Mas que falta de consideração! Aqui estou eu deitado de bunda para cima, todo pelado, esperando não sei o quê. Cadê os direitos humanos de que tanto se fala? Afinal, defunto também não é gente? Se pudesse, berrava, queria falar com o Diretor, fazia um fuzuê. Mas o diabo é que não posso me mexer; nem abrir o olho, sô! Que mancada...
Aquele filho de uma égua! Tinha que me dar aquela fechada, o cachorro? E agora está lá, numa boa. Fugiu, ninguém sabe, ninguém viu. E eu aqui. Presunto fresco.
Bem que a mãe dizia, põe o capacete de proteção. Mas não, eu tinha que me mostrar para as gatinhas, exibir os cabelos soltos, agitados do vento. Agora, ó para você!
Coitada da velha! Como berrava, quando me viu. Quase que desmaia. E o coroa, então? Que tristeza nos olhos! Chegou a perder aquela cara de boi sonso, que sempre teve.
Na Marlene deu um chilique. Aquela vaquinha... Já estava me botando chifre com o Oscar, e fez aquela onda toda.
E agora? Essa demora toda... É por isso que este país não vai para frente! Uma desorganização, falta de responsabilidade. Pelado deste jeito, em cima do mármore, ainda vou acabar pegando pneumonia. Ha, ha, ha ...
Ah! Aí vêm os jagunços. Já não é sem tempo...
Pleibói é a putaqueopariu, seu açougueiro! Se você não tivesse que fazer esse serviço, na certa estava ninando criança em casa, ou então lavando louça para a mulher, de avental e tudo. De florzinha. É, de florzinha, sim, seu chifrudo!
Eh! Vai com calma. Está pensando o quê! Mais respeito, viu? O papai aqui não é casimira, não, que alfaiate de primeiro ano pega na tesoura e vai cortando o pano. Isso pode dar samba, mas não é bem o caso, né? Ei! Não mexe aí, não! Que diabo!
E você, seu palhaço? Está pensando que é carpinteiro? Minha cabeça não é peroba, não. Pelo menos amola esse serrote, que está fazendo um barulho infernal!
Isso! Montem tudo de novo, direitinho. Afinal, não é todo dia que a gente vira defunto, e eu quero ser um defunto inteiro. Essa barrigada que você jogou aí dentro, bem que podia dar uma arrumação melhorzinha.
Essa não! Vão me enfiar no terno de missa do velho. Vou ficar elegante, seu! Gravata também? Pelo amor de Deus! Já está virando gozação. Esse sapato não é meu! Está me apertando o calo.
Que caixão granfo! Deve ter custado os tubos. Desta vez o velho não fez economia, o pão-duro. Sempre foi munheca; para descolar uma nota dele precisava prólogo, prefácio e coro. E agora, olha aí. Deve ser remorso, consciência pesada do sacana.
Velório, pô, que programa mais besta! Falta de imaginação. Ainda se estivesse lá fora, onde a turma parece curtir um festival de piadas. Eles nem se preocupam em disfarçar; esses silêncios, de duração variada, intercalados de estouros de gargalhadas. Deve estar boa a roda, e aposto que o Onofre está dando uma de astro. O repertório do baixinho é qualquer coisa, e aquele seu jeitinho de imitar bicha... Para mim, se não joga no time principal, é aspirante titular.
E eu aqui, mais duro que vida de pobre, mãos cruzadas ao peito, todo coberto de flor, parecendo jardineira de janela de sobrado. As velhas a se revezar no carpir, com os beiços murchos engrolando intermináveis orações, aspergindo perdigotos em minha cara.
Ah, olha a Marlene! A safada já está com o Oscar a tiracolo. Aproximam-se, gestos compungidos. Ficam juntos, à minha cabeceira, com olhares desfocados, mirando através de mim o infinito dos seus planos. O malandro disfarça e passa-lhe a mão nas nádegas. Qual é, meu chapa? Sessão de bolinagem em velório? A putinha se contorce, se oferece, está gostando, acesa. Insaciável, quente, boa de cama. Será que o Oscar agüenta o repuxo? Tomara que lá no céu, ou no inferno, sei lá, haja muita mulher. Porque esse negócio de anjo andrógino não é comigo, não. Asinha, harpa, túnica branca, vá lá, mas debaixo dela tem que ter a ferramenta.
Por falar em céu e inferno, já não estaria na hora de me virem buscar? Pelo jeito, não se pode confiar nem na organização do além. Vai ver que o negócio lá é dirigido por brasileiro. Devem ter perdido minha ficha. Ou então pifou a energia do computador.
A Marlene está cochichando alguma coisa no ouvido do Oscar. A cara de satisfação que ele faz, lambendo os beiços, e esse brilho de antegozo nos olhos, só podem significar convite para safadeza. Ele concorda, rápido, e propõe uma retirada estratégica; ela finge-se mal e cambaleia. Ampara-a, ajudando-a a sentar-se em uma cadeira. Trazem água com açúcar. Abanos. A janela é aberta para dar entrada ao ar fresco da noite. Aos poucos, finge recuperar-se. Por que não vai para casa descansar? Coitada, foi um golpe duro para ela. Não, quer ficar. Insistem; ela vacila. Por fim se submete. O Oscar faria o favor de acompanhar a moça, pobrezinha... Mas, claro! Não é incômodo nenhum. Saem os dois, ela ainda claudicante. Tadinha, gostava tanto de mim... Encenação perfeita, digna de um prêmio Molière.
E a turma do céu, que não aparece. Vai ver que não tem nem céu, nem inferno; tudo lorota dos padrecos para faturar em cima da gente. Quem sabe, no fim da história, é o Nicodemus quem tem razão. É, o Nico é espírita e sempre falou em reencarnação. Mas, ele dizia que vinha uma equipe buscar a gente, ajudar o desprendimento. Uma espécie de pronto-socorro. Pelo jeito, também está atrasada. O negócio é esperar mesmo, que remédio. Enquanto isso, aproveitemos o velório.
O seo Juca sentado, com a cabeça encostada na parede, de boca aberta e queixo caído, ronca baixo, em sono profundo. Discreto, como sempre, o seo Juca. Maneiroso, educado. Boa alma. Veio cumprir obrigação de vizinho. Trabalha de sol a sol, no pesado; acabou vencido pelo sono. Durma bem, seo Juca, e obrigado por ter vindo!
Dona Marocas e dona Serafina conversam baixinho e velozmente. Falam ao mesmo tempo, as duas, e se entendem. Nunca pude compreender esse mistério das mulheres; quando se reúnem, falam todas a um só tempo, e nenhuma perde nada. São capazes, depois, de reproduzir tudo, tintim por tintim.
E o pessoal do pronto-socorro, que não vem. Só se o trânsito está congestionado.
Meus pais estão juntos, ao meu lado. A família reunida. Ela chora sem parar e está com o nariz inchado e vermelho. Ele tem os olhos secos, também vermelhos, aparentando febre e um ar de ausência. Devem sofrer muito, com a perda do único filho. Reconheço que não lhes dei muitas alegrias. Ainda quando criança, talvez, mas depois, não. Quando pequeno, era bonzinho, gostava de ouvir histórias empoleirado no joelho dela. Depois, foi aquilo que se viu. A descoberta do mundo foi trazendo independência e causando um afastamento cada vez maior. As tentativas de conserto faziam só me irritar. Os tempos eram outros, a geração moderna tinha novos valores, liberação total, realização de potencialidades. Abaixo tabus e preconceitos!
Hoje é o dia do reencontro, da concórdia. Sou o filho pródigo que retorna a casa, recebido com carinho. Sem perguntas, nem constrangimento, só com espanto. Um enorme, imenso e formidável espanto, que entontece e aquebranta.
Amanhece. O sol não tarda a varrer o torpor dos corpos. Seo Juca acorda, envergonhado, olha o relógio. Vem a mim e reza uma ave-maria. Despede-se dos meus pais, vão desculpar, precisa ir para o trabalho. A gente entende, agradece o incômodo. Não há de quê. Vá em paz, seo Juca, adeus.
Adeus... Deus! Por que não me manda buscar? Você criou o mundo, criou a mim, e agora me deixa aqui, abandonado. Seo Juca rezou por mim, Santa Maria, mãe de Deus. Seo Juca é bom, merece ser ouvido. Rogai por nós, pecadores, que pedimos a sua misericórdia, agora, na hora de nossa morte, amém.
Aumenta o número de pessoas, já não cabem todos na sala. Deve estar se aproximando a hora do enterro. O padre. Veio me encomendar. Por favor, turma do pronto-socorro, chegue logo!
O padre reza e fala. Ave, Maria, cheia de graça, a vida na Terra é só uma passagem, irmãos, passagem para a vida verdadeira. Pai nosso que estais no céu, recebei este Vosso filho. Não vos entristeçais, irmãos, nem vos acovardeis ante a morte, porque a morte é, de fato, o único e verdadeiro nascimento, o nascimento para a vida eterna. Aquele que crê, viverá!
Eu creio, sim, eu creio! Mande me buscar. Santificado seja o Vosso nome. Eles já vão fechar o caixão. Todopoderoso, Criador do Céu e da Terra. Já estão pegando a tampa... O pão nosso de cada dia... Mamãe se agarra a mim e grita. É retirada. Estão levantando a tampa... Pelo amor de Deus, não me deixem aqui! Bendito é o fruto do vosso ventre. A tampa... Não! Não! Socorro! Manhê...
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