Pular para o conteúdo principal

O HOMEM QUE TINHA MEDO DA MORTE

            O nome dele era Cláudio Públio Tarquínio. Pater-familiae romano, vivia em Neapólis, a bela cidade grega engastada à beira de uma baía de águas azuis, a meio caminho da Sicília. Instalado com conforto, cuidava dos negócios da família patrícia, cuja linhagem era arrogantemente estendida até Rômulo, não por ele, que não dava importância a isso, mas pelos parentes, orgulhosos da nobre estirpe. Talvez por não participar da arrogância familiar, ou quem sabe por causa de incompreensível inapetência política, fora relegado à atividade comercial, indigna de um romano tão distinguido, mas que combinava com seu temperamento apático, constantemente desviado dos assuntos importantes da república, sendo a culpa atribuída, com ou sem razão, ao preceptor grego que lhe enchera a cabeça jovem de caraminholas filosóficas. Conquanto incapaz para atividades nobres, era bem formado moralmente, o que bastou para granjear-lhe o respeito dos gregos locais e de Catânia e Siracusa e mesmo dos súditos de Cartago, que dominavam a costa oeste da Sicília, e em cujas veias corria o sangue antigo dos fenícios, renovado pelo calor do sol da berbéria. Ao pé das ânforas de azeite, ou ao lado de fardos de seda chinesa e de caixotes de especiaria, foi ele se impregnando da cultura desses povos. Não perdia oportunidade de conversar com viajantes recém-chegados, ávido por lendas e histórias de homens sábios. Um dentre estes o fascinava particularmente: era Demócrito.
            Apreendera que o sábio de Abdera considerava o mundo formado por partículas elementares, que chamava de átomos, que se movem no espaço em constante queda e que se chocam e se agrupam para formar os quatro elementos. Neste processo de clivagem todas as coisas e seres são formados, inclusive a alma, que é uma reunião de átomos mais leves, mais finos e sutis. Da mesma forma que eles se juntam, depois de algum tempo separam-se, ocasionando a deterioração das coisas e a morte dos viventes. Juntar-se-ão posteriormente, para formar novas coisas e novos seres, num processo de criação interminável.
            Cláudio entusiasmou-se pela doutrina, talvez por encontrar nela justificação para sua falta de entusiasmo religioso. Provocara-lhe a consciência de possuir dentro de si, desde muito tempo, um sentimento difuso que agora aflorava; algo como um nó no estômago, uma golfada de ar engolido, dessas que vira e revira nas entranhas e que a cada volta parece crescer e aumentar a pressão, e da qual imaginava só conseguir se livrar com o alívio de um bom e sonoro arroto. Pois Demócrito provocara-lhe o benfazejo arroto ao fornecer-lhe o ponto de apoio necessário para catapultar para fora de si toda a coorte dos deuses olímpicos, ridiculamente antropomórficos.
            De início sentiu um alívio, como se realmente houvesse expelido uma bola de ar, mas foi uma sensação passageira. Ao contrário do prosaico arroto físico, que recompõe o equilíbrio do organismo e, por isso, é responsável por um bem-estar duradouro, a eructação filosófica, ao passar o efeito inicial de alívio, revelou a existência de um vazio até então insuspeitado. Era como se esse vazio, que antes não existia, viesse a ocupar o espaço até então preenchido pelo espírito, pois o arroto, notava agora, expulsara não somente os deuses, mas o próprio espírito, que deles é decorrência lógica.
            De início, Cláudio foi tomado por uma sensação estranha, como quem perde uma perna e acorda de manhã e sente falta dela; não estava acostumado com o vazio. Mas aos poucos percebeu que, no meio daquele oco, uma semente germinava e principiava a crescer. Não sendo o tolo que os parentes supunham, não tardou a ter consciência do que era: era medo. Mas não identificou de imediato: — Medo de quê?
            Assim como a planta que cresce é nos primeiros momentos irreconhecível e só mais tarde vem a assumir a forma definitiva, o medo de Cláudio, no começo, parecia não ter nem causa e nem objeto e não podia, portanto, ser senão um medo fraco, indefinido; era um sentimento que mal merecia levar o nome de medo. Mas o infortúnio, sabia-o ele por inúmeras experiências, quando se anuncia costuma ir até o fim, sendo raro interromper-se pela metade. Não se surpreendeu, pois, ao ver crescer o sentimento, tomar corpo e revelar sua natureza: era medo da morte. Essa agora! Custou a crer. Ele, que sempre ridicularizara aqueles que tinham medo de morrer, fazendo-os ver que se tratava apenas de uma passagem, como tantas outras que acontecem na vida, como a puberdade, a maioridade, o casamento, e como tal deveria ser encarada, sem receio, sem tragédia, como podia agora vir com esse medo? Seria medo da dor da morte? Não, ninguém em sã consciência poderia ter este medo. Quanta gente morria sem dor, dormindo, e mesmo que a morte fosse por moléstia ou ferimento, a dor não seria maior do que aquelas que as batalhas ou a vida nos reservam todos os dias. Não havia nenhuma razão para se ter medo da morte, o acontecimento mais natural da vida. Mas agora ele tinha. Alguma coisa havia mudado.
            Sim, mudara realmente. Antes, ele acreditara na existência da alma; agora, não mais. Ainda que a alma, como então supunha, depois da morte do corpo fosse para o reino tenebroso de Plutão, onde ficaria a vagar como uma sombra em meio a outras sombras, ainda assim restaria a consciência da existência; uma existência triste, desfibrada, mas uma existência; uma existência em que poderia se recordar da boa ou da má vida que tivera no mundo, em que poderia se consolar junto às outras sombras, que um dia também foram homens sobre a Terra. A alma, ainda que sombra entontecida, memória esgarçada, aquebrantada vontade, ainda assim seria ele, pois no âmago a identidade não estaria perdida: ele seria sempre ele para todo o sempre. Agora tudo mudara. A crença fora irremediavelmente embora e não voltaria jamais, como se fosse um hímen rompido pelo aríete da verdade, e que não pode ser reconstruído pelo engenho humano. Bem-aventurada a crença que o tornava feliz; maldita a verdade que o liberta do paraíso perdido! Surpreendeu-se de lembrar, num momento desses, da infantil imagem de um livro sagrado de um povo que vivia no limite oriental do Mar Interior, o qual lhe passara pelas mãos havia uma dezena de anos. A metáfora daquele livro primitivo descrevia à perfeição o que acontecia com ele: o fruto da árvore do bem e do mal fora por ele ingerido e o tornara mortal, inteira e totalmente mortal. Entendia — mais do que isto, sentia — que seu fluido vital um dia lhe abandonaria a carne e só carne sobraria, e ainda assim não por muito tempo, pois o tempo lhe comeria também a carne, primeiro degradando-a e, depois, espalhando os átomos pelo espaço, para formar, quem sabe, uma espada, uma ânfora, um cão.
            Passou a se preocupar com o tempo que, fluindo, aproximava-o cada dia um pouco mais do fim inapelável. Fiscalizava as marcas que esse fluir ia colocando em seu rosto, a progressiva flacidez da pele, os vincos resultantes, a perda do viço; e, por um princípio de proporcionalidade direta, o aumento delas implicava no incremento do medo, que desta forma ia ficando cada vez maior e mais forte, até atingir o estado da onipresença. Vislumbrava Cláudio, por detrás de seus pensamentos, ao final de cômputos de unidades de mercadorias compradas ou vendidas, no meio de cálculos de preços pagos e recebidos, o medo a espreitar. Ainda quando os pensamentos eram lucubrações filosóficas, misturava-se o medo às causas primeiras, embaralhava-se com os porquês metafísicos e contaminava as teleológicas conclusões. E, se distraía o olhar por um minuto, quando o focava outra vez, lá estava o medo, transido de frio, a tremer. Uma imagem recorrente se lhe apresentava, nítida como os cascos dos barcos ancorados no porto: ele, moribundo, deitado em um catre e a morte a entrar pela porta aberta, e passo a passo, lentamente, a se acercar de seu corpo inerte, a lançar sobre seus olhos a mirada terrífica de duas órbitas vazias, negras e profundas. Ele, imobilizado de pavor, via aquelas órbitas crescer e se confundir num único buraco, do qual transbordavam ondas de escuridão, como vagas de um mar revolto que se abatiam sobre seu leito de moriente, fazendo-o naufragar. Depois, tudo cessava; o turbilhão, o quarto, tudo desaparecia, menos o negrume, agora completo, total. Não sentia mais nada, mas sabia que continuava deitado, não mais no catre, mas dentro de uma urna funerária. Tinha consciência do frio e do silêncio, sem os sentir, e do tempo que escorria como um rio calmo, onde nada alterava a superfície plana. De repente um risco vinha ferir o espelho d’água. Alguma coisa começava a raspar o silêncio, de início timidamente e logo em alvoroço: eram baratas a percorrer seu corpo, por sob a túnica, a cruzar-lhe a face, a entrar em sua boca semicerrada. Neste ponto o devaneio se rompia e ele, ofegante, voltava à vida, ao burburinho do cais. A impassibilidade do mar, verde a seus pés e azul no horizonte, acalmava-lhe o coração palpitante, mas não o impedia de lançar às águas uma cusparada, às vezes duas, e de limpar com a manga da túnica a boca nauseada.
            Com o passar dos dias foi ficando cada vez mais deprimido, perdeu a alegria de viver, quase não comia mais. Os amigos viam-no definhar, perder carnes, sem entender a causa. Ele tinha de tudo: uma casa ampla e confortável, de onde se avistava a paisagem gloriosa da baía, escravos para todo serviço, cães fiéis para lhe fazer companhia, as mulheres que escolhesse para se acostar, os mancebos imberbes que quisesse e lhe apetecessem, amigos para conversar e beber bom vinho; que mais lhe faltava? Ao princípio eles acharam graça de sua preocupação com a morte; não o levaram a sério. Decerto seria uma nova fórmula de colocar uma questão filosófica, um jeito eloqüente de postulação; afinal, o que se poderia esperar de uma mente contaminada por excelsas teorias? Aos poucos, porém, foram desconfiando de que o problema era sério. Mesmo sem compreender nitidamente a razão de tanta aflição, tinham de se render à evidência de que, para o amigo, a questão se agigantava mais e mais e ameaçava engolfá-lo. Se a situação chegara a esse ponto — raciocinavam — por causa de meditações filosóficas, talvez a única saída residisse em outras meditações filosóficas, que pudessem anular as primeiras. Assim como na arte médica muitas vezes se cura um doente peçonhento administrando-lhe doses de outras peçonhas, quem sabe não se poderia fazer o mesmo com o mercador romano? Será que, à filosofia deletéria, não se poderia contrapor uma filosofia profilática, em dose suficiente para debelar o mal? E ainda que descrentes do resultado, reconheciam que mais valia tentar que nada fazer, pois a ação pressupunha um possível fracasso, mas a inação, um fracasso certo. Assim convencidos, puseram-se em alerta, a ver se logravam identificar situação propícia à realização de seus planos. Não tardou ela a surgir.
            Soube-se que se encontrava em visita à Siracusa um sábio proveniente da cidade de Samos, situada nos confins orientais do Mar Interior. Dizia-se ser ele um filósofo conceituado, discípulo e continuador do célebre Demócrito. Isto parecia ser muito bom, pois o próprio Cláudio, sabiam os amigos, considerava-se um seguidor de Demócrito. Fizeram sondagem junto a ele sobre o nome do filósofo, que era Epicuro, e Cláudio revelou conhecer alguma coisa do seu pensamento e tê-lo em alto conceito. Tudo indicava, portanto, que o caminho havia sido encontrado; bastava trilhá-lo.
            Como um acaso sempre puxa outro, sucedeu de contrair matrimônio em Siracusa um mercador intensamente relacionado em Neápolis. Não foi difícil conseguir o comparecimento simultâneo de Cláudio e do filósofo na recepção comemorativa das bodas.
            Em lá chegando, a atração mútua dos espíritos, fenômeno pouco conhecido mas muito observado, não tardou em colocá-los frente a frente. Se de início havia uma roda de convidados à volta do sábio, curiosos pelo prestígio que o precedia, ao passar das horas foi ela se adelgaçando, a provar que para o normal da humanidade o consumo filosófico possui um nível de saturação incrivelmente baixo. O que motivara toda aquela gente não era a oitiva dos ensinamentos do mestre famoso, mas a fascinação que desperta a fama, que faz com que, ante a presença da personagem, ainda que sobre ela tenhamos manifestado a vida toda nossa desaprovação, ajamos cortesmente e apressemo-nos a apresentar-lhe nossos respeitos e sorriso, embora mais tarde venhamos a nos arrepender. Como essa fascinação, quando não se alicerça na figura real e em suas obras, mas somente na fulguração do nome, tende a se consumir de maneira rápida, como vela de má qualidade, não tardou que, em determinado momento, restassem apenas os dois a conversar, Cláudio e o filósofo. O que antes fora quase uma conferência, transformava-se agora em diálogo, sem que nenhum deles sequer disso se apercebesse, tão entretidos estavam no assunto.
            Cláudio confirmou aquilo que já sabia, que Epicuro cria, como Demócrito, que o mundo é todo feito de átomos, que se juntam para formar coisas, plantas e animais. Enquanto esses átomos estão unidos, as coisas existem e os organismos vivem; quando se separam os átomos, as coisas são destruídas e os seres, que até então viviam, morrem. Com novas junções, outras coisas e seres serão criados, para depois se desintegrarem novamente, num vir-a-ser constante e eterno. Tudo isso ele já sabia, mas não tinha conhecimento do pensamento ético de Epicuro. Por isso, surpreendeu-se com a simplicidade e, ao mesmo tempo, com a solidez da idéias morais do filósofo. Dizia ele que a felicidade é o fim último da vida e o melhor caminho para atingi-la é a busca do prazer. Não se trata, porém, da busca vulgar de prazeres sensuais. Há infinitos gozos, e os mais elevados são os do espírito. Sim, existe o espírito, mas, como todo o resto, é ele formado também de átomos, só que mais leves, e como tudo mais, um dia também se dissolverá. Há três classes de prazer: os naturais e necessários, como a satisfação moderada dos apetites; os naturais e não necessários, como aquele produzido pela gula; e os que não são nem naturais, nem necessários, como o prazer da glória. Aos prazeres, muitas vezes segue-se a dor e, em cada situação, deve a pessoa ponderar cuidadosamente os efeitos prováveis de sua conduta, para obter a maior quantidade de prazer com o menor sofrimento. A virtude principal do sábio é a prudência, que leva à felicidade e evita a dor. A ética tem duas finalidades: uma crítica, outra construtiva. A primeira consiste na derrubada das superstições, que desde tempos imemoriais afligem a humanidade; a segunda, em definir as regras que farão o homem feliz. O medo da morte e o temor aos deuses são os maiores obstáculos para se atingir a felicidade. Os deuses existem, mas são seres completamente felizes, que não mantém nenhuma relação com os homens. O mundo não é obra sua, porque, sendo perfeitos, não podem haver criado algo tão imperfeito. Ademais, não seria de se esperar que tais seres, necessariamente ditosos, empanassem sua tranqüilidade preocupando-se conosco, pobres mortais. Igualmente absurdo é o medo da morte. A morte nada é contra nós, pois enquanto nós somos, ela todavia não é; e quando ela chega, nós já não somos. Esse temor poderia ter alguma justificação se só o corpo perecesse, e não a alma. Mas a alma, como toda realidade, é composta por átomos que, ao soar a última hora, se dissiparão. Como as sensações só são possíveis pelo influxo que os átomos do exterior exercem sobre os da alma, resulta óbvio que a dispersão destes traz consigo a privação de todo sentido. Por isso o homem, já morto, não pode dar-se conta da própria destruição, nem ter piedade de si mesmo. A idéia de que é possível “viver morto” resulta contraditória.
            Todos estes pontos, assim relatados apressadamente, podem dar a impressão de uma enxurrada de chuva de verão, que passa por nossos pés com força, surpreende-nos, molha-nos as canelas e pouco depois se esvaem, deixando atrás de si apenas um filete úmido. Mas o que ficou registrado em minutos, foi conversado a noite toda entre os dois homens; os temas apenas indicados, foram aprofundados; as idéias rascunhadas, desenvolvidas. O que aqui foi esboço, lá foi pintura acabada. Portanto, não é de estranhar que tenha produzido um efeito maior de tela pronta.
            Cláudio voltou para casa embriagado, de vinho e de filosofia. O efeito do vinho passou no dia seguinte, mas o da filosofia perdurou. Não respondia às perguntas dos amigos, perdido que estava em meditação. Continuou assim por alguns dias, para desencanto deles, que imaginavam ter fracassado a tentativa de curá-lo. Mas, aos poucos foi voltando à vida normal, agora com uma diferença; um brilho novo acendera seus olhos: nunca mais teve medo da morte.
            Cláudio viveu por muitos anos e, mesmo sem querer, enricou ainda mais a si e à família. Quando chegou sua hora, a macabra veio buscá-lo, mas não o encontrou. Ele já tinha ido.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...