Pular para o conteúdo principal

O ENGENHOSO FIDALGO E SEU ESCUDEIRO

            — Triste o país que precisa de heróis! – exclamou o homem sábio, e se pôs a divagar sobre isso. O homem do povo o escutava com atenção, não é sempre que tinha uma oportunidade como essa. De poucas letras – mal-e-mal havia sido desasnado pela professorinha – pouco mais da metade entendia do que o homem falava, mesmo assim já era muito, acostumado que estava a só ouvir o cacarejar das galinhas e, vez por outra, o zurrar lastimoso da mula Zenaide. E o homem falava; contava que um povo feliz não precisa de heróis, que barriga cheia e saúde boa são suficientes para garantir uma noite de sono. Só precisa de heróis o povo que não dorme bem e, assim mesmo, um domingo na igreja muitas vezes resolve o caso dos insones. A absolvição do pecado costuma trazer de volta a paz perdida.
            Contudo, se a fome se instala na cozinha e o frio espreita pela janela, aí sim o povo vai precisar de um herói. Mas ainda antes recorre ao poder altíssimo e só se lembrará do herói se suas súplicas não forem atendidas. Não que desespere da ajuda divina que não vem, afinal crente ele é e confia que cedo ou tarde será socorrido. É da natureza humana, porém, que, ao descer um rio caudaloso, o navegante prefira estar firmemente apoiado em um bote, mas sempre com o pé em outro.
            E assim o homem sábio, depois de puxar um pigarro, concluiu:
            — Por isso é que o povo que sofre precisa de um herói!
            O homem do povo, boquiaberto e embasbacado com tanta sabedoria, apenas balbuciou:
            — E como a gente consegue um herói?
            O homem sábio sorriu e começou uma nova peroração. Explicou que em muitos lugares os heróis existem em borbotões, são oferecidos ao povo como as laranjas nas feiras livres: de baciada. Aí é só escolher: um esportista, um artista, um político, um guerreiro, um mártir etc. Estas são as nações que têm sorte, heróis de todos os tipos, para todos os gostos. Mas há, por outro lado, povos tão pobres que até heróis lhes faltam. Então, neste caso, há que fabricá-los, trabalho atribuído a escribas solitários que os inventam. Não importa ao povo se o herói é verdadeiro ou fictício, um ou outro será usado com o mesmo sucesso.
            Ante a expressão de surpresa que neste momento fez o homem do povo, o homem sábio resolveu partir para exemplos. As mentes menos qualificadas adoram exemplos. Não basta dizer que um objeto está quente, elas só acreditam se nele puserem a mão.     — Há quatro séculos – continuou o homem – um escritor espanhol resolveu fazer um livro de histórias de cavalaria, como era comum na época, gosto que conseguiu sobreviver até os dias de hoje, camuflado, é claro, com naves espaciais e armamentos supersônicos. Dois personagens dessa história caíram tanto no gosto popular que conquistaram até hoje o panteão dos heróis. Às vezes se invoca um, como exemplo, às vezes, o outro. O mais famoso deles é um engenhoso fidalgo manchego, de triste figura, magro como um varapau, que, acometido de uma febre cerebral causada por excesso de leituras, resolveu sair pelo mundo como cavaleiro andante a buscar aventuras, desfazendo todo gênero de agravo. Desarranjado de ideias, mal armou-se, selou seu esquálido pangaré e se lançou à caça de gigantes, para honra e mérito de sua amada senhora e musa, de doce nome. Fez-se acompanhar de um camponês vizinho, elevado à categoria de escudeiro. Gigantes enfrentou logo no início de suas aventuras e por eles foi fragorosamente derrotado, enquanto o fiel escudeiro gritava:
            — Não, mestre, não são gigantes, são moinhos de vento!
            Não! Em sua loucura eram gigantes, que sorrateiramente foram, por mágica perversa, transformados em moinhos.
            Alquebrado mas persistente o herói continuou buscando aventuras, a defender os fracos, sempre lutando pela boa causa. Quase nunca teve sucesso, mas a alma era pura e pura se manteve por detrás de tanta loucura.
            O escudeiro, contudo, embora de louco não tivesse nada, possuía uma cabeça pouco desenvolvida e, de tão simples que era, se não acreditava inteiramente nas aventuras malsucedidas, cria piamente na promessa de seu cavaleiro. Era ela a de que um dia, ao conquistarem uma ilha, a posse dela seria cedida como prêmio ao fiel escudeiro. Sonhava ele, portanto, em ser governador de sua ilha, e este sonho lhe bastava para seguir nas labutas malferidas. Como se vê, a humanidade sempre foi e continua a ser a mesma, ao povo simples basta que se lhe acene com um pote de ouro no fim do arco-íris.
            E assim – continuou o homem sábio – foram criados estes dois heróis: um, magnânimo, buscando a perfeição de um ideal tão puro que nunca chegou a ser maculado por sua loucura; ao contrário, o desvario somente o fez sublimá-lo. Em contraponto temos o herói de pé no chão, o aldeão que não busca fama, mas barriga cheia, não luta em prol de uma musa dama, mas pelo leite de sua ninhada, não sonha com a glória de seu nome e sim com o conforto de uma quimera que há de vir.
            Terminada a falação, o homem sábio aguardou uma palavra do ouvinte. Este, no entanto, permaneceu calado, rosto crispado, o olhar febril, todo semblante alterado pelo esforço inaudito de pensar. O homem é um animal racional, mas nem todos os seus espécimes a isso estão habituados. Alguns minutos decorreram antes que ele tartamudeasse, inseguro:
            — Pois olha, doutor, de herói eu escolho o escudeiro; sempre tem uma ilha no futuro...
            O homem sábio riu de novo. Não esperava outra coisa.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

PIMPOLHO NASCEU

  Foi anteontem, 31 de janeiro de 2026, que o Pimpolho nasceu. Foi parto natural, pouco depois das 3 da tarde, peso e tamanho normais. Pouco antes, lá pelas 2 horas, fomos avisados que nossa filha Mariana estava entrando em trabalho de parto. Miyako e eu pegamos um Uber e fomos para a Maternidade. Estivera minha mulher há cerca de uns vinte anos na mesma Pro Matre, ali na região da Paulista, para uma cirurgia. Quando o carro parou estávamos diante de um conjunto de prédios modernos; que fim levara aquele prediozinho antigo? É o progresso! sentenciou ela. Informaram-nos que o quarto de Mariana era o 669. Em lá chegando, depois de algumas peripécias labirínticas, vimos que a porta estava trancada e não havia ninguém dentro; estava vazio. Por uma atendente próxima soubemos que nossa filha devia de estar em outro andar, onde aconteciam os nascimentos. Identificados como pais, a atendente ofereceu-nos a chave do 669 para que lá aguardássemos.        ...

PENUMBRA

            A Lua Cheia e a Noite são duas velhas senhoras e como tal devem ser respeitadas. Enquanto a Noite, dissimulada, esconde em seus escuros os sinais da idade, a Lua só faz isto em ocasiões de plenilúnio, quando a luz chapada que do Sol recebe permite algum disfarce. Contudo, basta surpreendê-la nos primeiros crescentes, ou nos últimos minguantes, e as marcas da antiga varíola se fazem notar em sua epiderme.             Embora velhas e diversamente vaidosas elas se gostam e, quando se encontram, dão-se a folguedos como se fossem duas gurias. Dançam pelo ar, onde se escondem atrás de nuvens distraídas, bailam pelo chão levantando poeira, brincam de esconde-esconde. O escuro da Noite, quando flagrado por algum raio de luar, derrete-se em penumbra e vão então, luz e penumbra, desenhando figuras de coisas e gente. Às vezes algum Vicente, à beira de mares mediterrâne...