George ia
entrando nos sessenta anos quando perdeu a mulher, levada pela doença que,
ironicamente, tinha o mesmo nome do signo em que ela nascera, e que não repito
para não atrair azar. Companheira havia mais de trinta anos, Mary, o nome dela,
era recatada e submissa. Não tiveram filhos, por isso George era agora um homem
só. Mesmo que os tivesse, ainda assim estaria só, pois filhos o mundo leva e os
transforma em cartões postais e uma ou outra visita de Natal.
Anglicano
convicto, como todo bom súdito da rainha, continuou a frequentar a igreja, como
sempre havia feito com Mary. De início não sentiu muito a falta da companheira,
mas a solidão aos poucos foi lhe pesando na alma e a falta foi se impondo
sorrateira. Não tardou muito para ele reconhecer que tinha de fato amado a
mulher e arrependeu-se de não o ter dito a ela nos últimos tantos anos. Seguro
que ela teria gostado. A solidão só fazia crescer, pois é como uma verruma distraída,
não se contenta em abrir um buraco, continua a escavá-lo. Não demorou e George
principiou a sentir falta da mulher na cama, falta que não sentira quando ela
estava viva, falta daquela rotina sem graça, cada vez mais espaçada nos últimos
tempos. Rememorava as cenas anódinas com o cérebro, mas as gônadas repletas as
iam colorindo de matizes fortes e cheiros inventados. A efervescência dos
hormônios transmudava a realidade pacata em festival erótico. O que havia
acontecido sob lençóis e a meia-luz revelava-se agora em nudez plena e com
brilho de ribalta.
Os
colegas de trabalho não demoraram a perceber sintomas de neurastenia em George,
mas como é do temperamento inglês não se meterem com a vida dos outros,
preferiram não se envolver. Houve, contudo, uma exceção, Filippo, um
napolitano, que nem tão chegado era de George, mas, como bom italiano, não
negava a raça, sendo do tipo que fala com o corpo todo, boca, olhos e mãos. Os
longos anos de Londres não lhe haviam diminuído a profusão de gestos, nem a
sem-cerimônia de se achegar aos outros. Foi assim que cutucou George. E aí, meu
chapa – disse isso em inglês – o que tá pegando? George assustou-se com a
pergunta crua, mas, como estava carente, aceitou-a de bom grado. Foram juntos
tomar cerveja em um pub próximo.
Lá,
depois da quarta caneca, abriu-se com o já então amigo íntimo que Filippo se
tornara, propriedade meritória que deveria ser por lei reconhecida às bebidas
alcóolicas, obrigando governos a isentá-las de impostos.
-
Mas isso é fácil de resolver e o nome do remédio é Amsterdam. Vem comigo, sexta
à noite sai o avião.
Pouco
passava das dez quando desceram no aeroporto de Schiphol, na sexta-feira, com
noite clara de lua cheia. Mais dez minutos de trem e estavam na Centraal
Station. Bastou atravessarem a praça para o registro em um dos pequenos hotéis
com vagas disponíveis. Dito assim, pode parecer que foi tudo muito fácil. Não é
verdade. Não fora a experiência de Filippo, provavelmente teriam dificuldade de
arrumar acomodação. O voo viera lotado de homens, todos eles também
interessados em se hospedar naqueles hoteizinhos. A rapidez e eficiência de
Filippo fizera a diferença.
Ainda
não eram onze horas quando saíram do hotel e atravessaram de novo a praça,
agora no sentido leste, direção do Bairro da Luz Vermelha, centro histórico
medieval de ruas estreitas e casario antigo.
Filippo
ciceroneava George, que se mantinha boquiaberto com o que via. As casas
ostentavam na fachada lâmpadas fluorescentes de metro, todas acesas, todas
vermelhas. Filippo explicou que daí vinha o nome do bairro. No entanto, apesar
do inusitado, não era isto o que mais surpreendia o espantado George e sim o
que acontecia no interior das casas. Pois que tinham elas em suas fachadas
amplas vitrinas, como lojas, onde se exibiam mulheres seminuas, uma só mulher
em cada montra. Havia-as para todos os gostos, esqueléticas, fornidas e até
gordinhas, todas de biquínis reduzidíssimos, destinados mais a mostrar que a
esconder, sem dúvida fabricados na China sob modelos brasileiros, seus reais
inventores.
Não
ficavam paradas as mulheres. Dispunham todas de uma cadeira, na qual ora
sentavam, cruzavam pernas, ora se levantavam, faziam alongamentos, fingiam
pegar objetos no chão, movimentos esses que flexionavam músculos e nádegas e
cujo objetivo notório era despertar desejo nos transeuntes. Para reforçar o
desejo, como o mundo todo sabe, usavam com mestria o órgão erótico por
excelência, a saber, o rosto. Em cada rosto, uma feição lasciva, variando por
toda a gama da sedução, da ingenuidade infantil de uma ninfeta à mais abjeta
pornografia de uma marafona. Do recato ao despudor, o objetivo era cativar a
plateia que, sabem elas, inclui todos os tipos imagináveis, com suas taras e
vícios recônditos.
O
sucesso não se deixava esperar. Logo um homem fazia um sinal e a mulher fechava
a cortina da vitrina e abria a porta ao lado, por onde entrava o expectante
cliente.
Em
todas as ruas estreitas do bairro o mesmo espetáculo. George, inicialmente
contido, engoliu com sofreguidão dois ou três grandes goles da garrafinha de
uísque que lhe passava às mãos o experiente Filippo. A bebida desceu quente,
sem raspar a garganta e a quentura não demorou a se irradiar para as partes
baixas do ventre. Em pouco, ele entrou no clima do bairro e o olhar de turista
surpreso devagarinho foi se transmudando em olhar guloso de animal no cio. O
desejo, se avolumando, chegava-lhe a doer as gônadas. Esquecendo Filippo, fez
sinal a uma morena de seios fartos, que imediatamente fechou a cortina e abriu
a porta ao lado.
No
dia seguinte saíram os dois a passear pela cidade.
Amsterdam
situa-se em boa parte abaixo do nível do mar, por isso é cortada por inúmeros
canais, que a protegem de enchentes. Se alguém resolve cavar o solo, na segunda
enxadada encontrará água. Talvez por isso possua ela apenas uma pequeníssima
linha de metrô, com duas ou três estações. Em compensação, tem uma extensa rede
de bondes elétricos tri-articulados, saindo todos da praça da Centraal Station
em direção sul, afastando-se as linhas umas das outras e formando o conjunto
delas um imenso leque a abraçar a cidade inteira. A esses bondes foi dado o
nome de Tram.
Filippo
e George quiseram conhecer o jardim botânico da cidade, em bom latim batizado
de Hortus Botanicus. Informados no hotel, tomaram o Tram nº 9 e perguntaram ao
cobrador em que parada deveriam apear. Perguntaram em inglês e em inglês foi
respondido: descer na sétima parada.
Esqueceu-me
dizer que todos os habitantes de Amsterdam, além de sua intrincada língua,
falam também o inglês.
Pois
ainda em inglês cometeu George a asneira de pedir ao cobrador que os avisasse
na parada desejada. Tivesse um pouco de bom senso, não o teria feito. A
resposta do homem foi curta e grossa: - Você não sabe contar?
Esclarecedora,
sem dúvida, a informação: clareava duas verdades, primeiro, a confirmação da posição
aritmética da parada, segundo, a disposição nada favorável dos autóctones para
com turistas estrangeiros. Esta última verdade iria ser confirmada ainda outras
vezes no decorrer do dia.
Depois
do Botanicus foram ao Museu Van Gogh e, a seguir, voltaram ao centro da cidade,
às pequenas ruas que cortam a região situada às costas do hotel que os
hospedava. Passava algum tempo da hora do almoço e os estômagos da dupla
roncavam em uníssono. Num cruzamento de rua com o Keizergracht (Canal do Rei)
viram um vendedor de arenque, prato nacional do país, que atendia a freguesia à
frente de um cartaz onde se lia em letras graúdas a palavra HERING. Imaginaram
ser e era a palavra holandesa para arenque.
Pediram,
comeram e pouco apreciaram. Serviu no entanto o arenque para aplacar a fome.
Agora sentem sede. Entram num café marrom e escorropicham em suas goelas duas
canecas de cerveja, meio litro cada. Pedem depois gim holandês, informados que
estão de que essa bebida fora inventada na Holanda e só depois migrara para o
Reino Unido. Gostaram? Nem tanto. Dizem um ao outro preferir o gim inglês,
afirmação que nós outros somos obrigados a colocar em dúvida por conhecermos
bem a tendência chauvinista dos súditos de Sua Majestade.
Perambulam
pelo centro comercial, a ver lojas e cafés e George quase é atropelado três
vezes, por bicicletas. Esqueceu-me dizer serem elas o meio de transporte mais
usado pela população. Todos andam de bicicleta: jovens, velhos, homens e
mulheres e até meninos. Mulheres grávidas carregam seu bebê na barriga e a
ambos em cima delas; depois do nascimento levam o rebento em caçambas frontais,
que também são úteis para carregar mercadorias e compras do dia-dia. Se faz
chuva, portam os ciclistas com uma mão suas umbrelas abertas e com a outra
seguram o guidão.
As
calçadas são bicolores, cinzentas na parte interna e ocre-vermelhas na contígua
do meio-fio. Esta é reservada às bicicletas, enquanto a outra, aos pedestres.
Georges se distraiu algumas vezes e quase foi atropelado; Filippo, não, já se
habituou.
Chegada
a noite, os dois voltam às ruelas do Bairro da Luz Vermelha, como na véspera,
mas agora com George mais calmo, senhor de si mesmo. Não têm pressa, escolhem
com paciência, como se fossem dois especialistas no ramo. Filippo na verdade o
é, George, aprendiz dedicado. Deixemo-los ali, em sua faina de descobrir a
mulher ideal.
Discretíssimos
que somos diremos apenas que, após noite de pouco dormir, acordarão tarde,
nossos cavaleiros, na manhã do domingo, sol alto, engolirão o desjejum e voltarão
a Londres. Chegados, na boca da noite, ao aeroporto de Heathrow, tomarão o metrô
até Leicester Square. Lá irão devorar um suculento pato laqueado no Golden
Dragon, o melhor chinês da cidade.
Comentários
Postar um comentário