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SÃO PAULO - 450 ANOS

NARRATIVA DE VISITAÇÃO
(Produzida por Padre Anchieta)

            Ao muito reverendo em Cristo Padre, o Padre Manoel da Nóbrega.
            Laudate Dominum!
            Com o favor divino, darei conta da viagem e missão com que houve por bem Vossa Reverendíssima honrar este humilde servo. Conquanto adrede prevenido pelo guia que me coube, o bacharel Lobato, cumpre-me confessar que sucumbi de início à grandiosidade das visões da nova Piratininga, neste momento em que completa seu quarto aniversário, no início do terceiro milênio da Era do Salvador, perfazendo 450 de fundação. O próprio acadêmico Lobato, qual um redivivo Virgílio a conduzir um novo e inepto Dante, tem se mostrado quase tão perturbado como eu, embora só esteja afastado do mundo material há exíguos anos, não mais que meio século. Não fosse Vossa Reverência acostumado a grandes realizações, decerto teria razões para duvidar que aquela pequena povoação que se agregava ao redor do colégio jesuítico erigido em 25 de janeiro do ano da graça de 1554, dia da conversão de São Paulo à fé cristã, tornar-se-ia uma das maiores cidades de todo o orbe.
            Há de lembrar Vossa Reverendíssima que estive aqui pela última vez, ainda encarnado, quando a vila de São Paulo de Piratininga completava trinta anos, época em que teria seus cento e vinte vizinhos mais a escravaria da terra. Das solenidades de então participaram o padre visitador Cristóvão Gouvêa e o padre Fernão Cardim, que de tudo fez relato ao Padre Provincial de Lisboa. Acreditará Vossa Reverência que a cidade tem hoje mais de dez milhões de vizinhos? Estes, que eram na fundação apenas portugueses e gentios, são agora de todas as raças e credos e as linguagens que falam lembram uma nova Babel, tão variadas e estranhas se apresentam. A língua geral ninguém mais conhece, a não serem alguns poucos e doutos, e ficou restrita ao nomeio de sítios e acidentes geográficos. Destas freguesias assim nomeadas, algumas, como Morumbi e Pacaembu, são dotadas de anfiteatros que rivalizam com o Colosseo de Roma, e aonde se disputa um estranho jogo de pelota, a qual é tocada com os pés, e que atrai multidões ensandecidas.
            As choupanas de pau-a-pique e sapé deram lugar a habitações que se sobrepõem umas às outras e que escalam as alturas e que, por isso mesmo, são chamadas de arranha-céus. Vistas de longe, parecem um punhado de agulhas a espetar o firmamento. De perto, causam vertigem. No entanto, há populações que se mantêm presas ao solo, em ajuntamentos de barracos cobertos de chapas metálicas, a formar conjuntos desordenados, feios de se ver e mais ainda de neles se viver. A estas habitações pobres dá-se o nome de favelas e contrastam elas com a opulência de alguns dos ditos arranha-céus.
            Nas ruas não há mais cavalos ou carroças. Em seu lugar existem monstros fumegantes que deslizam sobre rodas e em cujos ventres bojudos viajam magotes de pessoas. Ao se deslocar expelem uma esteira de fumaça de mau odor, que dificulta a respiração e causa ardência d’olhos. Para viagens de longa distância, seja ainda dentro da Terra de Santa Cruz ou até mesmo para a longínqua Europa, mostrou-me Lobato que a população mais abastada utiliza o avião, veículo que voa como os pássaros, e que advém do aperfeiçoamento continuado da velha e conhecida Passarola, invenção do festejado irmão em Cristo, o também jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão.
            A pujança econômica da moderna São Paulo ultrapassa as coirmãs de todas as outras capitanias, sendo comum a imigração de vizinhos de freguesias distantes que para cá se dirigem com o intuito de fincar raízes. Desta forma, o português que aqui se fala é enriquecido por maneirismos doutras terras, causando o entrechoque de sotaques um efeito bastante singular.
            Contudo, se rica é a cidade, nem sempre o são seus moradores. Ricos há, como sempre houve e haverá, os quais em nosso tempo eram chamados homens bons, mas a pobreza parece ter crescido em proporções alarmantes, sendo freqüente a visão de maltrapilhos a vagar pelas ruas. Às vezes são famílias inteiras a perambular, arrastando consigo seus curumins, a pedir esmolas. Não tendo onde morar, ajeitam-se nas calçadas, nalgum desvão, onde passam as noites. As autoridades tentam recolhê-los em albergues, mas não dão conta. Dizem, contudo, que a situação será resolvida assim que o país voltar a crescer.
            Melhor não é, infelizmente, o estado das águas de serventia. O rio Tietê, que conhecemos límpido e piscoso, é hoje um esgoto a céu aberto, secundado pelo Tamanduateí, que lhe disputa a palma. Em verdade há planos de recuperação, mas isto também, repetem as autoridades, fica para quando o país voltar a crescer.
Apesar das vicissitudes por que passa, é no entanto feliz este povo, ou por índole, ou por ter em seu coração uma fé forte, para a qual colaborou sem dúvida o trabalho árduo da nossa Companhia.
            Isto é o que se me ofereceu neste primeiro momento para dar conta a Vossa Reverência, restando pedir e agradecer sua santa benção.
            Deste colégio de São Paulo, a 25 de Janeiro de 2004.
            De Vossa Reverendíssima filho humilde em Cristo Nosso Senhor,
            JOSÉ DE ANCHIETA

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