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PITECANTROPO

            Encontrei Pitecantropo ao entardecer de um dia de março, há alguns anos. Calei-me até agora por duas razões: respeito aos motivos dele e horror que tenho a qualquer tipo de notoriedade pessoal. Sou de temperamento eremita, avesso a holofotes.
            No entanto, nestes poucos anos, venceu-me a obrigação de compartilhar com o mundo minha descoberta. Enquanto em Java uma calota craniana, um fêmur e alguns dentes foram escavados por Dubois, tive eu o privilégio de ver o indivíduo em carne e osso, respirando, como eu o mesmo ar quente e úmido de Mato Grosso.
            Estava eu embrenhado naquelas ermas matas com o objetivo único de pescar alguns dourados, não para comê-los todos, apenas um, os outros ia devolvendo às águas claras, numa demonstração não filmada de meu respeito à mãe natureza. Estava, pois, à beira do rio, absorvido em devaneios íntimos, como sói acontecer com todo pescador, quando avistei seu vulto a jusante, também pescando. Meu cérebro adormecido custou a despertar, talvez por julgar não fosse aquela visão senão a de outro aficionado a pelejar com as águas. Mas o corpo apoucado e a abundância de pelos da figura fizeram com que o preguiçoso órgão despertasse de todo, trazendo-me a consciência plena do inusitado. O que era aquilo, um menino pescando com um casaco de peles? Os quarenta graus da mata, porém, foram suficientes para o cérebro sacudir a ideia obtusa. Olhando melhor, vi que não se tratava de nenhum casaco, mas sim de um corpo peludo que o menino tinha. Olhando melhor ainda, percebi que menino não era ele, dado a possante musculatura dos braços e a carnadura das pernas, curtas e grossas. Um terceiro exame, mais minucioso ainda, revelou a surpresa final: a cabeça do homem não era humana, ou melhor, não era totalmente humana, parecia ser uma mistura de homem e macaco. Embora arqueólogo de ofício, custei a me render à evidência, numa prova de que os preconceitos que carregamos muitas vezes cegam-nos os olhos e os impedem de ver o que é real. Estava eu diante de um exemplar vivo do Pitecantropo! Vivo!
            Não é à toa que meu cérebro demorou para aceitar o fato. Rememorando hoje a cena, posso mesmo me vangloriar da eficiência desse órgão meu. Outro cérebro, de outra pessoa, duvido que aceitasse a realidade em tempo mais curto. É que sou, por natureza, um cientista de mente aberta, acostumado a encarar os fatos como eles são. Não os escamoteio e nem os jogo debaixo do tapete quando contrariam teorias sólidas. Foi como tentei agir então.
            Após beliscar-me meia dúzia de vezes, já ciente de que estava em estado de vigília e não em um sonho surreal, sofreei meu alvoroço e obriguei-me a agir com prudência. O cientista de mente cartesiana voltou a tomar conta de mim. Buscava uma maneira de estabelecer contato sem afugentar o sujeito. Sinto certa vergonha de dizer que não me valeram os anos passados nas melhores universidades do primeiro mundo. As aulas e conferências dos grandes mestres, as montanhas de livros digeridas, nada disso me trazia qualquer indicativo de ação. Foi então que, num lampejo, o pescador, que estivera momentaneamente descartado nas partes menos nobres do meu cérebro, lançou no quadro negro da consciência a fulgurante sugestão: o bicho está pescando, por que não tentar uma aproximação de pescador para pescador?
            O bom senso varreu o cientista de minha cachola e assumiu o comando. Dentro da caixa de isopor descansava o meu dourado, pescado havia meia hora. Morria ele em paz, ciente de que era o melhor a fazer. Com movimento lento aproximei-me do Pitecantropo segurando o peixe na mão, braço estendido no gesto de dar. Os olhinhos fundos dele faiscaram de susto, mas logo depois se acalmaram, mantendo apenas o brilho da avidez diante da suculenta oferta. Verdadeiro ser proto-humano, espécie de primo distante da escala darwiniana, seu olhar traiu sua condição de parente nosso. Tomou o peixe nas mãos e o levou ao nariz para avaliar o estado. Arreganhou os dentes num possível sorriso de aprovação. Pronto: a ponte estava lançada.
            O que se seguiu foi uma conversa de dois pescadores, como milhares que se dão, todos os dias, mundo afora. Não foi uma conversa fácil, pois ele se manifestava num idioma monossilábico de que não tinha eu o menor conhecimento. Um estudante secundarista talvez até pudesse supor fosse algum dialeto inglês, língua também monossilábica. Mas eu, linguista por obrigação, vi logo que se tratava de um idioma ainda mais primitivo. Tentei alguma coisa em tupi-guarani, que funcionou sofrivelmente quando complementei com gestos e mímica,
            Desnecessário dizer que a conversa foi penosa e manca, com avanços e recuos, absolutamente não linear. Contudo, para o fim deste comunicado, traçarei em linha reta os aspectos relevantes.
            Tem ele vida gregária, grupo de “muitos”, sem precisão numérica. Localização: “por aí”. Esporádicos contatos com tribos indígenas (provável origem de algum conhecimento da língua). Evita aproximação com o homem branco, “não bom”. Homem branco “põe fogo em floresta, mata todos bichos, mata tudo com bastão de fogo.” Homem branco “mata até homem branco; escraviza bicho boi, mata bicho boi e não come; põe bicho boi em cima de caminhão.” Homem branco “não sabe que todo bicho é bicho irmão.”
            Nunca tive eu tanto orgulho de minha raça, da pele preta e do cabelo pixaim de Angola. Talvez por isso pude ter o contato facilitado com o Pitecantropo. Ele não deve ter me identificado como “homem branco”. Ainda bem.
 


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