Pular para o conteúdo principal

MEDO DE ÁGUA FRIA

            O velho olhou-se no espelho e não se assustou, acostumado de ver aquela decadência toda manhã. Quando se chega aos oitenta qualquer viço de juventude foge para detrás das orelhas, é inútil procurar em qualquer sítio do rosto, o que se vê é o nariz dia a dia maior e as orelhas crescendo como velas a sotavento. Por que tem de ser cruel a natureza, por que produz essas deformações, não bastaria a rede de sulcos na pele e os tufos de pelos a sair de narinas e ouvidos? Não seria isso suficiente para afirmar: - Eis aqui um velho, ECCE HOMO! Mas não, eis que as orelhas viram abano e o nariz, uma batata. E para onde foram os cabelos, cadê o topete negro de brilhantina a moda Elvis, quando foi que se perdeu? A memória fraca de muitos anos já não lembra mais, agora o que se vê é uma testa sem fim, leitosa e pintalgada como o couro de um dálmata; o que antes fora uma floresta negra hoje não passa de uma caatinga crestada. O homem, porém, não se queixa, é um otimista. Quem não se conforma é este narrador, seguramente mais sensível que ele e provavelmente menos sábio... E que deveria se manter calado, como manda seu ofício.
            O espelho é amplo como o banheiro e reflete o velho e os azulejos claros das paredes; reflete também a figurinha de Chiquinho, o neto que acabou de chegar. É domingo, não tem escola. Há uma boa semelhança entre o avô e o neto: ambos têm o número oito na idade, a diferença é que o avô possui também mais um zero, enquanto o menino fica só no oito.
            O moleque é chegado ao avô e o velho se derrete por ele; nunca imaginou que isso pudesse acontecer com ele, tão firme e sisudo, sempre senhor de si. Não adiantou nada, o neto quebrara todas as barreiras, rompera os diques, invadira os quatro flancos e conquistara a fortaleza; o homem afinal se rendera e vivia subjugado.
            Nessa condição estava ele ali, agora, fazendo a barba, observado pelo curioso infante. Enquanto raspava o rosto mecanicamente mirava pelo espelho o pequeno; este, muito novo para disfarçar – ainda não aprendera a esconder as emoções – exibia cara de cachorro pidão. O avô logo entendeu o que ele queria: fazer a barba também. Terminando que estava a sua, tomou do pincel e ensaboou a cara do menino; retirou a lâmina do aparelho e o deu ao ansioso companheiro: - Sua vez!
            O neto explodiu em alegria, com a naturalidade que só as crianças conseguem fazê-lo e, sofregamente, começou a se raspar.
            - Devagar, mais devagar – advertiu o avô.
            Enquanto o menino se barbeava o homem se pôs a enxaguar o próprio rosto; enchia as mãos na torneira e nele jogava a água para retirar os restos de espuma; não satisfeito repetia a ação várias vezes e, ainda não contente, enxaguou a testa até o topo da cabeça encharcando os poucos tufos de cabelos brancos. Fazia tudo com evidente gozo. Gozo que não passou despercebido ao atento neto:
            - Você não tem medo da água fria?
            A pergunta inocente paralisou o velho por um momento; alguma coisa faiscou em sua mente lançando uma débil luz sobre uma imagem do passado. Olhava sua figura no espelho, água escorrendo pela face e procurou os olhos para se identificar, mas os encontrou perdidos, desfocados, como se mirassem o infinito; a imagem toda ia se dissolvendo, os traços se esfumando até adquirir novos contornos. Aos poucos uma nova paisagem foi se revelando; não estava mais no banheiro, mas sim no quintal da casa antiga; o velho já não era mais ele, agora era o avô João, o galego brabo de sua infância; como fazia todos os dias, estava se lavando no tanque de cimento, a cabeça envolta na espuma do sabão de cinza de tia Mariela. A pouca distância um menino franzino espreitava o velho. Reconheceu-se imediatamente, era ele próprio, aos oito anos. Ainda que desfocada a cena, a memória clareava os detalhes: a água jorrava nítida da torneira do tanque e o avô espanhol nela mergulhava a cabeça com gosto; parecia sentir prazer dentro da água fria. A cada novo mergulho do avô o menino sentia um arrepio na espinha, espremia os olhos e entortava a boca num esgar.
            - Vô, o senhor não tem medo da água fria?
            A mesma pergunta, sete décadas atrás, diferindo apenas no pronome de tratamento! Excetuada a pátina do tempo, que parecia encobrir toda a cena, o que sobressaía era a realidade idêntica que se repetia tanto tempo depois: a mesma situação, as mesmas personagens, a mesma pergunta, como se fossem duas tomadas de um mesmo filme submetidas à escolha do diretor. A mesma água jorrando da torneira...
            O velho fora do espelho volta a si num estremeção, e fecha a torneira; não se deve gastar água à toa. Olha para o neto expectante, que aguarda resposta, e sorri filosoficamente:
            - Um dia, daqui a muitos anos, você também, Chiquinho, vai gostar de água fria.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...