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RACONTO NAPOLITANO

       Bella Napoli! Vetusta e bela, deitada à beira desta baía de águas esmeraldinas, és tu o cenário desta história triste que vou contar. Se fosse um filme, fecharia a câmera para uma das ruelas de seu centro antigo, com os varais de roupa a atravessar o céu, ligando as janelas dos sobrados fronteiriços, trapos coloridos a lembrar o estranho festival de Orestes Barbosa. Aproximando mais a câmera, furaria as roupas dependuradas e captaria a imagem rodopiante de dois meninos a brincar. São eles Luigi e Luca. É deles a história.
       Nasceram no mesmo ano, cresceram no mesmo cortiço, à sombra da lei da Camorra. Sem intenção de proselitismo, é sabido que mesmo os criminosos têm lá seu código de honra, e ai de quem o desrespeite. Pois sob o código crescerão estas crianças e nelas estarão impregnados seus valores.
       Cenas de páginas de calendário se despregando, primeiro em ritmo lento, depois, alucinadamente, ou imagens de folhas de árvores caindo ao chão, também em sucessão crescente, ou, ainda, um milhão de sóis a se por em ocasos de variegados tons, fica à preferência do leitor a escolha da figura que melhor traduza a passagem dos anos, pois que, agora, vinte deles já se foram.
       Na cena seguinte os dois rapazes, presentemente rapagões desenvolvidos, de farta musculatura, um pouco mais Luca que Luigi, conversam e fumam cigarros de procedência suspeita, sentados à soleira do cortiço. A entrada é ampla, de modo que não atrapalham o vaivém das pessoas. Uma delas, quando sai, atrai o olhar cobiçoso de Luca; é Mariella, sorella de Luigi. Notando o olhar desnudante do amigo sobre a irmã, Luigi lhe dá um cutucão e adverte, com ela, não! Luca desvia o olhar, mas não o pensamento, que, afinal, pela graça de Deus, é e continuará a ser sempre secreto. Ingênuo que é este Luca! Mal sabe ele que o pensamento do homem é mais transparente do que o véu diáfano que, por vezes, tenta esconder a Lua, ainda mais quando esse pensamento é fundido no cadinho do desejo. No entanto, para sorte dele, mais ingênuo é Luigi, que despercebe a continuidade do desejo naquele olhar desviado. Contudo, sejamos francos, Luca não é tão culpado assim, Mariella deveria ser mais cuidadosa, para não dizer se dar ao respeito; sai de casa com veste leve, tão diáfana como o citado véu da Lua, e através das transparências se podem ver, ou pelo menos vislumbrar, suas deliciosas protuberâncias. Mea culpa! Admito! É intolerável minha interferência pessoal na história. Desculpo-me e me penitencio. Boa parte da culpa, no entanto, cabe à própria Mariella, que é realmente um pedaço de mau caminho, como é costume se dizer. Fujo da tentação e abstenho-me de descrever os seus encantos, que a esta altura acredito já terem sido adivinhados pelo leitor imaginativo.
          Não seria nada de mais e nem haveria história se Luca tivesse respeitado a lei carcamana de seu grupo; bastaria namorar e casar. Mas Luca é rebelde, não quer se prender, come o fruto e cai no mundo. Luigi sente a falta e não entende o sumiço do amigo. Alguns meses depois a verdade se lhe entra no bestunto: Mariella está prenha.
          A reação de Luigi torna claro ser ele uma personagem introspectiva. Se esta história fosse de fato um filme, naturalmente não seria um faroeste, gênero um tanto demodê, mas é inegável a semelhança de Luigi com os heróis daquelas fitas. Lá o mocinho é sempre calmo, de poucas palavras, mas de ação eficaz e discreta, salvo o gran finale, em geral público. De hábito, ele é inteligente e sabe compreender situações complexas. Pois é isto mesmo o que acontece com Luigi; sem alvoroço pesquisa, pergunta aqui e ali e termina por encontrar uma pista do ex-amigo: fez-se marujo de um cargueiro, destino Buenos Aires. Luigi embarca no primeiro navio que para lá zarpa, também ele, marinheiro.
          Agora vem o pedaço mais bonito da história, mares plácidos, de luar derramado, alternam-se com ondas gigantes; se de noite, águas pretas, com a negrura da turbulência cortada por pinceladas de espuma; se diurnas, as cenas se repetem, mas agora com a cor das águas alterada para azul escuro, um azul que só veste o mar quando se está longe de terras, e que lhe cai tão bem que o chamam de azul-marinho.
          Terminadas as cenas anteriores, de tanta beleza plástica, encontramos Luigi na capital da Argentina, modestamente instalado em San Telmo, gastando solas de sapato em suas andanças pela Florida, por Tucuman, Corrientes, todo o miolo central, e também pelos arrabaldes. Esta busca poderá ser traduzida pelo correr da câmera sobre as pedras das calçadas, pelo suceder de fachadas de casas, talvez por muitas mãos jogando bitucas de cigarro ao chão, enfim, por imagens que indiquem com arte o passar do tempo. Porque o tempo passa depressa, e estas poucas cenas já fizeram por durar dez outros anos.
          Surge então uma esperança: um italiano bem apessoado - diz este informante - parecido com aquele que se lhe descreve, andou por estas bandas, mas consta ter embarcado há algum tempo para o Brasil.
          Este Brasil é tão grande! Será que Luigi decidiu bem? Está agora em São Paulo, a cidade que possui o maior número de italianos fora da Itália. Aqui tem mais italianos que a própria Napoli. Mora em uma pensão na Moóca, aos pés da igreja de Sangenaro; anda pelo bairro, pelo Brás, Bexiga e Bom Retiro, gastando novas solas de sapatos velhos. Termina por conhecer todas as ruas destes recantos italianos, porém nem sinal do Luca. Seria para desesperar, mas o leitor não conhece Luigi, ele continuará a busca, tem o coração de um perdigueiro.
            E agora, abusando da paciência do leitor, peço-lhe que imagine uma nova sucessão de tomadas que sugira outra vez o passar do tempo. Prometo-lhe que será a derradeira vez. Não lhe faço indicações, porque a esta altura está suficientemente apto a fazê-lo sozinho, melhor que eu próprio. Esta frase soa falsa, mas tenho esperança que se acredite em minha sinceridade. Imaginadas, pois, as novas cenas, digo-lhe que outros dez anos já são passados.
            Eis que, em um entardecer de maio, os raios inclinados e amarelos do sol poente iluminam o quadro de um homem maltrapilho sentado em uma calçada da Rua Helvetia. Debaixo dele, um papelão sujo vai lhe servir da cama quando a noite avançar. Trapos imundos lhe cobrirão o corpo para enganar o frio da madrugada. Agora, não; está sentado, recostado à parede de um sobrado antigo, não longe de outros mendigos, acendendo uma pedra dura em seu cachimbo tosco. Tem os olhos inexpressivos e as mãos trêmulas. Não parece, mas é Luca, envelhecido, raros cabelos na cabeça, quase todos brancos, rosto escaveirado, corpo seco, desnutrido. Luigi se acerca, revela-se, mas o outro não dá sinal de reconhecê-lo e balbucia um pedido de dinheiro. Luigi espera que a raiva cultivada por tantos anos lhe aflore ao peito para dar cabo daquele pulha, mas, ao ver a cena deprimente, esvai-se-lhe a vontade punitiva. Aquele ser infecto que tem diante de si não é mais o Luca procurado; a droga comeu-lhe o corpo e carcomeu-lhe o cérebro. Não é mais ninguém, é um molambo sem identidade; dar-lhe fim agora seria um ato de misericórdia. Luigi lhe dá um trocado e se afasta.
            Depois de tantos anos, de volta a Napoli, anuncia à família: vendetta è fatta!


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