Hoje quase não se usa,
mas houve o seu tempo. Tempo em que era eu um jovem acadêmico, quase meio
engenheiro, às voltas com um trabalho da cadeira de cálculo estrutural. Sonhava
com trigonometrias e hipotenusas e, efeito da idade, sonhava também com musas
hipotéticas. Creio que tinha, então, a cabeça dividida ao meio, uma parte
ocupada por matemáticas e a outra preenchida de hormônios. Como se vê, era
perfeitamente normal nos meus vinte anos.
A universidade, no norte do Paraná,
não era grande e todas as faculdades
eram próximas entre si, formando um campus pequeno. Um único centro acadêmico
congregava todos os estudantes e, afora seus intermináveis cursos de marxismo,
notabilizava-se, nosso centro, por organizar na semana de carnaval um magnífico
baile de máscaras. Pelo menos no material de divulgação era este o adjetivo
empregado. Olhando agora, com o binóculo do tempo, vejo que não era
despropositado seu uso; poderiam não ser roliudianos aqueles bailes, mas
cumpriam bem seu objetivo de congraçamento. Talvez seu maior mérito fosse a
regra do anonimato: era obrigatório o uso contínuo de máscara; se alguém fosse
pego sem ela, mesmo que para ingerir um simples gole de bebida, era
imediatamente retirado do salão. Não preciso dizer que esta regra permitia
liberdades inconfessáveis e, não estivessem embaciadas pela pátina do tempo as
lentes de meu binóculo, estariam agora colorindo de rubor minhas faces maduras.
Outra regra do baile era a
obrigatoriedade de se vestir uma fantasia, afinal, era carnaval.
Não é difícil imaginar por que eram
esses bailes ansiosamente aguardados e estavam sempre de casa cheia. Era a
oportunidade para estudantes de hormônios alvoroçados colocar em prática seus
rituais de preacasalamento. Acontecia com todos nós, com as exceções de praxe.
Eu próprio, naquele começo de ano,
vinha me encantando com uma aluna da área de humanas, não lembro se de direito,
história ou filosofia — nunca pude distinguir bem essas tênues diferenças. Já
havia iniciado os procedimentos de aproximação...
Não ria, leitor incrédulo! Naqueles
tempos bíblicos era demorado o processo de se fazer a corte, como se dizia
então para definir os primeiros passos do namoro.
Dizia eu, pois, que já havia dado
início aos prolegômenos, apresentação inicial, nomes e interesses, que deixo de
mencionar agora não por nobre resguardo de privacidades, mas apenas por
esquecimento. A memória humana falha mais que as previsões do Tarô. Não seremos
eu e ela diferentes.
Lembro, contudo, que combinamos os
dois de nos encontrarmos dentro do baile. Ela iria de Colombina e eu, de
Pierrô. Em nossas máscaras pretas colaríamos uma ou duas estrelas vermelhas.
(Não tinham elas, então, a simbologia pesada que hoje carregam).
Na noite do baile fui dos primeiros
a chegar; era o Pierrô combinado, aguardando sua Colombina. Que tardava. Que
não vinha. O salão foi se enchendo de gente fantasiada, todos mascarados, como
era a exigência. Havia mesmo uma ou outra Colombina, mas suas máscaras não eram
pretas e, ainda que fossem, não me teriam enganado, não tinham suas donas o
corpo pequeno e delgado de minha amada. Vejam que o sentimento de propriedade
já se instalara em meu coração expectante, do que dá prova o uso do pronome
possessivo.
O salão já estava repleto e fazia
algum tempo que casais dançavam, quando, de repente, distingo a figurinha
desejada de minha Colombina. A máscara é preta, mas não traz estrela alguma
colada. Contudo, não tenho dúvida, é ela: pequena, esguia, graciosa, certo
esqueceu-se da estrela combinada.
Achego-me a ela, faço uma reverência
medieval, beijo-lhe as mãos e tiro-a para dançar.
O leitor bem vê que tenho alguma
veia de Casanova. Justifico-me pela agitação de meu sangue latino, pela
atmosfera do baile, propícia àqueles arremedos de antigas cantigas de amigo. A
verdade é que bailamos quase a noite inteira.
Incorporado no papel de conquistador
galante, fui aos poucos tomando liberdades, roçando de leve meu corpo fremente
no dela, encostando com suavidade o rosto escanhoado em sua face macia, e,
encorajado por aceitação pacífica, não tardou que lhe envolvesse a cintura com
braço forte e apertasse seu corpo contra o meu, que lhe cheirasse o pescoço ao
pé do ouvido, que lhe beijasse com volúpia a boca carnuda.
Num ou noutro intervalo íamos beber
um refrigerante ou uma cerveja.
Em um desses intervalos, queixei-me
da dificuldade que vinha tendo para concluir o trabalho de cálculo de
estrutura. A equação de segundo grau não fechava, a incógnita parecia tomar
valor inconsistente, devia ter chegado eu a um beco sem saída. Esqueceu-me, por
um instante, que falava com uma estudante de humanas, mas, para minha surpresa,
veio ela com uma sugestão: por que você não multiplica por Pi e extrai a raiz
quadrada?
No momento achei que se tratava de
uma pilhéria e, para manter a graça, agradeci a ajuda com cara de interesse.
Alegres, retornamos às danças, cada
vez com mais erotismo, e teríamos dançado até o fim dos tempos, se não viesse
um mastodonte Arlequim tomá-la de meus braços. Era o irmão dela. Tomou e
levou-a consigo.
Fiquei só, a personificar a lenda e
a canção: um Pierrô apaixonado que teve roubada sua Colombina por um Arlequim
desalmado.
Frustrado, entendi que ali
terminava, para mim, o baile e a noite. Tornei a casa excitado, insone de
desejos. Tentei dormir, não consegui. Visando a aplacar a ebulição de meus humores
atirei-me à tarefa de cálculo, como o condenado que se joga aos trabalhos
forçados — para esquecer. Retomei as contas, reformulei hipóteses, mas nada:
recaía no mataburro do beco sem saída. Por desfastio, tentei a sugestão da
rapariga. E não é que deu certo? Um novo caminho se abriu e mais dois ou três
lances chegava eu ao xeque mate.
Desnecessário dizer que fique
estupefato, palavra que uso com parcimônia por não encontrar outra que traduza
tão fielmente meu estupor. Como uma garota de humanas podia ter tanto
conhecimento de matemática?
Dormi ainda sobressaltado. Pouco
adiantou o copo de água açucarada que tomei antes de deitar-me. Pode voltar a
rir, leitor, mas é o que se usava naqueles tempos.
No primeiro dia de aulas após o
baile, corri pressuroso ao setor de humanidades, aflito por encontrar minha
amada e contar-lhe o bom sucesso. Lá estava ela, num grupinho de meninas.
Cheguei como um vento forte, puxei-a pela cintura e casquei-lhe um beijo guloso
na boca sensual. Levei um baita tapa na cara!
— Mas, que é isso!
A garota estava indignada! Como me
atrevia a tomar tal liberdade?
— Mas ontem, no baile... Nós dois...
— Mas que baile? Nem fui ao baile!
Explicou que não fora, que o pai
sofrera um desmaio e ela o tinha levado ao hospital, onde passara a noite
inteira.
Minha cara deve ter assumido alguma
expressão fantástica, pois o grupo se pôs a gargalhar, menos a menina, que se
afastou ofendida, pisando duro.
Então não era ela! Que mico!
Nos dias que se seguiram pus-me a
caçar a desconhecida do baile. Não lhe sabia o rosto, mas distinguiria com
clareza seu corpo, ainda que entre outros mil; identificaria seu cheiro.
Otimismo irrefletido da juventude! Dei preferência a buscá-la na área de
exatas, pois, compreendia agora, por experiência, ser ela conhecedora do ramo.
Não demorou muito e vislumbrei, nas escadarias do prédio da engenharia — o meu
prédio! — uma figurinha de corpo esbelto. Cheguei-me cuidadoso, narinas a
vibrar, mas antes que lhe pudesse sentir o odor, deu-me ela um demorado beijo
na boca. Era ela!
Para encurtar a história, que já se
alonga em demasia, esclareço que era ela uma caloura de engenharia, por isso
nunca a vira antes. Por fim, digo apenas que vim a casar-me com aquela
Colombina e mantemos hoje, como sócios, uma família e um escritório de cálculo
estrutural, um e outra muito bem sucedidos.
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