Tempos de pandemia!
Usar máscara é de lei, e todos a levam no rosto cobrindo nariz, boca e queixo.
Apenas os olhos ficam a descoberto.
Em uma
manhã não tão bela acordei de uma noite mal dormida. Tivera frio, vômitos e
febre. Os sobreviventes hão de lembrar que, quando a variante Ômicron chegou, ela
se espalhou como fogo em rastilho de pólvora; parecia que todo mundo ficava
doente. Por isso, com toda razão, pensei comigo: estou infectado; vou fazer o
teste! Estando o mundo inteiro também a se infectar, faltavam testes.
Agarrei o
telefone e pesquisei as farmácias do bairro. Em uma delas, das menores e mais
escondidas, havia possibilidade de realizar o teste, mas só depois das quatro
da tarde. Agendei para quatro e meia. Voltei para a cama e fiquei na aguarda.
Às quatro
horas começou a chover, às quatro e quinze o céu caía, e às quatro e meia
cheguei com o carro em frente da farmácia, carregando também comigo o dilúvio.
Abri um guarda-chuva pequeno, desses que costumamos colocar no vão da porta e,
corajoso que sempre fui, consegui entrar na farmácia molhado apenas até o
joelho.
Após normal
identificação, fui encaminhado a uma saleta onde encontrei a moça. Trajava um
avental branco que lhe ia até as canelas, deixando exposto um pedaço da calça
de brim. Nos pés, tênis também brancos, e no rosto, uma máscara azul, sublinhando
a beleza dos olhos. Não, não eram azuis os olhos, eram negros de azeviche,
grandes jabuticabas maduras, tão sedosos e brilhantes que dava vontade de
chupá-los. Ah, que umidade apetitosa! Combinavam maravilhosamente com o azul da
máscara; creio eu que combinariam com qualquer outra cor, pois todas elas não
se realçam quando perto da cor preta? O resto da face ficava debaixo da máscara,
competindo a um possível sonhador debuxar o desenho ali escondido.
A moça
tinha olhos bonitos. O Bruxo do Cosme Velho não teria a mínima dificuldade em
descrever tais olhos. Quase nunca suas heroínas tiveram pouco mais que olhos, à
exceção de uns braços semi desnudos, que dona Severina inadvertidamente
deixava que o aprendiz Ignácio os visse três vezes ao dia, durante as
refeições, ou então, também, ao quase desapercebido bico das chinelinhas de
alcova que Conceição permitiu que o
moço Nogueira vislumbrasse, ao sentar-se ela e levantar por um instante o
roupão comprido que trajava.
Voltei para
casa pensando nos olhos da moça de olhos bonitos. Lembrei de Capitu e do
feitiço que seus olhos oblíquos e dissimulados exerciam em Bentinho, o
pobre Bentinho, que teve a vida naufragada nas procelas daqueles olhos de
ressaca.
É verdade
que os olhos falam mais que a boca, às vezes até dizem o contrário do que elas
dizem. Os da moça, enquanto me atendia, pareciam despejar sonetos de amor. Pena
que não eram para mim dirigidos, e sim para a parede nua da saleta pintada de
branco, que devia ajudá-la a fixar a imagem que ela projetava de um provável
namorado, sempre belo cavaleiro andante que são eles, e sempre, também,
desconfiados a vigiar.
E agora,
perdoai-me moças do mundo, mas vou revelar uma verdade horrível: tive ciúmes do
presumível namorado. E a seguir revelo uma verdade mais horrível ainda, todas
vocês gostam muito que os namorados as vigiem, é sinal de ciúme; e ciúme é
sinal de amor. É perfeito o raciocínio, mas é incompleto, e aqui entra a outra
verdade horrível: o ciúme é um grave defeito de caráter, demonstra que a pessoa
não confia no ser amado. Mas não fiquem triste comigo, pois já lhes trago um
lenitivo para tão grande pecado, o ciúme não deixa de ser o defeito mais
apreciado do amor, e, se é pecado, é apenas venial.
O dia
inteiro os olhos da moça de olhos bonitos não saíram de minha cabeça. Fui
deitar-me à noite e sonhei com eles, pouco antes que calafrios de febre
interrompessem o sono.
Machado
diria alguma coisa maravilhosa sobre os olhos da moça, mas eu, que de machado
não tenho nem o cabo, digo apenas que eles eram apaixonantes, que eram lindos os
olhos da moça de olhos bonitos.
Mais não
pode dar quem mais não tem.
Comentários
Postar um comentário