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O ESPELHO DO BRUXO

            Há controvérsias! Uns dizem que Machado de Assis inventou a história de seu conto O Espelho, outros afirmam que ele a recebeu de um informante. Sei eu, de fonte segura, que existiu não só o primeiro, mas também um segundo informante, que lhe trouxe um relato um tanto diferente, mas que, por ser menos fantástico, não recebeu aprovação do Bruxo do Cosme Velho. Não quero pôr em dúvida o acerto da escolha do venerando mestre, contudo, julgo eu, uma justa curiosidade deve surgir no leitor que do caso tome conhecimento. Por isso me proponho a trazer à luz essa história.
            A segunda versão não chega a invalidar a tese das duas almas, mas contribui para enfraquecê-la, de vez que não comprova a existência da alma exterior. Não invalida, mas cria a dúvida. Se o leitor se recorda, no conto de Machado o personagem Jacobina afirma a três amigos a existência de duas almas para cada um de nós: a alma interior, que de dentro do corpo olha para fora e a alma exterior, que está fora do corpo, mas que ainda nos pertence. Da primeira sempre tivemos conhecimento, embora, erroneamente, a julgássemos única; da segunda nem desconfiávamos da existência e ficamos surpresos com a revelação. Os três amigos também ficaram. Jacobina, então, explica que é a alma exterior que costuma comandar nossas ações: a do usurário é o dinheiro, a do artista, o aplauso, a do político, o poder etc. etc. Para confirmar tudo isso conta o caso que lhe sucedeu quando tinha a idade de vinte e cinco anos.
            Recém-admitido no posto de alferes da guarda nacional, já de posse do fardamento, recebeu ele cumprimentos vários, alguns com “alegria sincera e pura”, como de mãe, primos e tios, outros, de “alguns despeitados”, dado que houvera muitos candidatos ao posto não aproveitados. Os familiares e os mais chegados exigiam vê-lo trajando a farda e a mãe, em especial, deu de chamá-lo “o seu alferes”, todos orgulhosos do grande feito. Tia Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava em um sítio distante, escreveu que queria vê-lo e que levasse a farda consigo. Jacobina atendeu ao pedido da tia, que o recebeu com muita festa e passou a chamá-lo, ela também, de “o seu alferes”; abraçava-o e dizia-lhe ser o rapagão mais bonito da província, no que era secundada pelos escravos da propriedade, que lhe dispensavam, também, bom tratamento. Nem seria de esperar coisa diferente, pois os escravos são o segundo espelho dos amos (já que estamos falando de espelhos julgo não inoportuna a lembrança). Recebeu ele a honra de ser instalado no melhor quarto da casa, o mais amplo, mais bem mobiliado, com o luxo de alojar um grande espelho, que pertencera a uma fidalga da corte de Dom João VI.
            Até aqui os relatos dos dois informantes coincidem; passam a divergir a seguir, o que nos faz recordar do aviso de que quem conta um conto aumenta um ponto. Falemos primeiro da história aproveitada por Machado. O leitor há de ter na memória que a tia Marcolina recebeu, na ocasião, a notícia grave de que estava doente e à morte uma de suas filhas, moradora a algumas léguas de distância. Mãe extremosa, partiu célere, mas antes pediu a Jacobina que ficasse e tomasse conta do sítio em sua ausência.
            Ficou, pois, o moço só. Partira a grande aduladora de sua alma exterior e ele sentiu o golpe, viu-se de uma hora para outra abandonado, isolado, triste. Não lhe bastou a bajulação hipócrita dos serviçais naquela primeira tarde solitária; dormiu mal. Quando acordou, na manhã seguinte, os escravos tinham fugido. Jacobina correu a propriedade e não encontrou vivalma, nem mesmo um molequinho sequer, só galinhas, um par de mulas filósofas e três bois; até os cães tinham sumido.
            Isolado, só, solitário, os dias iam aumentando sua depressão. Só tinha alívio quando dormia, aí sua alma interior assumia o comando e ele sonhava que vestia a farda e recebia os elogios da família e dos amigos. Ao acordar, porém, voltava a se deprimir. Ficou dias sem olhar no espelho, teve medo do que veria. Ao cabo de oito dias, porém, quis se ver, olhou e enxergou uma figura “vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”. Era o reflexo de sua alma exterior, que esmaecia. Sentiu-se mal, enlouquecia; quis fugir. Uma inspiração lhe acudiu: pôs-se a vestir a farda de alferes. Concluída a ação a figura no espelho tornou-se nítida outra vez. Sua segunda alma tinha voltado.
            Este é o primeiro relato. Vamos agora ao segundo, inédito.
            Até o recebimento da má notícia sobre a filha de Marcolina, as versões são iguais; a partir daí é que há as divergências assinaladas na primeira frase deste raconto. Mãe prestimosa, Marcolina decidiu mesmo viajar em socorro da doente; no entanto não o fez de imediato. Naquele tempo ninguém viajava à noite. Como pia senhora que era, aproveitou a noite de véspera e fez rezar um rosário, ela e todo seu povo, nele incluído nosso Jacobina. Deu-se a função em prol da enferma no quarto maior da casa, aquele em que o moço dormia, por nele caber com conforto toda a gente. Trouxeram lampiões para alumiar a devoção, e um deles foi colocado bem próximo ao espelho. Ora, quinze painossos acrescidos de mais quinze aves-maria, puxados com pungência pela voz condoída de tia Marcolina, comeram um bom quarto da noite de vigília, tempo este sempre alumiado pelos fumarentos candeeiros. O resultado, que ninguém percebeu na hora, foi tornar esfumaçado o espelho, num embaçamento que rivalizava com a pátina que os anos pintara em sua moldura. Perdia, assim, o vidro seu poder de reflexão, mas ganhava em troca o testemunho da veneração da matriarca.
            Como anteriormente dito, Jacobina acordou sozinho na segunda manhã seguinte, com a escravaria fugida, e sofreu com a solidão sentida. Era moço mimado, acostumado a rapapés e, na falta de lisonjas, entrou em depressão. Desnecessário pormenorizar de novo aquilo que lá trás já ficou assente. Atravessou dias sem se olhar no espelho e, quando o fez, viu sua figura embaçada, enevoada, com contornos difusos. Tão transtornado estava que não atentou para a peculiaridade da sujeira de fumaça que cobria toda a superfície do espelho. Jovem que era, não sabia ainda que o mundo se compraz em pregar peças ao gênero humano. Sentiu que seu ser se desvanecia, que entrava em processo de desaparecimento. Ensandecido, quis fugir, afastar-se daquela imagem evanescente. Atravessou trôpego o quarto grande, alcançou o corredor e correu até à sala de visitas; abancou-se ao lado da mesa, apoiou a cabeça no braço e chorou. Soluçava baixo, pois não tinha mais força para fazê-lo alto e, por isso, o ruído do soluço não o impediu de ouvir barulho de vozes na frente da casa. Alguém chegava. Recompôs-se rapidamente e foi abrir a porta.
            Tia Marcolina voltava com seu pequeno séquito. O Sol ia baixo no horizonte, pintado de vermelho pela poeira do ar, a mesma que tingia de amarelo as roupas da comitiva. Vinham de rosto cansado depois de um dia inteiro de viagem.
            Jacobina abraçou a tia como um náufrago agarra o pedaço de pau que encontra boiando. O alívio de ver a parente, depois de tantos dias de solidão, destravou os frágeis nós da resistência que ainda tinha, e o soluço que pouco antes reprimira voltou sôfrego.
            — Meu filho, o que tens?
            — Levaram tudo, minha tia, roubaram até minha alma!
            — Como assim?
            — O espelho, minha tia, o espelho!
            Marcolina, vendo o olhar desvairado do sobrinho, sentiu que primeiro tinha que acalmar o moço:
            — Aquieta-te, menino! Benê vai ver o espelho... – Com os olhos fez a ordenação e o escravo se abalançou ligeiro. – Agora conta tudo, devagar, devagar...
            Jacobina, com tatibitates e soluços, relatou o ocorrido desde a partida da tia, terminando na terrível experiência do espelho:
            — Ele está roubando minha alma, tia! O espelho me reflete como se eu fosse um borrão...
            Nesta altura da ladainha volta o negro Benê e Marcolina interrompe o sobrinho com um gesto de mão.
            — Dize, Benê, o que encontraste?
            — O quarto mal arrumado, Sinhá, todo em desordem.
            — E o espelho?
            — Sujo, Sinhá, enfumaçado.
            — Pega um pano com água e dá um jeito nisso. Por enquanto, menino, vens comigo até o banheiro, tomas um banho bem esfregado de bucha para que tires essa sebeira. E tu, Maria, vai buscar o fardamento mais roupa de baixo.
            A dona da casa voltara e, autoritária, punha ordem nas coisas. Todos fizeram o mandado e até mesmo o que esquecera de mandar: o outro escravo, de nome Tião, apressou-se de ajudar o companheiro e, enquanto um limpava o espelho, o outro acertava com a arrumação do quarto grande, de tal forma que, quando Sinhá entrou no aposento acompanhada de Jacobina, todas as coisas, devidamente limpas, estavam em seu lugar e o espelho velho, reluzente como se fora novo.
            Marcolina carregou o moço até o espelho, ainda que houvesse alguma resistência – o sobrinho demonstrava medo de se ver de novo, mais que isso, medo de não se ver quando posto em frente do cristal, de não ver nada, da alma já ter partido. Contudo, sua juventude ainda verde não era páreo para a força moral da matriarca.
            — Vê, menino, abre os olhos e vê! Ainda és “o meu alferes”, com o garbo que Deus lhe deu.
            Jacobina abre os olhos e vê a imagem refletida: nítida, inteira, luminosa, apenas o rosto ainda ensombrecido, mas só de início, porque a luz irradiada pela farda de alferes da guarda nacional em pouco vai clareando as feições do moço até arrancar-lhe um sorriso, igualmente luminoso.
            Fique agora, leitor, com as duas versões e escolha a que mais lhe agrada, verossímil ou não. Afinal, para que serve a verdade?


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