Todo exemplar da espécie humana tem
marcadores que o definem e que servem para torná-lo único: um indivíduo! Que é
diferente de todos os outros, irremediavelmente distinto, ostentando o galardão
de que a Natureza todo-poderosa, ainda que para isso gaste a eternidade
inteira, ainda assim, não conseguirá produzir outro igual. Somos únicos. E cada
um de nós é, em si mesmo, um universo de fatos e emoções que só pode ser
vivenciado por si próprio. Que desperdício, quanta riqueza teríamos se
pudéssemos usufruir do tesouro de cada um!
Registro abaixo dois fatos de meu
universo pessoal que ajudam a definir o homem que sou: a aposentadoria e a
segunda Faculdade. Faço-o por dois motivos, por não querer guardá-los
egoisticamente só para mim e para facilitar a vida de um possível futuro
biógrafo (Com Conan Doyle aprendi que o mais improvável costuma acontecer).
Quando aposentei passei um tempo sem
saber direito o que fazer. Creio que isso acontece com todo mundo: aquele monte
de horas disponíveis, o que fazer com todas elas? Hoje rio-me da pergunta e
chego a formular uma outra em seu lugar: como antes conseguia encontrar tempo
para trabalhar? Sou hoje um aposentado convicto, resultado de sólida
experiência (Leituras de Machado de Assis me revelaram um mundo cheio de
personagens, pleno de vida, onde nenhuma delas trabalha; estudos de História
demonstram que nas antigas Roma e Atenas os patrícios também nada faziam). Contudo,
naquele início de aposentadoria, encontrava-me inseguro com a inatividade, o
que acabou por me levar à Faculdade.
Resolvi fazer um curso de História,
matéria de meu agrado e que é das menos disputadas nos vestibulares da rede
pública. Assistir a algumas aulas toda tarde seria um modo inteligente de matar
o tempo, e pouco pesaria no orçamento, apenas a despesa de locomoção. Mas primeiro
tinha o vestibular, como iria enfrentar a concorrência da garotada, saída
fresca do ensino médio, enquanto eu, burro velho, fazia mais de trinta anos que
não frequentava bancos escolares? Eles, com tudo limpo na cabeça, eu,
procurando respostas no emaranhado de teias de aranha, na escuridão sepulcral
de neurônios cansados?
— E daí? – matutei comigo mesmo, não
tinha a pressa da necessidade. – Quem não arrisca não petisca!
Seria de melhor gosto se tivesse
dito: “Seja o que Deus quiser!” No entanto, já era eu, então, além de austero
aposentado, um agnóstico também convicto.
As provas do vestibular foram
marcadas para um domingo e lá fui eu, manhã de sol, destino bairro do Ipiranga,
empunhando a caneta, menos intimorato do que, anos antes, Dom Pedro sustivera a
espada às mesmas margens plácidas do ribeiro famoso. Subi com passo claudicante
a escadaria do colégio, atravessei corredores cheios de mocidade e, hesitante,
adentrei na sala de aula que correspondia ao meu número de inscrição. A classe,
quase cheia, deixava transbordar o alarido típico da juventude, que foi logo
interrompido assim que passei pela porta. Todos voltaram o olhar para mim,
talvez imaginando fosse o fiscal da sala. Invoquei um resto de ânimo e ordenei
às minhas pernas bambas que me levassem até um banco lateral, junto à parede, o
lugar menos em evidência que pude vislumbrar. Sentei-me, fechei os olhos e
fingi estar só, ninguém chuta cachorro morto. Passado o espanto, renasceu um
burburinho, que logo voltou a ser alarido. Pronto, tinha passado pela prova
mais difícil!
Quando saiu o resultado dos exames
fui olhar meio desconfiado. Não é que fora aprovado? Fui, então, providenciar a
matrícula receoso: seria vítima de algum trote? raspariam meus cabelos? voltaria
para casa todo pintado de “bicho”? Nada disso aconteceu. Creio que me julgaram
pai de calouro com procuração, ou me perdoaram pelos cabelos brancos.
As aulas vespertinas revelaram-se
agradáveis, os textos de leitura, suportáveis e os colegas de classe,
intragáveis, bichos-grilos oriundos talvez de algum astro de além Marte, com
exceção da bela Maju, figurinha de leve estampa, seguramente vinda de Vênus.
Afeiçoei-me logo à menina e comecei a chamá-la de Cachinhos Dourados. Não sei
bem por quê, se foi pelo corpo delgado, pelo sorriso infantil, ou mesmo pelo
cabelo loiro revolto que lhe dava à feição um quê de história da carochinha, o
fato é que a garota me fez lembrar do conto da família ursa. Quando lhe revelei
a razão ela sorriu contente, gostou, sentiu-se lisonjeada, só pediu que não a
chamasse desse jeito na frente dos colegas, que não entenderiam. Ficou assim:
Maju, em público, Cachinhos, quando sós. Nosso segredo.
Era, a menina, uma pequena notável,
inteligente, bem-humorada, cursava jornalismo na Cásper Líbero e fazia também
História para cultura geral; o jornalista, afinal, achava ela, deve conhecer o
que foi para bem avaliar o que é e, quem sabe, adivinhar o que será (Era
filósofa, também!).
Tínhamos nós uma boa convivência,
fazíamos trabalhos juntos, quase sempre eu mais que ela (assoberbada, não
tinha, coitada, tempo disponível); quando um de nós faltava, o outro assinava a
lista de presença; discutíamos os temas mais difíceis para nem sempre chegarmos
a uma mesma conclusão, comprovando, assim, aquilo que Sócrates sempre dizia ao
moço Platão, o de ombros largos: perguntar é mais importante que responder. Em suma,
éramos tão ligados que até parecia que um não podia viver sem o outro.
Um dia, a fim de fazer um trabalho
especial, convidei Cachinhos Dourados a vir em casa. Não devia ter feito isso.
Não é que Bebel, vendo-nos tão próximos, com tanta intimidade, muitos sorrisos,
deu de enciumar? Não tratou mal a moça, pois é boa anfitriã, mas ficou longe de
tratá-la bem. Maju, que não a conhecia, nada percebeu, pois não tinha paradigma
de comparação, mas eu, que com ela convivia por mais de vinte anos, notei na
hora: Bebel, que sempre recebera com simpatia, não chegara ao extremo da má
educação, mas mostrou-se fria e reticente; eu, que esperasse o fim da visita,
iria ouvir poucas e boas, na verdade, mais que poucas e menos que boas. Deixei
para depois a instauração do conflito. Lá fora, o sol da tarde não prenunciava
o mau tempo que viria a seguir, generoso, distribuía raios quentes para quem
quisesse.
Ainda que perdida a naturalidade,
consegui levar a situação com alguma segurança: terminamos o trabalho acadêmico
sem conflitos, trazendo, a nosso juízo, alguma abordagem nova ao tema proposto,
o que de fato se confirmou na semana seguinte com a aprovação elogiosa do
professor da matéria.
Terminado nosso pequeno ensaio,
Cachinhos Dourados deteve-se diante de minha estante examinando com interesse
os livros perfilados; parou diante da coleção de História Geral da Civilização
Brasileira e pinçou “A Época Colonial”, 2º volume. Pegou o livro, deu uma
conscienciosa foleada e me perguntou:
— Me empresta? Tenho um trabalho na
Cásper e este livro pode me ajudar muito.
Se há uma coisa que não gosto de
fazer é emprestar livro, quase sempre ele vai e quase nunca ele volta. Mas com
Maju era diferente, o que não faria eu para agradar aquela menina de cabeça
dourada? Subjuguei minha rabugice e respondi sorrindo:
— Mas claro, pode levar!
Depois que Cachinhos Dourados foi
embora, começou para mim uma sessão de descompostura. Bebel cismara que entre
mim e a menina havia alguma coisa além de amizade escolar. Ela tinha razão.
Expliquei que havia mesmo, que nutria pela garota uma afeição paternal, que,
diante da figurinha frágil e inocente, assumi sem querer uma atitude de
protetor, e que qualquer manifestação de carinho entre nós deveria ser entendida
por esse parâmetro. Fui enfático e cheguei a me mostrar ofendido pela
desconfiança; contudo, apesar de inocente e do vigor que essa certeza costuma
revestir os argumentos, não sei se Bebel terminou convencida. Aliás, como sói
acontecer quase sempre, não é dado a nós, degredados filhos de Adão, descobrir
o que passa pela cabeça desse ser oriundo de nossas costelas. Por via das
dúvidas não mais convidei Maju a vir em casa.
Discreta e educada, a menina não fez
nenhum comentário sobre a visita efetuada. Continuamos a nos relacionar como
sempre, com naturalidade e com o afeto costumeiro. Ainda bem que minha
Cachinhos Dourados, pensava eu, ao contrário da historinha dos ursos, havia
entrado em minha cabana com cuidados, não quebrara a cadeira onde sentara,
tomara civilizadamente o chá servido (enquanto a outra roubara o mingau que
esfriava) e – graças aos céus! – não deitara em minha cama... Histórias
modernas nem sempre coincidem com antigas lendas. Ainda bem.
Passado um tempo, Maju começou a
faltar mais que o normal nas aulas de história e explicou que o curso de
jornalismo vinha exigindo muito de si, absorvendo todo seu tempo. Foi rareando
cada vez mais sua presença e acabou por desaparecer de vez. Senti a falta da
menina como um pai sente a da filha que sai de casa para ganhar o mundo. Para
piorar, não tinha nem mesmo o endereço dela e não iria cometer a ação invasiva
de procurá-la na própria Cásper. Fui levando, embrulhando a mágoa da ausência
com o manto do tempo, como aprendera a fazer com as vicissitudes da vida. O
tempo é a panaceia que cura as dores do mundo.
Nunca mais vi Cachinhos Dourados,
nem soube dela. Inteligente, deve ter tido sucesso na carreira, se é que
continuou no jornalismo, pois é notório que a vontade da juventude é como
biruta de aeroporto: vira conforme o vento sopra. Seja como for, sucesso terá
no caminho que lhe coube. Que o vento lhe sopre suave!
De minha parte, superei a separação
e hoje, quando lembro da menina, mesclada de alguma melancolia vem a recordação
de boas horas vividas. Sorrio, então, ainda com um resto de saudade. Se, porém,
olho na estante e vejo a falta do 2º volume de “A Época Colonial”, aí sinto
raiva.
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