O sol
dardeja seus raios duros sobre as águas adormecidas do mar. Atravessam eles a
superfície inerte e vão caindo no abismo. De início conservam o brilho de
origem, mas, cada vez mais fundo, vão esmaecendo até se amalgamarem ao escuro
absoluto de uma noite eterna.
O mar sem
vento não ondeia e, assim parado, é sonolento e esquecido; esqueceu-se de bem
refletir o céu azul claro, inteiramente despido de nuvens. Parece que,
atordoado do sono, prefere deixar chegar à superfície de suas águas a escuridão
de seu fundo. Veste-se, então, de uma roupagem que pinta de preto o azul
emprestado do céu.
Este mar
morto, de olhos fechados, ainda que os tivesse abertos, não veria voar em seus
ares ave alguma. Aves gostam de vento, e como não os há, foram voar em outras
paragens. Faz calor e o céu sem graça sente a falta dos pássaros fugidos. Toda
essa placidez, contudo, é enganosa; nas águas médias do mar fervilha a vida,
milhões de espécies a se agitar, a nadar, a caçar e fugir, e a se comerem uns
aos outros, que é a lei da vida.
Na praia, a
areia recebe beijos namorados da água modorrenta que vem nela se espreguiçar. A
pouca espuma produzida é suficiente para fazer menos escura a água e consegue,
aqui e ali, pintá-la nos tons de verde por Caymmi cantados. No chiado das
espumas, crianças brincam ao lado de mães sentadas. É verão e o sol começa a
queimar, mas a água fresca acaricia a pele aliviando o ardor. Previdentes,
porém, uma mãe e outra carregam os filhos para a sombra de barracas próximas,
onde os enxugam e beijam. Ainda não são dez horas e logo mais elas voltarão a levá-los
de novo ao mar.
Razão devem
ter os cientistas que dizem que a vida surgiu no mar. Se não, como explicar
essas crianças, tão pequenas que ainda nem aprenderam a andar, e que chapinham
alegres na água curta, como se estivessem voltando ao útero materno? A
impressão que dá é que dali nunca saíram.
Mães, bebês
e crianças salpicam de povo a praia, mas não só eles, também alguns velhos na
beira d’água, e raros adultos que não são mães nem babás. Um e outro desgarrado
jovem também são vistos. Um casalzinho deles acaba de entrar na água; terão
dezessete anos ou quase, e são colegas da mesma classe. Têm a manhã livre; aula
só depois do almoço. Brincam como crianças que ainda são, jogam água um no
outro, riem e gritam, furam as ondas com a cabeça, depois nadam par a par,
devagarinho, conversando. Por fim retornam ao guarda-sol.
O rapaz
senta em uma cadeira, a menina se estende em uma toalha. Pelos pedaços de
conversa que escutamos ficamos sabendo seus nomes, João e Maria. O moleque que
serve a barraca vem perguntar e Maria pede uma água de coco; João, fazendo cara
de dezoito, pede uma caipirinha. Próximo a eles, na barraca ao lado, um bebê
chora e a mãe descobre o seio e começa a amamentá-lo. Maria olha distraída e
depois firma o olhar, interessada; a cena desperta nela sonhos e desejos; ela
se vê dentro de poucos anos fazendo a mesma coisa; sempre gostou de
brincadeiras de boneca. Cutuca o João e diz baixinho:
— Olha,
João!
João olha e
se espanta. Desvia o olhar, mas só por um instante; disfarçadamente, atrás dos
óculos escuros, volta a observar. A mãe é bonita e jovem, o seio é firme e a
pele parece macia. Instintivamente ele começa a imaginar coisas, coisas que vêm
acompanhadas de alguma vergonha; pensa sua mão naquela pele sedosa, uma carícia
leve, um beijo não muito casto, e na língua um gosto de leite moça. Não vê o
mamilo, que está eclipsado pela cabeça do menino, que o suga diligente. Chega a
ter inveja daquele fedelho. Recrimina-se pelo pensamento concupiscente e desvia
o olhar para Maria, uma Maria embevecida com o sonho de também ser mãe.
— Não é
lindo, João? Quem sabe mais uns anos vamos estar assim também...
— É bonito, sim, é legal, consegue dizer João
com alguma naturalidade, mas para isso vamos ter que ter um filho.
— Lógico!
— Mas você não
quer nem começar a treinar, diz João, agora seguro de si.
— Como
assim?
— Ora, para
ter filho é preciso aprender a fazer filho,
responde João, enfatizando o termo verbal.
Maria ri, e levanta o dedo em gesto de
reprimenda:
— Você só
pensa nisso. A gente não precisa treinar, não; a gente já nasce sabendo. Mas
você é um bruto, não tem sensibilidade, não vê a beleza de uma mãe amamentando.
— Vejo,
sim, disfarça ele, mas você não acha que ela devia cobrir o seio com uma
toalha?
— Por que,
João! É tão lindo, tão natural...
— Sei não,
diz ele, meneando a cabeça, nem todo mundo é confiável. E completa: há de haver
alguém que tenha um olhar maldoso.
— Só se for
um tarado.
— É... Você
tem razão, confessa, só se for um tarado!
Comentários
Postar um comentário