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MEDITABUNDO

            Meditabundo, cabisbaixo, cismarento, o homem, claudicante e lento, sentou-se no banco da praça, Trazia a roupa em desalinho e o cabelo revolto, nos olhos, uma mágoa. Sofria. Seria por ingratidão de filho, pela perda da mulher amada? Os olhos, secos de tanto chorar, desfocavam o mundo e, estranhamente, pareciam mirar no sentido inverso, para dentro do próprio crânio, na tentativa, talvez, de surpreender a alma, escondida no emaranhado dos neurônios.
            Assim ficou. Por que tempo? Tão indefinível o tempo! Um instante? Toda a eternidade? Difícil dizer. Ficou o preciso, o tempo necessário.
            Voltando do mergulho interior, os olhos focaram outra vez o mundo, no que ele tinha de mais próximo, a praça, o parque da praça. De início sem forma, como olhos de um recém nascido, focavam apenas o verde. Só a cor da grama, dos arbustos, das árvores, os inúmeros tons de verde multiplicados por miríades de raios de sol, coados pelas copas balouçantes de flamboians, ipês e sibipirunas, raios dançantes a compor um balé regido pelo vento. Lentamente, novas cores foram surgindo e se misturando à multidão de borrões verdes e tudo, aos poucos, foi tomando formas. Salpicando o verde, os olhos passaram a ver flores de toda cor e o lampejo irisado de corpinhos de colibris, que lhes beijavam as corolas, e delas retiravam o néctar, nutriente de suas vidas leves. Com automatismo o cérebro registrou: belo. Viram mais aqueles olhos redespertos: descendo da ramagem de um pinheiro, um casal de esquilos que perseguia-se sobre a grama lisa, em jogos de amor. Novo registro se efetuou: útil. Pouco além, alcançaram os olhos a visão de dois adolescentes, que namoravam à sombra de um chorão, à beira do lago de carpas, cercados por um grupo de quatis de caudas rajadas, a espera de sobras, migalhas da merenda que o casal jogava aos peixes. Registro: necessário.
            De repente, uma bola vem chocar-se ao joelho do homem, e atrás dela, um menino a correr, e mais atrás, outros meninos; sublinhando a cena, o alarido, um alarido que machuca os tímpanos e que parece engolfar o parque, tomar o mundo. O homem vê, ouve e anota: futuro.
              O homem, então, que antes tudo olhava e nada via, dá sinais de que começa a ver, e ele, que nada percebia, principia a entender. À sua frente, a seus pés, no alto, para onde quer que olhe, a natureza se lhe revela, mostra e demonstra sua verdade profunda: no alimento, no amor, no sexo - ensina ela -, em cada movimento que fazem, buscam os seres vivos a sobrevivência, lei primeira, causa do agir do humilde protozoário ou do arrogante primata, lei antiga, que invalida, por merecimento, a insígnia da escola do infante navegador: viver não é preciso!
            Colibris e esquilos, quatis, meninos e adolescentes, seres dotados de movimento próprio, misturam-se a todos os tons de verde, de gramas e arbustos, de folhas e árvores, e pintam-se, também eles, do colorido das flores. O homem agora sabe, porque acabou de aprender, são todos eles partícipes do movimento interior da seiva, que lhes corre por veias e vasos, que provém de raízes fincadas no ventre da mãe terra, mãe de tudo e de todos, bem amada do pai sol, que não se cansa de fecundá-la todos os dias, no amplexo de seus raios calorosos. Carrossel de seres que, inconscientes ou não, celebram a mais excelsa criação da natureza: a vida.
            O homem, agora de ânimo renovado, engole a angustia que lhe aflige a alma e se alevanta. Na tarde findante, um movimento desordenado de pirilampos vem se juntar à ciranda de vida que toma conta de todo o parque. O olhar do homem, outra vez aceso por uma nova vontade, além do brilho próprio de quem voltou a ver, reflete, sem querer, os riscos luminescentes do vôo dos vagalumes, que parecem sublinhar, enfatizando, o desejo renascido.
            O homem, agora não mais lento e claudicante, deixa para trás o passado e dá o primeiro passo, firme, ligeiro, e enceta uma nova caminhada, para o futuro. Viver é preciso!


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