar! — sobressalta-se Antônio — Precisamos preparar um balde de minhocas
para eles!
Levanta-se
e vai buscar uma enxada.
Lá estão os
dois, agora, machucando a margem do rio.
E assim,
mais uma vez, a filosofia é derrotada pela vida prática.
— Melhor
voltarmos!
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