Descera ele em Cumbica tarde da
noite e ficara perambulando pelo aeroporto até amanhecer. Não valia a pena ir
para casa àquela hora, seria até perigoso. Está sem notícias há quinze anos,
não sabe mesmo se Sweden continua morando em Paraisópolis, no barraco levantado
com tijolos de demolição, lembra bem, muito vermelhos, pois cozidos duas vezes,
no forno da fábrica e pelo sol. Não sabe, também, do filho, que ia fazer dois
anos quando ele, pai, partiu para o Líbano. A mulher não queria que fosse, mas
conformou-se; como lutar contra um chamado da raça? O sangue de irmãos sendo
derramado todos os dias em ataques de Israel, em Gaza e na Cisjordânia, os
assentamentos judeus a invadir diuturnamente territórios árabes, Jerusalém
sitiada, quanta desgraça a afligir seu povo! Aquilo tudo, engolido um dia atrás
do outro, agia como uma úlcera que lhe devorava as entranhas.
Bem que, de início, resistiu à
tentação de partir; tinha uma linda mulher e um filhote amoroso, que mal
começara a balbuciar suas primeiras palavras. Abandoná-los, deixa-los à própria
sorte, machucava-lhe a consciência, mas não socorrer os irmãos massacrados,
doía-lhe mais. Neste embate de forças antagônicas a puxá-lo de um lado e de
outro, venceu, por fim, o clamor do sangue ancestral que lhe corria nas veias,
a herança de um povo milenar que permanecia escondida nos recônditos de sua
alma.
Partiu ele, pois, como um novel
guerreiro de Ítaca a lutar sua guerra de Tróia. Não à toa tinha recebido o nome
de Ulisses ao nascer; seu pai era um devoto de Homero.
Fosse predestinação ou simples
coincidência, partira ele, então, em uma viagem que supunha sem volta. Mas,
para cumprir o destino do herói homérico, assim o quiseram as Parcas fiandeiras,
cá está ele de novo, de volta para casa, depois de tantas batalhas travadas no
sul do Líbano. Traz, como troféu, a ausência do braço esquerdo, que ficou
plantado naqueles desertos do Golã. Vem ele para retomar seu reino, sua
Penélope e seu Telêmaco.
Sorri, ao lembrar o nome de sua
mulher: Sweden. Tão prosaica a história dele! O pai, ao ver a recém-nascida,
encantou-se com os cabelos enroladinhos da menina, ainda húmidos de óleos neonatais;
pareciam pequenas molas. Caminhoneiro que era, lembrou-se da fábrica
estrangeira, à beira da Via Dutra, e pôs na filha o nome dela, que produzia,
segundo a propaganda, “molas que nunca cedem”. Fiel ao nome recebido, cresceu a
menina mantendo e multiplicando as negras molas de sua cabeça, que, como um
adorno, emolduravam-lhe o rosto limpo, de olhar franco. O movimento gracioso
daqueles caracóis pretos, por seu poder de atração, fazia lembrar Medusa;
porém, invés de transformar em pedra o mortal incauto que lhe deitasse o olhar,
derretia-lhe a vontade aprisionando para sempre o coração. Complete-se a figura
com o corpo desabrochado, em carne e formosura, e teremos a estampa inteira de
mulata madura que subjugou os cinco sentidos de Ulisses, quando os dois se
encontraram pela primeira vez. E teria ela igualmente escravizado mais cinco
mil, se Ulisses os tivera tanto.
Como estará agora Sweden? Depois de
quinze anos sem notícia? Suporá, com certeza, ter ele morrido? Terá ela formado
nova família? Tido outros filhos? Tem um novo homem, ao qual se achega nas
noites frias? Mora ainda no barraco vermelho? E seu filho Telêmaco? Como estará
seu bebê, agora com quase dezessete anos?
Ulisses sabe bem que não tem direito
a nenhuma resposta de tantas perguntas. Perdeu ele qualquer direito quando
optou por sua particular guerra. Ao contrário do herói que lhe empresta o nome,
não pode exigir fidelidade de sua Penélope, nem lavar em sangue uma suposta
honra ofendida, afrontando algum ditoso pretendente que porventura tenha obtido
sucesso na conquista da amada. Pode, no entanto, sofrer com tudo isso. E já que
pode, sofre.
Vai ele, portanto, com o coração
confrangido, nesta linda manhã de sábado, o sol a colorir o mundo e todo mundo,
em desrespeitoso contraste com a sombra de seus olhos tristes. Vai Ulisses
alquebrado, passos lerdos, na antevisão da imaginada desilusão. Mas o coração
do homem não é racional, já o dizia o filósofo Pascal. A sombria desilusão,
talvez por efeito dos raios quentes do sol, vai ela também se colorindo aos
poucos e cedendo lugar a improváveis cenas de felicidade: sua Penélope terá por
ele esperado; não há pretendentes venturosos; Telêmaco, crescido e vigoroso,
anseia por conhecer o pai herói. São imagens cunhadas por um fiapo de esperança
evanescente, que, confirmando o ensinamento das sete psicologias, ainda têm
forças para somatizar seu efeito no andar de Ulisses, que passa a ser lépido,
quase saltitante, sobrolhos descerrados.
E assim, alternando cenas e andares,
sobrolhos leves ou pesados, chega ele a favela. Não se dirige, de imediato, ao
barraco vermelho, assunta a vizinhança. Se Sweden tem nova vida, ele partirá
sem dar notícia; ela nem saberá. Se, contudo, ela o estiver esperando, correrá
para abraçá-la.
Apura que a mulher voltou a estudar,
terminou o segundo grau e hoje faz faculdade. Não, não tem homem, pelo menos
ninguém a viu namorando. Telêmaco é agora um rapagão, ajuizado, vai prestar
vestibular.
Ulisses, que andava ora lento, ora
rápido, agora não anda mais, corre. Corre para o abraço.
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